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Os Bregas Protestavam (JB)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Eduardo S. Martins (eduardo.carniel_at_uol.com.br)
Data: seg 02 set 2002 - 11:16:46 EST
Deu no JB:
http://jbonline.terra.com.br/
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OS BREGAS PROTESTAVAM...
Lula Branco Martins
Editor da revista Programa
Informado no início da semana passada sobre o teor do livro Eu não
sou cachorro, não (que conta histórias de censura aos cantores
cafonas dos anos 70 e serve de base para a série de reportagens que o
Jornal do Brasil publica desde ontem), o compositor Chico Buarque não
teve disponibilidade para lê-lo. Chico está há meses trancafiado,
escrevendo um novo livro, projeto guardado a sete chaves. Nem seu
editor sabe exatamente sobre o que é. Não tem falado com a imprensa e
raramente é visto (deu-se uma folga na última quinta-feira, para
participar de um evento de apoio ao candidato a presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, do PT, no Rio). Mesmo assim, através de sua
asses-soria de imprensa, tomou conhecimento de alguns temas abordados
no livro sobre os cafonas. O JB também deixou uma cópia da obra em
sua produtora, no Leblon.
Logo de cara, Chico Buarque negou a veracidade das declarações
atribuídas a ele numa entrevista de junho de 1970, publicada na
Última Hora de São Paulo e reproduzida no livro recém- lançado. Eram
críticas suas aos tropicalistas. O historiador Paulo Cesar de Araújo,
autor de Eu não sou cachorro, não, conta que procurou, e não achou,
entre artigos e reportagens que saíram nas semanas seguintes à
publicação da matéria, nenhuma contestação do artista ao texto da UH.
Chico acabou que não respondeu às quatro pergun-tas formuladas por e-
mail pelo JB e disse, mais uma vez através de sua assessoria, que o
livro parece não ser sério.
Um amigo de Chico com ele nos últimos que esteve com ele nos últimos
dias ligou para a Redação do jornal e contou que o compositor havia
comentado com ele sobre o livro, confirmando que Chico desconfia da
seriedade da obra.
Caetano Veloso conversou 40 minutos por telefone com o JB. Tinha em
mãos a cópia do livro deixada em seu escritório cinco dias antes. Leu
boa parte dos capítulos e contou ter ficado bastante bem
impressionado com o trabalho de Paulo Cesar de Araújo sobre os
cafonas do período do AI-5: "O enfoque é genial. Esse livro é uma
espécie de respiradouro, um momento de saúde." Caetano festeja que
finalmente esses artistas sejam incluídos no debate sobre música
popular: "O crítico José Ramos Tinhorão, que escreveu dezenas de
obras e que sempre defende o povo, a música do povo, nunca deu um
aceno sequer para esses cafonas." É nesta espécie de vazio
historiográfico provocado, segundo a visão de Caetano, a partir da
perpetuação de conceitos equivocados e verdades estabelecidas pelas
elites, que costumam cair artistas como Odair José, Waldik Soriano e
Benito di Paula.
O destino deles foi mesmo ruim, mas pior aconteceu à dupla Dom &
Ravel. Aos dois sobrou a pecha de porta- vozes da ditadura, por causa
da marcha Eu te amo, meu Brasil (de 1970) e pelo conteúdo das
declarações que davam na época. Repercutiu muito a entrevista feita
por Luís Nassif para a revista Veja.
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O QUE PASSOU, PASSOU
A história vem construindo uma imagem dos cafonas como cantores
absolutamente alienados, que em suas letras só falavam de dores e
amores enquanto os anos de chumbo deixavam vítimas pelos porões e
jogavam cadáveres no mar. Alguns desses cafonas, como os irmãos Dom e
Ravel, costumam ser tachados também de adesistas. Por causa do
sucesso da marcha Eu te amo, meu Brasil, eles acabaram virando, no
imaginário popular, "os cantores da ditadura". Por outro lado,
historiadores e pesquisadores da música brasileira tratam bem melhor
a turma da chamada MPB - e a impressão que fica é que durante o
período do AI-5 toda a MPB estava na resistência, produzindo sempre e
tão-somente canções de protesto. Não é a verdade absoluta. O livro Eu
não sou cachorro, não dá exemplos de adesismo, conformismo e
colaboracionismo saídos de partes insuspeitas da grande MPB. Ao lado,
alguns deles.
BEN ENQUADRADO
Em 1970, o cantor Jorge Ben respondeu positivo ao slogan "Brasil, ame-
o ou deixe-o", marca registrada do regime militar, espécie de convite
ao exílio espontâneo. Alguns de seus colegas estavam saindo do Brasil
a contragosto para cantar noutro lugar, bem longe. Jorge Ben amava o
país, não precisava deixá-lo. Tanto que escreveu o samba Brasil, eu
fico. A letra chega a ser agressiva com os possíveis opositores às
suas idéias: "Este é o meu Brasil, cheio de riquezas mil/ futuro e
progresso do ano 2000/ quem não gostar e for do contra que vá
para...". Antes, Jorge já tinha feito a também exaltativa País
tropical, gravada em 1969. Procurado pelo JB para conversar sobre a
música, Jorge Ben Jor não quis dar entrevista depois de saber qual
era o assunto. O jornal manteve contato com sua assessoria de
imprensa. A resposta foi: "O Jorge não costuma fazer matérias assim,
sobre o passado. Ele é ruim de memória." Na entrevista ao JB, o
cantor Caetano Veloso, amigo do artista e que volta e meia o
homenageia em suas letras, disse não conhecer Brasil, eu fico. "Mas
não me surpreendo que o Jorge tenha feito músicas assim naquela
época", observou Caetano. Há alguns meses Jorge Ben Jor gravou um
especial acústico na MTV, que gerou disco e DVD em edição caprichada.
