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Qualidade ou clonagem? / Fórmulas acabam na pasteu rização

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: VValdemar Pavan (wpavan_at_uol.com.br)
Data: seg 11 nov 2002 - 10:18:00 EDT

Qualidade ou clonagem?

Bernardo Araujo

Alguém já reparou como discos recentes de Zeca Pagodinho, Martinho da Vila e
Dudu Nobre têm sonoridades semelhantes? É claro que os três são sambistas da
melhor qualidade e, como tais, não estão livres de repetir eventuais acordes
ou trechos melódicos. Mas a sonoridade não estaria muito semelhante? Eis a
polêmica: nos anos 80, falava-se muito que o produtor e arranjador Lincoln
Olivetti pasteurizava os discos em que trabalhava, que Rita Lee e Jorge
Benjor acabavam soando como se fossem o mesmo artista. Hoje, são
profissionais - todos do mais alto nível, diga-se - como Rildo Hora, Jaques
Morelenbaum, Cristóvão Bastos e Leandro Braga que, eventualmente, podem
incorrer no erro de imprimir um mesmo estilo a artistas diferentes. Ou a
marca pessoal do produtor deve mesmo estar lá? Com a palavra, os envolvidos:

- Acho difícil o som de artistas diferentes sair igual - diz Cristóvão
Bastos, que tem no currículo Paulinho da Viola, Nana Caymmi e outros. - É
claro que o traço de um produtor ou arranjador pode ser reconhecido, mas
cada artista tem sua cara.

Martinho da Vila dá sua opinião:

- A função do produtor é dirigir o trabalho, administrar a verba, viabilizar
a parte burocrática, cuidar da parte técnica, apresentar sugestões para o
repertório e dirigir a colocação da voz - diz ele. - Os discos correm o
risco de ficarem pasteurizados quando o produtor, além das funções acima,
faz todos os arranjos ou mesmo a maioria e não dá liberdade a demais
arranjadores. Neste caso, discos de artistas diferentes tendem a ter
sonoridade parecida.

Moska defende a co-produção dos discos

Mais ligado à cena pop, onde a padronização seria até mais freqüente,
Paulinho Moska também está atento à questão e diz que o trabalho do produtor
não deixa de ser uma arte:

- Cabe ao artista direcionar o trabalho, e não deixar a marca do produtor
ficar mais forte do que a música. É por isso que gosto da co-produção,
dividir o trabalho entre artista e produtor. Tem que haver uma troca, você
tem que se impor e saber aceitar sugestões. O problema é quando um monte de
coisa ruim é empurrado pela goela das pessoas abaixo, acaba pasteurizando o
gosto do público.

Lulu Santos, que tem sucessos ao lado de produtores como Memê e Liminha,
defende veementemente o tão atacado, nos anos 80, Lincoln Olivetti e seu
trabalho com artistas como Gal Costa e Jorge Benjor.

- Lincoln deu uma nova cara à MPB com arranjos como o de "Festa do interior"
, da Gal - diz. - É um avanço notável em termos de sonoridade, como se fosse
uma bandinha de coreto do interior tocando em Marte ou em Júpiter! Ele foi
execrado por discos como esse e o "Gal tropical", de 1979. Até o surgimento
do rock, nos anos 80, que redefiniu o som da música brasileira, o que se
ouvia era obra do Lincoln. Isso parece uma história do Nélson Rodrigues, que
dizia que o brasileiro era um Narciso às avessas, gostava de se esculhambar.

Lulu concorda com Moska ao falar da importância do peso do artista.

- Se existe algum culpado por uma pasteurização, é o diretor artístico da
gravadora, quando indica o produtor errado para determinado disco, ou, pior,
indica um produtor já pensando em copiar alguém - diz. - No meu CD "Assim
caminha a Humanidade", por exemplo, Memê botou um som de triângulo igual ao
do disco do Claudinho e Buchecha, e nem por isso os CDs são parecidos.

O mestre Rildo Hora, produtor e arranjador de Martinho, Dudu, Zeca e outros,
encerra as considerações:

- Tento aproveitar o que o cantor tem de melhor, dar a cara dele ao
trabalho, não a minha - diz. - Mas às vezes é inevitável que o trabalho
tenha a minha assinatura. A gente é muito cobrado pela imprensa quando
botamos cordas ou teclado. Dizem que fica tudo igual, embora maestros como
Radamés Gnatalli e Lindolfo Gaia já o fizessem. Mas não faz mal, este tipo
de cobrança é bom para que eu não fique muito paparicado.

Fórmulas acabam na pasteurização
Antonio Carlos Miguel

Por mais criativo que seja um arranjador, há limites. Exemplos não faltam.
Há cerca de quatro anos, tentando um upgrade em sua carreira, o cantor e
compositor José Augusto escalou arranjadores como Jaques Morelenbaum e
Lincoln Olivetti. O resultado? As canções de melodias e harmonias óbvias
nada ganharam, continuaram confinadas no escaninho do brega. Muito
requisitados, tais profissionais tendem a repetir fórmulas, patinando na
inevitável pasteurização. O toque do também pianista Cristóvão Bastos
parecia ser a garantia de classe para cantoras da MPB, mas nos últimos
tempos dava sinais de exaustão. Nana Caymmi sentiu isso na pele no insosso
CD "Desejo" (2001), e deu um ultimato: Cristóvão teria que mudar para
trabalhar no disco que dedicaria às canções de seu pai, Dorival. A sacudida
funcionou: sem piano, orquestra de cordas e arranjos grandiloqüentes, "O mar
e o tempo" é um primor.

A eletrônica é outra armadilha. Poucos são os produtores que encontram
sonoridade original na parafernália que impera nos estúdios. Para ficar
apenas num exemplo: existe coisa mais datada que "Eu e Memê, Memê e eu", de
Lulu e DJ Memê?

http://oglobo.globo.com/oglobo/Suplementos/SegundoCaderno/63314786.htm
http://oglobo.globo.com/oglobo/Suplementos/SegundoCaderno/63314787.htm
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