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PE e Samba & Choro em O Globo: Independência ou morte

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: VValdemar Pavan (wpavan_at_uol.com.br)
Data: sáb 07 set 2002 - 10:15:52 EST

Independência ou morte

João Pimentel

Uma indústria saturada, as grandes gravadoras em crise, artistas até então
intocáveis sendo demitidos ou preferindo outros caminhos e o sonho
megalômano da meta de um milhão de discos vendidos ficando cada vez mais
distante. O que para as multinacionais já passou há muito de um sinal de
alerta, para os pequenos selos tornou-se um horizonte aberto para novas
idéias. Nunca foi tão evidente a inserção no mercado de produtores, músicos
e donos de gravadoras que apostam na qualidade no lugar das cifras
milionárias, que não acreditam na arte apenas como um produto e resolveram
dar o seu grito de independência ante a morte lenta imposta por um sistema
viciado. As muitas indicações para as principais premiações de música (do
Caras ao Grammy Latino), a criação do Prêmio Rival BR, voltado para essa
produção, e da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI) são um
termômetro de um setor que, com criatividade, vem ditando novos caminhos
para a música.

O primeiro nome de peso a pular fora do barco das multinacionais foi Lobão.
Depois de romper com a Universal, o cantor, que também fez carreira na BMG,
criou o selo Universo Paralelo, lançou o CD "A vida é doce" nas bancas e
vendeu cem mil cópias. O que parecia um salto no escuro serviu de farol para
outros artistas. Beth Carvalho foi para a Jam Music, Maria Bethânia para a
Biscoito Fino (por sinal, especula-se que Paulinho da Viola e Gal Costa
estejam indo pelo mesmo caminho) e Ed Motta, depois de romper com a
Universal, negocia com a Trama.

Lobão, que prepara uma revista sobre o setor para ser lançada em dezembro e
planeja um festival com bandas do país inteiro, não sente saudade do tempo
em que tinha contrato com uma grande gravadora:

- É um relacionamento esquizofrênico. São mastodontes produzindo e
reciclando velharias. Como, num mercado de 170 milhões de consumidores,
alguém pode exportar Sandy e Junior como produto brasileiro? Isso é resíduo
decadente do tropicalismo, que tem o discurso de que tudo é lindo - ataca. -
Há dez anos precisávamos das multis para gravar. Hoje, temos independentes
vendendo 200 mil cópias sem mídia. É só mexer o caldeirão.

O produtor musical Pena Schmidt, presidente da ABMI, criada em fevereiro
deste ano e que, na semana que vem, de quinta-feira a domingo, realiza, no
Sesc Pompéia, em São Paulo, o 1 Encontro da Música Independente, confirma
este caldeirão e põe mais pimenta na mistura ao falar de números. São 80
selos associados e um catálogo de mais de três mil títulos. E isso, segundo
ele, representa menos de um quarto dos selos independentes existentes pelos
quatro cantos do país. Segundo ele, atualmente, a produção alternativa já se
equipara à das grandes gravadoras.

- Estamos falando apenas dos selos que integram a ABMI, não incluímos o
músico autônomo, aquele que lança seu próprio CD e vai à luta - conta. - A
indústria de discos no Brasil ainda despreza o universo independente, que é
rico e segmentado.

Para José Maurício Machline, que coordenou o Premio Sharp, até 1998, e é o
atual coordenador do Prêmio Caras, é mais que evidente o crescimento e a
qualidade dos pequenos selos.

- Fiquei impressionado com o material que recebi. Hoje, com uma boa
aparelhagem, o artista grava no quintal de casa. Esse mercado permite que o
artista fuja da estrutura viciada de gravadoras e rádios.

Para o produtor Paulinho Albuquerque, sócio do selo Carioca, especializado
em samba, os dois principais problemas a serem resolvidos são o da
distribuição e o da execução em rádios.

- Existem poucos esquemas de distribuição bem montados voltados para os
independentes. As grandes distribuidoras só estão preocupadas com seus
produtos e usam os pequenos selos como laboratório - diz. - O problema
também passa pelo jabá, que existe nas rádios. Como competir em um mercado
em que o critério de qualidade é o de quem paga mais?

A resposta para Albuquerque pode estar na iniciativa de Lobão, que tem ido
às emissoras conversar:

- Com a quebra das gravadoras todos vão se reciclar. Onde não há divulgador
não há jabá. Confio na serenidade das pessoas que dirigem as rádios. Vamos
entrar com promoções para que elas ganhem em audiência qualificada e espaço
publicitário. É preciso desenvolver uma nova linguagem e entender que é hora
de entrar para a História.

Sócio da Lona Records, de Vitória, do Espírito Santo, Cid Travaglia diz que,
se as rádios ainda não entraram no processo, a internet já fala essa outra
linguagem.

- Criamos uma loja virtual, a lona.com.br, e somos bem recebidos por rádios,
fanzines. A internet permite um contato rápido que mudou um pouco essa
relação de dependência com as distribuidoras. Fora isso, é preciso procurar
as rádio que não trabalham com jabá, informar as pessoas, fazer a banda
tocar - diz Travaglia, responsável pelo lançamento da banda Casaca, que
vendeu 23 mil cópias em menos de um ano, apenas com a divulgação local.

Distribuição e divulgação ganharam força na internet

Quando criou, há seis anos, a Agenda do Samba e Choro na internet
(www.samba-choro.com.br), Paulo Eduardo Neves não tinha idéia de como
poderia ajudar na distribuição e na divulgação do segmento.

- Hoje, somos um dos maiores distribuidores do selo Rob Digital, por
exemplo, mas sei que temos um papel fundamental mesmo é na divulgação desses
trabalhos que quase não encontram espaço na mídia. Muita gente tem interesse
nessa área mas a maioria das rádios virou reserva de domínio das grandes
gravadoras - reclama. - Nunca se gravou tanto. Esta história de que a música
acabou é papo das multinacionais para justificar a própria mediocridade.

Para João Marcello Bôscoli, presidente da Trama, uma das maiores gravadoras
independentes, o pecado das multinacionais foi interferir na produção
artística pensando apenas nas vendas:

- São negócios diferentes. Um é o desenvolvimento de conteúdo, a arte, a
propriedade intelectual do artista; outro é estrutural, é mandar um carro
fazer entrega, tirar nota, é o negócio. Os dois são importantes e
necessários, mas não se misturam. No Brasil se esqueceram que a gravadora só
existiu por causa do artista.

O passo mais recente de Bôscoli foi criar um setor de distribuição na Trama:

- Não precisamos de uma multi para isso. Na Trama uma coisa não interfere na
outra. O artista faz o que quer e, depois do disco pronto, pensamos como
distribuir e vender - diz. - Nós, os independentes, somos a revolução. Na
América sempre foi assim. O rock, a música eletrônica e o r&b nasceram
independentes.

http://oglobo.globo.com/oglobo/Suplementos/SegundoCaderno/42917712.htm
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