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Marcos Lázaro e o fim da inocênciaLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Autor: VValdemar Pavan (wpavan_at_uol.com.br)
Data: Dom 27 Abr 2003 - 09:47:48 BRT
Marcos Lázaro e o fim da inocência
Empresário atuou nas últimas décadas em que o talento importava tanto quanto
o lucro
MAURO DIAS
Marcos Lázaro foi quem tornou profissional - transformou em fato - o tal do
negócio de shows, no Brasil. O show biz. A indústria do entretenimento.
Esteve por trás dos grandes acontecimentos dos anos 60 e 70.
Foi fundamental para que eles se dessem - a Jovem Guarda de Roberto Carlos e
turma, a pós-bossa nova de Elis Regina, a Pilantragem de Wilson Simonal, os
grandes festivais da canção.
E também as transmissões ao vivo das corridas de Fórmula 1, de jogos de
futebol, dos grandes embates do boxe internacional. E ainda do desembarque,
por aqui, de astros do primeiro time do pop internacional.
Engenheiro de formação, nascido na Polônia, criado na Argentina, veio para
São Paulo em 1963. Segundo a versão dele, para trabalhar. Segundo outras
versões, para passar férias. Há vazios na biografia de Marcos Lázaro. Nunca
revelou sua idade - por exemplo. Tinha experiência com o entretenimento,
tendo trabalhado, em Buenos Aires, como locutor esportivo. E o fato é que
naquele mesmo, 1963, virou empresário.
A história oficial é a seguinte: Lázaro encontrou na noite paulistana um
casal de patinadores-malabaristas que conhecia da Argentina e que estava
precisando de trabalho. O futuro empresário levou o casal a uma boate onde
costumava gozar das horas de boemia. Conseguiu colocação para o par e
recebeu 10% do cachê. Descobriu a vocação. Agenciou palhaços e outros
artistas de circo. Conheceu Elis Regina e passou a reger a carreira dela. Em
menos de um ano era o intermediário das contratações do elenco da TV Record.
A Record era, nos anos 60, o que é hoje a Globo. Era Marcos Lázaro quem
negociava preços, prazos, condições, detalhes.
Começou a vida profissional ao mesmo tempo em que, na Inglaterra, um obscuro
maestro que não dera certo na música erudita e produzia discos de música
pop, recebia, em seu escritório, o empresário de uns meninos que ele,
empresário, considerava promissores, contra a opinião de todos a quem havia
mostrado a música dos tais Beatles.
George Martin, o maestro-produtor, traçou as estratégias e transformou os
(talentosos) meninos no maior fenômeno da música popular internacional. Ao
mesmo tempo, Martin criava as bases para o definitivo estabelecimento do
conceito de indústria cultural. O sucesso em escala mundial dos Beatles
marca o fim da inocência no negócio da música, da mesma forma que as
atividades múltiplas de Marcos Lázaro transformaram, no Brasil, música em
negócio rentoso.
Para o bem e para o mal. Cabe lembrar que o dublê de empresário e criador
Chico de Assis juntou, em São Paulo, naquela mesma época, os integrantes do
MPB-4, que eram estudantes e estavam por aqui aproveitando as férias para
fazer shows (na TV Record, claro). Chico disse a eles: vocês podem ganhar
algum dinheiro com música, mas precisam decidir se continuam as faculdades
ou viram artistas profissionais.
Lázaro teria dito: vocês podem ficar ricos com essa coisa de música. Larguem
os estudos e deixem que eu cuido de vocês.
Talvez nunca tenha proferido a frase, nesses termos exatos, mas era isso
que, de uma forma ou de outra, propunha aos futuros contratados. E cumpria.
Chegou a ter mais de 100 artistas sob seu comando, até os anos 70. Foi o
tempo em que o potencial comercial começou a ser mais importante do que a
qualidade da criação.
Marcos Lázaro, que morreu no dia 17, nunca se envolveu, diretamente, com a
criação de seus contratados. Até prova em contrário, dava a eles chance de
mostrar o que criavam - e lucrava muito com isso. Uma equação que talvez
nunca mais seja retomada.
http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/04/27/cad030.html
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