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'O Canto dos Escravos' está de volta, em CD

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Paulo Eduardo Neves (neves_at_samba-choro.com.br)
Data: Ter 26 Ago 2003 - 01:25:34 BRT

http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/08/26/cad036.html

'O Canto dos Escravos' está de volta, em CD
O trabalho, original de 1982, reúne Clementina de Jesus, Geraldo Filme e
Tia Doca, que interpretam cantigas ancestrais dos negros benguelas, de
São João da Chapada, em Diamantina, Minas Gerais

 
Reprodução
Geraldo Filme, 'cabeça pensante' do samba paulistano

MAURO DIAS

Um dos títulos mais importantes e corajosos da fonografia brasileira
acaba de chegar, 21 anos depois do lançamento em elepê, ao formato
digital. Trata-se de O Canto dos Escravos (dentro da série Memória
Eldorado), coleção de 14 cantos da série recolhida por Aires da Mata
Machado Filho no fim dos anos 20 do século passado, em São João da
Chapada, município de Diamantina, Minas Gerais. Interpretando os
cantos, Tia Doca, pastora da Velha Guarda da Portela, Geraldo Filme, um
dos nomes fundamentais do samba paulistano, e Clementina de Jesus, a
rainha negra da voz, como a definiram Moacyr Luz e Aldir Blanc.

O projeto do disco e a coordenação artística são de Aluísio Falcão,
colaborador do Caderno 2, e a direção musical e produção ficaram a
cargo de Marcus Vinicius de Andrade, hoje diretor artístico da
gravadora CPC-Umes.

Ambos trabalharam, antes, no selo Marcus Pereira, que, pioneiramente,
levou a cabo um levantamento sonoro da música da cultura popular de
diversas regiões do Brasil - trabalho, aliás, que ainda não mereceu
relançamento em CD à altura de sua importância.

Marcus Pereira era um publicitário amante da música que criou o selo
para dar brindes aos seus clientes, nos fins de ano. Aos poucos,
abandou a rendosa publicidade, na qual era muito bem-sucedido, e ficou
só com a gravadora, que viveu sempre grandes dificuldades financeiras.
Problemas de distribuição, comum a todos os selos alternativos,
projetos caros, como o citado mapeamento da cultura popular, com
deslocamento de equipes e equipamento para praças distantes.

Não tinha preocupação comercial e tinha muita preocupação com a cultura.
Os que se juntaram a ele tomaram o exemplo e, posteriormente, em outros
selos, deram, de alguma forma, prosseguimento ao seu trabalho,
eventualmente, ampliando-lhe o universo. A Eldorado tinha e tem, sim,
orientação comercial, mas com extremo cuidado na seleção de seus
títulos (Cartola, Nelson Sargento, Geraldo Filme, Adoniran Barbosa
fizeram suas estréias em disco por ela), e sua iniciativa mais ousado
terá sido esse O Canto dos Escravos, que há muitos anos estava fora de
catálogo e era objeto de disputa entre colecionadores, estudiosos e
amantes da cultura brasileira.

O filólogo, filósofo, professor de Filologia Românica da Universidade
Federal e da Universidade Católica de Minas Gerais, historiador,
jornalista, presidente, durante muito tempo, da Comissão Mineira do
Folclore, foi um pioneiro em muitas frentes. Escreveu, nos anos 30, já
que sofria de deficiência visual, uma Educação de Cegos no Brasil, e
publicava, no jornal O Estado de Minas, uma coluna semanal com lições
de ortografia e gramática, além de responder às dúvidas dos leitores.

Carlos Drummond de Andrade escreve-lhe uma homenagem em forma de poema,
louvando o "mineiro ladino/ Que captou na fala do povo/ No mistério dos
ritos/ no arco-íris das serras/ O ar, a alma de Minas".

Em férias, em 1929, o filólogo viajou para São João da Chapada, onde lhe
chamaram a atenção "umas cantigas em língua africana ouvidas outrora
nos serviços de mineração", conforme descreveu no livro O Negro e o
Garimpo em Minas Gerais, obra publicada em 1943 pela editora José
Olympio.

Vissungos - Tais cantos são chamados vissungos, palavra que vem do
umbundo ovisungo (cantiga, cântico), conforme ensina Nei Lopes em seu
Dicionário Banto do Brasil. Já era plano de Aires da Mata Machado
recolher os vissungos e reunir o vocabulário e a gramática da língua
dos negros benguelas. Teve pouco êxito na primeira investida; na
segunda, ele e seu colaborador Araújo Sobrinho ouviram de um Seu
Tameirão 200 palavras e algumas cantigas; adiante, surgiram outros
cantadores que sabiam letra, música e tradução.

Mata Machado sustenta a importância dos vissungos, sua influência nos
começos daquele arraial e mais "os vestígios da língua das cantigas na
linguagem corrente, na onomástica e na toponímia" - os vestígios de um
um dialeto banto num tempo em que se pensava que a língua dos negros
trazidos como escravos para o Brasil resumia-se ao nagô.

Ele defendia que os estudos da dialetologia brasileira e questões que
dissessem respeito à etnografia seriam sempre provisórios se não fosse
considerada a importância de Minas Gerais - e o tempo encarregou-se de
mostrar seu acerto. O texto de introdução de O Negro e o Garimpo em
Minas Gerais vai reproduzido no CD; o autor autorizou essa reprodução e
a gravação de 14 dos 65 cantos que recolheu e partiturou. Autorizou,
ainda, a reprodução das notas que, no livro, acompanham as letras dos
cantos, traduções do dialeto dos benguelas e observações sobre o
sentido dos textos.

O dialeto, já modificado, incorporava palavras em português e misturava
as duas falas: "São João foi no céu, é dévera/ São João foi no céu, é
mentira/ Omenhá, omenhá rossequê", canta a voz ancestral de Clementina
de Jesus, nascida em Valença, no Estado do Rio, mas de família que
migrou de Minas, no Canto XII. Os cantos não têm títulos, são
numerados.

O disco, de uma beleza crua, não tem instrumentos harmônicos. Acompanham
os três cantores a percussão de troncos, xequerês, enxadas, cabaças,
atabaques, agogôs, ganzás, caxixis e afoxés tocados por Djalma Corrêa,
Papete e Don Bira.

Os intérpretes são figuras de sabida importância na divulgação e
sustentação da cultura brasileira de origem africana. Geraldo Filme,
grande compositor, cantor de vozeirão profundo, foi, na definição de
Osvaldinho da Cuíca, o grande articulador, a "cabeça pensante" do samba
paulistano. Tia Doca, nascida Jilçaria Cruz Costa, manteve por décadas
um pagode dominical que ajudou a manter vivo o samba de raiz carioca;
sua participação no disco foi sugerida por Clementina de Jesus, que foi
revelada ao mundo aos 64 anos, depois de ouvida, num botequim da Lapa,
centro do Rio, por Hermínio Bello de Carvalho.

-- 
Paulo Eduardo Neves
Agenda do Samba & Choro, o boteco virtual do samba e choro
http://www.samba-choro.com.br 

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