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Festa carioca (O Globo Online)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Sáb 30 Ago 2003 - 14:26:29 BRT

http://oglobo.globo.com/jornal/suplementos/segundocaderno/109888627.asp

Festa carioca

Hugo Sukman

Tarde dessas, Lan não resistiu. Depois de ser qualificado de “um canalha da
Itália, milongueiro, brasileiro, peixe-espada temperado numa feijoada,
bacharel pós-graduado dentro de um bordel...”, entre outros elogios em forma
de samba, e de ouvir que “pocahontas, ficam tontas, vivem loucas, sentadas
no tchan do Lan”, o cartunista levantou-se, limpou o vinho dos lábios com as
costas da mão e tascou um beijo emocionado na imensa testa de Aldir Blanc, o
autor dos elogios na letra. E depois nas mãos de Moacyr Luz, o autor do
samba e anfitrião da tarde.

— Depois desse samba não aceito mais homenagens, fechou a tampa — disse Lan.

Cenas como essa, de emoção explícita entre os próceres da carioquice, são
comuns na casa de Moacyr Luz. Ao mesmo tempo que durante os últimos 20 anos
se aperfeiçoava no violão, esmerava-se na tarefa de compor música popular,
especialmente o samba — em recente entrevista foi classificado por Luis
Fernando Verissimo como o maior compositor brasileiro — o autor de “Saudades
da Guanabara” foi se tornando uma espécie de embaixador informal do tal
espírito carioca. Viram a cena do beijo de Lan, sentados no verdadeiro
botequim (com mesa de tampo de mármore, máquina de café de verdade) em que
Moacyr transformou sua sala, gente da estirpe de Jaguar, Paulo César
Pinheiro, Luiz Carlos da Vila, Wilson Moreira, Wilson das Neves, numa
reunião pequena, de umas 20 pessoas, para ouvir os novos sambas de Moacyr
que saem ainda em setembro no disco “Samba da cidade” (Lua Discos). Sambas
como “Mitos cariocas: Lan”.

Festas de Moacyr influenciam São Paulo

Normalmente, não menos de 50 pessoas de todos os cantos do Rio acotovelam-se
de tempos em tempos no apartamento térreo de Moacyr, na Muda, para vivenciar
um ritual nada repetitivo: ouvir sambas novos (principalmente) e antigos
pelos próprios autores; beber uma cerveja miraculosamente gelada vinda
diretamente do Bar da Maria, ali na esquina, e cachaça vinda de selecionados
alambiques; comer sardinha à milanesa, jilozinho frito, mortandela ;
testemunhar a sempre aguardada descida de Aldir Blanc (que mora no último
andar do prédio) para cantar seus sambas da maneira que só ele sabe;
celebrar a maneira carioca de viver, de beber, de comer, de fazer e ouvir
música.

Vem gente até de São Paulo, onde bares como Villaggio e o Pirajá não imitam
mais propriamente os bares cariocas, mas as reuniões na casa do Moacyr.

— Há hoje um boom carioca em São Paulo, de lugares que celebram o jeito de
ser carioca, a música carioca. Muito disso é por causa da presença do Moacyr
por lá — atesta Zé Luiz Soares, um dos donos do Villaggio e diretor
artístico da Lua Discos, que lança os discos de Moacyr e de outros cariocas
produzidos por ele, como o de Casquinha, os dois últimos de Guilherme de
Brito e o de Jards Macalé, os três, aliás, diletos freqüentadores do
botequim da Muda.

Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando candidato que queria
conhecer a turma do samba carioca, foi aonde?

— Até o Lula veio aqui. Aos poucos fui começando a notar que essas reuniões
aqui em casa, onde só vêm amigos, acabam mostrando uma coisa: que o tempo em
que vivemos é maravilhoso — diz Moacyr, enquanto forra o estômago com o
lombinho preparado pelo Baiano, retratado por Lan em algumas de suas charges
no GLOBO, frasista de primeira, figura obrigatória nos saraus. — Todo mundo
fala que antigamente era melhor, que bom era no tempo do Cartola, do
Candeia, das crônicas do Stanislaw. Essas reuniões aqui em casa mostram como
é bom viver no tempo do Aldir, do Luiz Carlos da Vila, do Lan, do Paulinho
Pinheiro, de todo mundo que passa por aqui.

