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Roberto Carlos contra a pirataria

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: Sáb 19 Jul 2003 - 17:04:39 BRT

Cada qual com seu jeito e seu "capital simbólico"

Roberto Carlos, na última quinta-feira, fez, em grande estilo, o movimento
que, para mim, foi o mais eloqüente de quantos têm sido feitos por artistas
em sua (deles) guerra contra a pirataria. Colocou em evidência no Jornal da
Nacional da Globo, numa reportagem relativamente extensa, toda a suspeição
que paira sobre as próprias gravadoras -- ou sobre parte de seus dirigentes
e representantes --, de complacência ou cumplicidade com a pirataria. E o
fez com suficiente sutileza. Com mais reticências do que palavras
explicitadas, deu a entender que não dá para confiar à gravadora as matrizes
das gravações de seu CD a ser lançado no final deste ano, nem a arte final
da respectiva capa. Sob o testemunho do repórter Edney Silvestre e de todos
os telespectadores do programa jornalístico de maior audiência da tv
brasileira, colocou esse material dentro de um malote bancário e anunciou
que o material vai ficar guardado num cofre de banco, que a gravadora não
sabe onde fica, até a época de ser encaminhado aos procedimentos
industriais, daqui a cerca de 4 meses. E disse textualmente que 4 meses é
tempo demais, que não daria pra confiar que, durante todo esse tempo, esses
originais ficassem imunes aos assédios da pirataria organizada, se tais
cuidados não fossem adotados.

Foi uma tacada de grande significação, dada por quem pode. E pode, entre
outros motivos, porque também é um tradicional (leia-se: confiável)
contratado da Globo, na pontual apresentação do disco de fim-de-ano. O meio
empresarial estima a previsibilidade (sonha com um mundo previsível, de
lucros previsíveis, e crescentes) e sabe valorizá-la, inda mais quando se
manifesta num artista, essa categoria profissional tida como "porra louca".

Roberto Carlos é contratado da Sony (ex-Colúmbia ou CBS) há uns 40 anos,
ininterruptamente. Deve ser um dos mais longos "casamentos" de
artista-e-gravadora em todo o mundo. Certamente, o mais longo do Brasil.

E não se trata de artista decadente, que viva da sombra do passado, de quem
se possa plausivelmente dizer que atribui a supostos erros ou ilícitos
alheios as causas de uma perda de estima junto ao público. Ao contrário, é
discretíssimo (o que só aumenta o significado do feito desta semana). E,
além de ser, provavelmente, o artista brasileiro que mais discos vendeu na
história, se hoje não é o número 1 de vendas a cada ano, continua ocupando
lugar destaque no grid e pontuando, ano após ano. Campeão de regularidade.
É, em suma, o artista dos sonhos de qualquer gravadora.

A matéria assinada por Jamari França, publicada n'O Globo do dia seguinte (e
reproduzida em vários jornais e na Época on line), foi inteiramente omissa
quanto aos receios do "Rei" em relação à pirataria, receios que, na matéria
do JN, foram explicitados e reiterados como a razão fundamental da entrega
do material a um banco. Aliás, a matéria de França é bem diversa do teor da
reportagem televisiva. Além de não falar dos receios de Roberto quanto à
pirataria, nem mesmo explica porque o material ficará guardado num cofre de
banco, que só pode ser aberto com duas chaves, uma das quais fica com
Roberto, outra com a gravadora (um típico acordo entre partes que não se
confiam). Como não há motivo de desconfiança da gravadora em relação a
Roberto (a obrigação dele, que é fazer o disco, já está cumprida, com meses
de antecedência), me dá a impressão de ser matéria "soprada" mais pela
gravadora do que por Roberto Carlos. Quase ouso dizer que ela já faz parte
de uma tentativa de abafar o mal-estar instaurado na civilização brasileira
do disco. O que a redime desse possível triste (do ponto de vista
jornalístico) papel é seu título, que identifica com clareza a quem pertence
a inciativa desconfiada: "Roberto Carlos decide trancar num cofre o seu
tradicional disco de fim de ano".

Mas, mesmo com as ressalvas que apontei, essa matéria conta algumas coisas
interessantes, como, por exemplo, o fato de que "os presidentes da Sony dos
EUA, México, Colômbia, Argentina, Portugal e Espanha fizeram romaria ao
estúdio dele no bairro da Urca, no Rio, no último dia 7 para ouvir o CD".
Diante disso, não chega a ser uma suposição irrazoável a de que pode ter
havido fortes "conversações" precedendo a solução adotada para preservar os
originais contra a pirataria.

Não sei, porque não acompanho a vida musical e profissional de Roberto
Carlos, se é praxe os dirigentes mundiais da Sony virem todos os anos ver de
perto os passos finais da gravação de seus discos e ouvir, ainda em estúdio,
os tapes das gravações. A história dessa indústria antes indica que
dirigentes de grandes gravadoras não primam por serem grandes apreciadores
de música. Nem que seja por razões "profissionais", sua postura costuma ser
de distanciamento. Se é assim, a descrição de tal peregrinação, como sendo
em nome da apreciação musical, pode, na realidade, ser cortina de fumaça
para não falar de negociações duras que talvez tenham rolado nos bastidores.

Ainda não vi comentários sobre o episódio, que considero o mais importante
dos últimos anos, no que toca aos entreveros entre artistas e gravadoras, em
torno dos direitos autorais e pirataria. Se continuar assim, será um
silêncio ensurdecedor. E não me refiro à Tribuna, prejudicada estes dias
pelos problemas tecnológicos que interromperam nossas comunicações.
Refiro-me à mídia mesmo, aos comentadores e críticos da cena musical.

A presença, em solo pátrio, de tantos dirigentes mundiais da Sony, aliás, já
pode ser "lida" como indicativo das preocupações da matriz com o que possa
estar rolando em sua filial brasileira (oficialmente, vão negar, é claro;
para tais situações, os franceses cunharam a expressão "ça va sans dire").

O episódio, na minha interpretação, mostra que o rei está nu. E o rei, no
caso, não é Roberto Carlos. Ele, ao invés, cumpriu o papel do garotinho que
aponta a nudez do rei. Será que todo mundo, que até então fingia que não
via, vai agora ficar fingindo que não entendeu o recado?

Ou estarei eu completamente errado nestas interpretações e ilações? Estarei
vendo cabelo em ovo e chifre em cabeça de cavalo?

Alberto
de Brasília, DF

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