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"Donga me dizia: cantar pra quê? (JB Online)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Sáb 05 Jul 2003 - 04:34:55 BRT

http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2003/07/04/jorcab20030704001.html

'Donga me dizia: cantar pra quê?'

Viúva do autor do primeiro samba, Vó Maria estréia em disco aos 92 anos

Tárik de Souza

Gabriel Jauregui

Divertida, Vó Maria lembra que Donga não a incentivava a seguir carreira e
conta: 'A casa era uma festa'

O recorde é digno de Guiness, como ressalta no encarte o pesquisador Ricardo
Cravo Albin, cujo Instituto assina a produção fonográfica do CD Maxixe não é
samba, estréia da cantora Vó Maria, do alto de seus espigados 92 anos, a
viúva do compositor Donga (Ernesto dos Santos), co-autor do samba primal
Pelo telefone, sucesso do carnaval de 1917. Seria um marco de júbilo ou
vergonha, o desembarque tão tardio no país desmemoriado? Pior ocorreu com o
próprio Donga. Ele morreu em 1974, aos 83 anos, quando a gravadora
independente Marcus Pereira ia fazer seu primeiro registro cantando.

- Gisa Nogueira e Leci Brandão puseram voz nas respectivas faixas já no dia
do velório - lembram em coro as netas Sônia e Zilmar, que moram com Vó Maria
em um apartamento da Tijuca.

Ela está forte e lúcida (''mesmo quando fica doente, faz sua própria comida
e nem reclama de dores'', testemunha Sônia) e estréia acantonada por um
elenco de primeira, com Beth Carvalho, Martinho da Vila, Nelson Sargento e
Xangô da Mangueira, entre outros. Todos freqüentadores da casa de Donga, um
líder de classe que deu o primeiro passo para o reconhecimento do samba ao
registrar Pelo telefone na Biblioteca Nacional, em 1916.

Apesar de conviver com ele durante quase 60 anos nas vizinhanças da antiga
Aldeia Campista, Vó Maria foi sua terceira esposa e se manteve afastada do
ambiente.

- Eu cantava mais em casa, em festas, para amigos. Não ia ao samba, me
limitava às batalhas de confete da Rua Dona Zulmira, onde podia voltar para
casa sozinha - lembra.

Maria das Dores Santos Conceição, filha de um lavrador, nasceu na cidade
fluminense de Mendes, veio para o Grajaú com 10 anos e foi criada por uma
família (como ocorria na época) até o casamento. Na família de médicos,
aprendeu sua única profissão: dietista.

- Fazia dieta para os doentes, mas sempre em casas, nunca trabalhei em
hospital - separa.

Casou-se aos 20 anos, perdeu o marido num desastre dois anos depois. Quando
conheceu Donga, também viúvo, sua filha ficou amiga de Lygia Santos, a filha
de Donga (professora e pesquisadora que prepara um livro sobre o pai).

- Até hoje Lygia me chama de mãe - orgulha-se Vó Maria, que só foi morar com
o compositor e músico (tocava banjo e ponteava um violão achatado que entrou
para a história como ''violão bolacha'') depois do segundo casamento.

Mas reconstitui a animação da casa dele, onde a música corria solta com
convivas como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, João da Bahiana e Benedito
Lacerda. Recorda também a famosa festa da (igreja da) Penha nos primórdios.

http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2003/07/04/jorcab20030704002.html

Cantora evitou ser caloura

- Era uma festa portuguesa com muitas barracas enfeitadas e todos os tipos
de pães para vender. Cantava-se fado, mas depois chegaram as baianas com
seus acarajés e também os sambistas - historia Vó Maria.

Dessa reminiscência ela pinçou uma das pérolas obscuras de seu repertório,
Braço de cera, de Nestor Dias Brandão, lançado na Penha e gravado por
Francisco Alves para o carnaval de 1927. Outra preciosidade dos escaninhos
de sua memória é um samba de andamento antigo, lento, cadenciado, Meu amor
vou lhe deixar, de Orlando Vieira, registrado como Meu amor vou te deixar
por Mário Reis, em 1929.

Criada em meio a uma família de músicos (o irmão tocou sax na gafieira
Elite, um sobrinho, Bismarck, é profissional do cavaquinho), a recatada Vó
Maria não quis passar pelo trampolim dos calouros.

- Minha mãe de criação queria que eu fosse cantar no programa do Ary
Barroso. Vai, Maria, você canta bem. Não vou não, o Ary Barroso é um
bocadinho aborreci- do, ele vai falar qualquer gracinha e eu vou responder
para ele - cortou ela.

Casada, o marido desdenhava: ''Cantar pra quê?''. Foram as netas que tomaram
a iniciativa de levar Vó Maria para as rodas de samba do Museu da Imagem e
do Som.

- A Marilia Barbosa (então diretora) gostou, disse que eu cantava bem e se
ofereceu para produzir meu disco - lembra.

Como o dinheiro demorou a sair, as netas gravaram um ensaio na casa de
Marilia e o bisneto veio trazer o CD único na cesta de café da manhã do
aniversário dos 90 anos. Enfim, o disco profissional ficou pronto estampando
a trajetória de uma vida.

- Como escolhi as músicas? São as que sempre cantava em festinhas ou em casa
quando era moça - decreta.

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