O espírito antinostálgico domina as reuniões de Moacyr. Enquanto a cidade
parece submergir em meio à crise econômica, à violência generalizada, à
baixa-estima, ao macaqueamento, o Rio sobrevive nas cordas dos violões ali
presentes, na verve dos poetas, nos traços dos cartunistas, nas lentes dos
fotógrafos (que vêm até de São Paulo, como Luludi, que vem seguindo os
passos de Moacyr nos palcos e botequins para um ensaio).

São muitas as histórias que giram em torno das reuniões promovidas por
Moacyr. No seu último aniversário, por exemplo, houve o célebre encontro do
maior guitarrista brasileiro vivo, Hélio Delmiro (aliás, mestre do violão
suburbano e sofisticadíssimo de Moacyr), com o mais promissor, Yamandú
Costa. O resultado? Um duelo musical ganho pelos privilegiados que o
ouviram, de boêmios locais a outros mestres-violonistas como Cláudio Jorge e
Zé Paulo Becker. Foi na casa de Moacyr em que este, já cansado lá pelas 4h,
passou o violão para Beth Carvalho, que acompanhou Aldir Blanc em
sambas-canções para amanhecer o dia, como “Canção da manhã feliz” (Luiz Reis
e Haroldo Barbosa), clássico do repertório blanquiano caseiro. Ou do dia em
que Verissimo olhou para os lados e, vendo aquela fauna humana conhecida de
crônicas e letras de Aldir, delirou, sentindo-se dentro de uma dessas
crônicas.

— O que norteia minha carreira e essas reuniões aqui é a cidade, é o
espírito carioca — diz Moacyr. — Em que outro lugar se encontram e bebem
juntos Macalé e Aldir Blanc? Lula e Zeca Pagodinho? Um artista plástico como
o Mello Meneses que está ali, e um gênio como o Luiz Carlos da Vila, e um
letrista do porte do Paulo César Pinheiro?

A desculpa para a última reunião foi para que os parceiros ouvissem as
músicas do novo disco, “Samba da cidade”. E para que Lan ouvisse o samba que
o homenageia.

— Matou a pau — definiu Jaguar o samba sobre seu colega de lápis.

“Mitos cariocas: Lan” (“O início de uma série sobre personagens do Rio”,
garante Aldir) é um sambaço . A esgrima verbal do letrista está afiadíssima
na definição gaiata de Lan.

— Homenagear essas figuras, dar a elas as flores em vida é um dos objetivos
da parceria com Aldir — diz Moacyr, que, com o parceiro, já celebrou Carlos
Cachaça (“Cachaça, árvore e bandeira”), Clementina de Jesus (“Rainha Negra”,
gravada por Bethânia), Elizeth Cardoso (“Enluarada”), Nelson Sargento
(“Flores em vida pra Nelson Sargento”), Zeca Pagodinho (“Anjo da velha
guarda”).

Outro esporte da dupla é celebrar a cidade, o que já fizeram em incontáveis
sambas. No novo disco é a vez de “Praça Mauá, que mal há?”, sobre o local
que Moacyr mais freqüenta ultimamente, os bares da Pedra do Sal, os sambas
na ladeira da Conceição. E, abrindo o leque, Moacyr mostra sambas com
parceiros variados como Wilson das Neves, Paulo César Pinheiro (a obra-prima
“Som de prata”, sobre Pixinguinha), Martinho da Vila (“Vila Isabel”, “Zuela
de Oxum”), Nei Lopes (“27/9”), Wilson Moreira (“Briga de família”) e Luiz
Carlos da Vila (“Cabô meu pai”). Todos, de uma forma ou de outra, gerados
nesses saraus informais onde, numa explosão de emoção de Lan, o élan do Rio
sobrevive. Ou em que outro lugar dois dos maiores letristas da história,
Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, encontram-se, abraçam-se e trocam
elogios mútuos?

— Meu pai diz que eu sou o segundo melhor letrista que ele conhece. O
primeiro é o Paulo César Pinheiro — arremata Aldir.

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