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A valsa brasileira (Folha Online)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Dom 04 Mai 2003 - 19:04:43 BRT

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0405200308.htm

LUÍS NASSIF

A valsa brasileira

A história da valsa brasileira -e latino-americana- é curiosa. O gênero
chegou ao Brasil com a família real portuguesa, no início do século 19. Teve
como primeiro cultivador o imperador dom Pedro 1º. Quando já tinha
desaparecido de outras partes do mundo, começou o século 20 como o gênero
romântico por excelência, se impondo sobre a modinha, a toada e a seresta e
só perdendo o posto para o samba-canção nos anos 40.

Poucos gêneros produziram tantas obras-primas no século quanto a valsa.
No CD que gravei em 1995, solando bandolim (semifinalista do Prêmio Sharp de
música instrumental daquele ano, certamente pelo repertório escolhido),
selecionei pelo menos quatro valsas clássicas: "Subindo aos Céus" (Aristides
Borges), de 1908, "Louca", (Chico Neto), de 1930, "Feia", (Jacob do
Bandolim) e a venezuelana "El Marabino", de Antonio Lauro.

No início do século, já era o gênero brasileiro mais avançado ao lado do
choro.

É só conferir "Subindo aos Céus", "Revivendo o Passado", de Freire Júnior,
"Ave Maria", de Erotides Campos, as valsas eruditas de Ernesto Nazareth,
alguns anos depois as valsas singelas de Zequinha de Abreu, o "Rapaziada do
Braz", de Marino Júnior, o "Abismo de Rosas", de Américo Jacomino, "Rosa",
de Pixinguinha, as valsas de Cândido das Neves.

Na formação clássica dos regionais, é gênero tão cultivado quanto o choro,
embora não tenha conseguido se modernizar na forma.

Nos anos 40, Garoto ("Desvairada") e Jacob do Bandolim ("Feia", "Salões
Imperiais") tentaram injetar ânimo novo no gênero, mas em vão.
Nos anos 70 e 80 foram compostas algumas das mais belas valsas da história,
como "Luiza" (Tom Jobim), "Beatriz" (Chico e Edu), mas como produção
esporádica, sem ressuscitar o gênero.

O cantor Carlos Galhardo (1913-1985) foi considerado o "rei da valsa" no
país, assim como o compositor José Maria de Abreu, autor do clássico "Boa
Noite, Amor", em parceria com Francisco Matoso, com quem Maria de Abreu
compôs outras 37 músicas.

Matoso morreu jovem, em 1941, com apenas 28 anos. Além desse clássico, em
parceria com Lamartine Babo compôs "Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda" e
uma penca de músicas com o grande pianista Nono, tio dos irmãos Peixoto.

O repertório de valsas de Galhardo foi imbatível. Desde "Cortina de Veludo"
(Paulo Barbosa e Osvaldo Santiago), "O Destino Desfolhou" (Gastão Lamounier
e Mário Rossi), "Nós Queremos uma Valsa" (Nássara e Frazão) e sua gravação
mais famosa, "Fascinação" (versão de Armando Louzada para a valsa de
Marchetti).

Todos os grandes cantores até os anos 50 passaram pela valsa, assim como os
grandes compositores do século passado. Lamartine Babo ("Serra da Boa
Esperança"), Ary Barroso ("Canta Maria"), Claudionor Cruz e Pedro Caetano
("Caprichos do Destino").

Algumas das mais belas valsas brasileiras foram compostas por compositores
que ficaram pouquíssimo conhecidos fora dos círculos dos iniciados. É o caso
de Jorge Faraj (1901-1963), que, com Newton Teixeira (1916-1990) compôs um
de nossos clássicos prediletos, "A Deus da Minha Rua".

Outros dois, extraordinários, foram Roberto Martins -sobre quem escrevi
coluna semanas atrás- e Mário Rossi, compositor de alta qualidade.
Juntos, compuseram uma das mais belas valsas brasileiras, o "Bodas de Prata"
("Beijando teus lindos cabelos / Que a neve do tempo marcou / Eu tenho nos
olhos molhados / A imagem que nada mudou / Estavas vestida de noiva /
Sorrindo e querendo chorar...") Aldo Cabral foi outro autor fundamental,
parceiro de Benedito Lacerda em "Boneca". Saint-Clair Senna, de quem não se
consegue obter nada, nem na internet, compôs "Misterioso Amor", entre outros
clássicos de Galhardo.

J. Cascata e Leonel Azevedo conseguiram maior sucesso. É deles "Lábios que
Beijei", interpretação clássica de Orlando Silva.

Sadi Cabral, que cheguei a assistir, já idoso, como ator de novelas da
Globo, compôs a valsa predileta do meu avô, "Velho Realejo", em parceria com
Custódio Mesquita.

Enfim, é uma torrente tão imensa de talento e lirismo, que, se não parar
agora, ficarei escrevendo sobre a valsa brasileira a semana toda. Para
alívio do presidente do Banco Central.

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