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Samba-rap: samba dá molho ao rap de Marcelo D2

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: VValdemar Pavan (wpavan_at_uol.com.br)
Data: Qua 14 Mai 2003 - 14:16:18 BRT

Samba dá molho ao rap de Marcelo D2

São Paulo - Marcelo D2 modificou o rap: transformou o violão de Luiz Bonfá
em base para suas rimas, chamou o filho de Bezerra da Silva para tocar
percussão na sua banda e assumiu a paternidade do recém-nascido samba-rap.
No seu segundo e novo disco-solo, À Procura da Batida Perfeita, o vocalista
do Planet Hemp acertou a mão na receita para preparar um rap com sabor
brasileiro. O aroma do álbum é carioca - no sotaque, na sonoridade remetente
à bossa-nova - e exala uma saborosa evolução na mistura dos ingredientes
refogados em Eu Tiro É Onda, seu primeiro álbum, de 1998.

Para acertar a medida do tempero, no entanto, D2 desobedeceu um conselho de
Paulinho da Viola. Na música Argumento (de 1975) o sambista pediu: "Tá
legal, tá legal, mas não altere o samba tanto assim." O rapper desprezou os
versos do mestre e botou o samba no liquidificador dos estúdios de gravação.
Nesse processo, mudou os timbres, editou melodias, mexeu no andamento e o
samba virou o molho do rap.

O rapper percebeu a contradição, achou graça e decidiu recortar o trecho de
Argumento citado acima para colar no final da faixa Maldição do Samba -
provavelmente a melhor do disco. E pediu autorização do uso para seu
criador. "Esse samba do Paulinho é inacreditável, ele vai contra tudo o que
eu estou fazendo. Não sei se eu tenho tanto cacife assim para falar de
samba, então achei engraçado colocar o sample de Argumento. É como se um
cara mais sábio que eu entrasse no meu disco e falasse: ´Calma, não é bem
assim´", lembra D2. "Eu sei que tem sambista que deve pensar que rap não é
música, mas tem que ver que nós estamos em 2003. É difícil fazer samba de
raiz."

A dificuldade virou a solução. Sem a vocação para o cavaquinho ou pandeiro,
D2 buscou as bases de samba com quem sabe fazê-las. Além de Paulinho da
Viola, foram sampleados João Nogueira (Do Jeito Que o Rei Mandou), Marku
Ribas (Zamba Ben), Luiz Bonfá (Bonfa Nova) e a dupla Antônio Carlos e Jocafi
(Kabalurê).

Na percussão de 8 das 11 faixas, foi escalado Tuca, o filho de Bezerra da
Silva. Para a produção musical e mixagem, foi convocado o craque dos
estúdios, Mário Caldato Jr. - conhecido, principalmente, pelo seu trabalho
como produtor do grupo norte-americano Beastie Boys. Nos microfones, Marcelo
D2. Neste álbum, ao contrário do anterior, ele preferiu não dividir os
vocais com nenhum dos seus parceiros do Planet Hemp.

"O Black Alien e o B-Negão participam de tudo que eu faço e, desta vez,
pensei: ´Não vou chamar´. E já que eu não chamei nenhum deles, que são meus
parceiros, decidi não chamar ninguém mesmo", justifica o rapper. Os únicos
convidados a cantar em À Procura da Batida Perfeita são o norte-americano
Will.I.Am (em C.B. Sangue Bom) e o filho de D2, Stephan, de 11 anos - ele
faz parceria com pai em Lodeando... e mostra familiaridade com as rimas e o
rap. "Ele escreveu algumas coisas, com aquela linguagem de criança, e eu
achei legal. Depois, outro dia no carro, eu ouvi ele cantando e perguntei se
ele queria cantar junto comigo", lembra D2. "A gente escreveu a letra junto,
ele até deu alguns palpites."

Nas letras, ninguém mais palpitou e as rimas bem-humoradas chegam para
renovar o repertório monotemático do rap nacional. O diferencial do álbum,
no entanto, está mesmo na sonoridade. D2 conseguiu fazer um disco coeso e
inovador sem soar repetitivo e indicou a direção para o hip hop brasileiro
se livrar da camisa de força norte-americana. "Estou apontando um caminho
para o nosso rap encontrar uma identidade e o samba é a melhor coisa para
buscar isso. Temos muitos bons rimadores no Brasil mas, musicalmente, ainda
estamos engatinhando", diz. "Nesse sentido o (núcleo de produção) Instituto
é a ponta do iceberg, reúne produtores que estão trabalhando bem. Mas é
pouco ainda."

Ramiro Zwetsch

http://www.estadao.com.br/divirtase/noticias/2003/mai/07/129.htm

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