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Abandonado CartolaLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: VValdemar Pavan (wpavan_at_uol.com.br)
Data: sex 06 set 2002 - 12:18:58 EST
ARTUR DA TÁVOLA
Abandonado Cartola
Adolescência abandonada. Um fato que sempre me chamou a atenção na vida do
grande Cartola foi o abandono dele, no morro da Mangueira, lá pelos 14 anos
pelo pai. A mãe dele já estava morta, três anos antes. Ficou, então, sozinho
no mundo.
Graças ao privilégio de sentar-me junto à Dona Zica domingo passado na linda
homenagem prestada pela Mangueira ao centenário do cunhado dele, o Carlos
Cachaça, cunhado, amigo e parceiro, perguntei-lhe sobre esse momento da vida
de Cartola. Ela me esclareceu com aquele seu jeito gostoso de contar as
coisas que não foi bem assim. O pai não o abandonou na adolescência. Ele é
que não quis ir com o pai quando este resolveu mudar-se da Mangueira. O pai
insistiu e até brigou com ele. Mas o danado teimou: vou ficar aqui. E ficou.
O pai de Cartola era homem de poucos recursos e alguma cultura. Viera ao Rio
trabalhar no Palácio do Catete com um de nossos Presidentes da República
Velha. Tanto que Cartola nasceu onde hoje é o campo do Fluminense (quem
nasce ali só pode dar em coisa boa!...). Quando o Presidente saiu, houve
queda na economia do casal e eles foram para a Mangueira então um morro com
poucos moradores. Uns anos depois ele enviuvou. Só deu para o Cartola ter o
curso primário.
O pai, brabo pelo rapazote não aceitar sair da Mangueira, ameaçou: "Se você
quer ficar, fique, mas espero um dia não ler o seu nome nos jornais como
marginal." Cartola, com 14 anos, plantou-se firme nos pés e respondeu: "Pois
saiba, pai, que você nunca irá se envergonhar de mim!"
Passaram-se os anos, Cartola era do Bloco dos Arengueiros, um dos cinco ou
seis que formaram a escola de samba depois. E se virava, como pintor,
pedreiro, e como compositor e instrumentista (cavaquinho).
Certa vez, um grupo de músicos saiu do Rio para ensinar samba em São Paulo.
E para surpresa deles, saiu uma notinha no jornal, elogiando o trabalho e
dando o nome dos músicos. E lá estava Angenor de Oliveira. Cartola, que se
chamava Angenor, delirou de felicidade com a notícia. Logo que pôde, levou o
recorte ao pai. "Está vendo, pai, seu filho não saiu na página de polícia.
Saiu no jornal, sim, mas elogiado como gente direita (isso numa época em que
sambista era chamado por muitos, inclusive pela polícia, de vagabundo e
desocupado). Essa é minha resposta para o senhor."
Dona Zica concluiu, dizendo-me que pai e filho fizeram as pazes e, até o fim
da vida, o pai do Cartola sempre teve orgulho daquele rapaz franzino e manso
e que hoje é uma das mais justas e elevadas glórias da cultura popular
brasileira.
É como diz o povo: "Quem é bom já nasce feito".
Esta coluna é atualizada às terças, quartas e quintas.
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