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Perfil - Moacyr Luz (Revista Música Brasileira)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Sex 01 Ago 2003 - 19:32:21 BRT
http://www.revistamusicabrasileira.com.br/
Perfil
Moacyr Luz
Luís Pimentel
Quando setembro chegar, os homens de boa vontade receberão presente extra,
além da boa e velha estação das flores. Junto com a Primavera chega o novo
CD de Moacyr Luz, artista da MPB cuja carreira vem sendo construída com
calma e delicadeza de bordadeira. Do primeiro disco (ainda em LP), lançado
no começo da década de oitenta e revelando o compositor que parecia se
enroscar com unhas e dentes nas cordas do violão, ao último, Na Galeria –
onde apenas o cantor se expõe, fazendo um passeio completo pela obra dos
grandes nomes do nosso cancioneiro – Moacyr cada vez mais se aprimorou nos
riscos do bordado. Cultivou acordes, sonoridades, lamentos africanos (muito
presentes em Vitória da ilusão), mandingas ritmas (de sobra nas batidas
ardentes e quase sincopadas de Mandingueiro) e uma seleção de parceiros
musicais de causar inveja. Que outro compositor pode exibir em sua folha
corrida musical as letras de Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Nei Lopes,
Martinho da Vila, Wilson Moreira, Luiz Carlos da Vila e Wilson das Neves? E
num disco só?
Moacyr Luz reúne essa cambada toda em trabalho que vai dar o que falar: é o
Samba da cidade, seu novo disco (pela Lua Discos), com lançamento confirmado
para setembro e que para quem já ouviu (tive essa alegria) é pedra noventa,
da primeira à última faixa. Da abertura – uma parceria inédita e inesperada
entre Moacyr e Wilson das Neves (Tudo que vivi) – ao desfecho, com uma linha
de passes entre Moacyr, Luiz Carlos da Vila e Aldir Blanc de entrar na área
com bola e tudo: Cabo, meu pai traz na levada o mais legítimo Luz; no
andamento, o estilo-evocação inconfundível de Luiz Carlos; e em alguns
versos a transbordante e certeira marca do Blanc. O CD é um passeio, através
do samba, pela cidade que o compositor tanto presa. Mergulhos no cais,
batidas na pedra do sal e vôos rasantes e que vão de Vila Isabel a Turiaçu.
Ainda da marca do Aldir é imperioso prestar atenção no jogo de ouro das
palavras na canção Mitos cariocas, homenagem da dupla ao caricaturista Lan,
“peixe (e lápis também) espada”, que nada de braçadas no coração de nove
entre dez criadores da MPB. Lá pras tantas, diz assim: “Pocahontas ficam
tontas/Sentadas no tchan do Lan”. Realmente, não é moleza. Aldir Blanc está
presente na maior parte das parcerias (umas cinco, no total), inclusive na
dengosa e delirante Praça Mauá, já muito tocada em rodas e shows e que é uma
obra-prima. Como obra-prima também é Som de prata (Moacyr Luz e Paulo César
Pinheiro), chamado à luz do mestre Pixinguinha, que a certa altura nos põe
de joelhos com versos assim: “Só quem morre dentro de uma igreja/Vira oxirá,
louvado seja/Meu santo Pixinguinha”. Vêm ainda duas parcerias com Martinho
da Vila, uma com Nei Lopes, outra com Wilson Moreira e até canção com letra
e música de mão única (Moacyr), a rítmica e pungente Eu só quero beber água,
já defendida e muito aplaudida em um festival da canção:
“Tempo passou noite alta que o galo serenou/E uma voz anunciou: meu senhor,
eu só quero beber água”. Ou algo assim. Se não for bem isso, também não é
grave, pois setembro está pertinho. Moacyr está, mais uma vez, ao lado dos
melhores instrumentistas do mercado. Tem as inevitáveis participações de
Carlinhos nas sete cordas e da percussão certeira do trio Beto Cazes, Marcos
Esguleba e Trabique. Nas cordas, além de Moacyr desfilam Paulão 7 Cordas
(que dispensa apresentação, toca em duas faixas e divide os arranjos com o
autor do disco). Pau-pra-toda-obra, Paulão ainda produziu o trabalho e
dirigiu a folia no estúdio. No coro, as vozes de Mart'nália, Analimar,
Oswaldo Cavalo e Rhichad. Participações especialíssimas: Roberto Marques (
trombone), Rui Alvim (clarinete), Carlos Malta (flauta) e Kiko Horta
(acordeon).
A audição de Samba da cidade se deu em tarde das mais gostosas, na casa do
artista, no Rio. Além de ouvir 214 vezes o CD, ainda belisquei todos os
petiscos mirabolantes da legítima cozinha tijucana, provei da coleção de
aguardentes do Moa, que só sai do Barril em ocasiões especiais, e pude rever
amigos como Ceceu Rico, Aldir, Da Vila, Alfredinho do Bip, Marceu Vieira, Zé
Luiz do Villaggio, Ize Sanz, Zé Luiz do Império, Roberto M. Moura, Teresa
Cristina, Janjão, Toninho Galante, Bráulio Neto, Hugo Suckman, Beatriz
Coelho Silva, Fernando Toledo, Macau e Mary Blanc.
Por Moacyr Luz eu boto a mão no fogo. E faço isto há tanto tempo, que já
tenho a garantia de não correr qualquer risco de ficar sem os dedos.
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