Cantou músicas daquele tempo, como O namorado da viúva e O circo
chegou. No site oficial do cantor, não existe nenhuma menção a
Brasil, eu fico. O compacto com a música, cantada por Wilson Simonal,
foi garimpado por Paulo Cesar de Araújo entre os discos à venda em
camelôs nas calçadas do Centro do Rio.
NELSON FELIZ
O compositor, produtor e crítico musical Nelson Motta fez, em 1971,
em parceria com Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, um tema para ser
usado na TV Globo como jingle de fim de ano. Era a música Um novo
tempo. Todos lembram da sua melodia e conhecem os seus versos: "Hoje
é um novo dia/ de um novo tempo, que começou." A valsinha fez tanto
sucesso que passou a ser repetida desde então, a cada Natal, em coro,
pelo elenco da emissora. A atriz Dina Sfat, que por contrato era
obrigada a participar do coral de fim de ano da Globo, na época deu
uma bronca em Nelsinho Motta: a argumentação da artista era que a
letra seria por demais alegre e feliz, servindo de propaganda à
ditadura. O livro Eu não sou cachorro, não reproduz o que Nelson
Motta já havia narrado no seu Noites tropicais, lançado em 2000: "Um
novo tempo tocava demais, em todas as casas e churrascarias, e eu não
sabia se sentia orgulho ou vergonha."
ZÉ KÉTI MUDADO
Nos primeiros anos do regime militar, em meados da década de 60, ele
teve seu sam-ba Opinião transformado em hino da resistência. Mas,
tempos depois, mais exatamente em 1972, Zé Kéti gravaria uma marcha-
hino para ser usada nas comemorações oficiais do Sesquicentenário da
Independência - na capa, havia estampadas fotos dos generais
poderosos da época. O livro conta que o sambista pensou até em enviar
uma cópia de Sua excelência, a independência para o ministro da
Educação, recomendando que a marcha fosse cantada também nas escolas.
A música louvava a Petrobras, a Transamazônica e a bandeira
brasileira. "Ninguém, ninguém segura, não!", dizia a letra. Era uma
citação à frase "Ninguém segura o Brasil", pronunciada pelo
presidente Médici durante a campanha da Seleção na Copa de 70.
JOÃO COMEMORANDO
No início da década de 70, o governo assinou um decreto estendendo
para 200 milhas o limite do mar territorial brasileiro. Comemorando a
medida, em 1972 João Nogueira faria letra e música de Das duzentas
pra lá, que festejava: "Esse mar é meu/ leva seu barco pra lá desse
mar/ tem rede verde-e-amarela/ no azul desse mar." Em seu livro,
Paulo Cesar de Araújo classifica a música como uma canção
adesista: "Algumas pessoas podem não enxergar assim, só porque foi o
João Nogueira - um cara do samba, da raiz, da MPB - quem gravou a
música. Mas me pareceu uma patriotada dele. Se por exemplo os seus
autores fossem Dom e Ravel, Das duzentas pra lá seria adjetivada de
ufanista e eles seriam crucificados." O aumento da faixa de mar
territorial foi bem-recebido por praticamente todos os setores da
sociedade brasileira, o que, segundo Paulo Cesar de Araújo, reflete o
clima ufanista daqueles tempos. João Nogueira, que morreu há dois
anos, foi figura atuante no processo de redemocratização do país,
participando a partir da década de 80 de campanhas de partidos
progressistas, como o PDT de Leonel Brizola.
SILVA CONVOCANDO
Redescoberto este ano, num disco que revê sua obra, o sambista
octogenário Roberto Silva ganhou novo espaço na mídia depois de
passar três décadas meio sumido. Costuma ser considerado pela crítica
um dos maiores intérpretes da música popular brasileira. Grava sambas
de Chico Buarque, divide faixas com Caetano Veloso e vem recebendo
elogios de João Gilberto e Zeca Pagodinho. Em 1970, Roberto Silva
prestava todo seu apoio às idéias do general Garrastazu Médici ao
gravar Protesto ao protesto, samba que dava título a seu LP e que
parecia um contundente recado aos artistas de esquerda: "Hoje em dia
falam tanto em protesto/ lanço aqui meu manifesto/ já é hora de
parar/ vamos ajudar o presidente/ a enfrentar firme o batente/ para o
Brasil melhorar."
LECI INTEGRADA
Parecia a crônica de um país perfeito e integrado. Em 1972, a
sambista Leci Brandão (que anos mais tarde participaria de movimentos
contra a discriminação racial, virando uma denunciadora contumaz e
até ranheta do embranquecimento das escolas de samba) escreveu uma
música de título enfático, à beira da alienação: Nada sei de
preconceito. Exaltava: "Minha terra é verde-e-amarela/ e meu amigo
branco é meu irmão/ ele é do asfalto e eu sou da favela/ mas existe a
integração." Quando conversou com o JB sobre a música, semana
passada, Leci estava participando da inauguração de um centro contra
a discriminação racial no interior paulista. Por telefone, ela
admitiu: "No começo dos anos 70 eu era mesmo uma alienada." Sem
constrangimento, chegou a citar outros exemplos de letras suas, da
época, que tinham enfoque parecido com Nada sei de preconceito. Leci
acredita que tenha entrado para a História como uma sambista engajada
por causa de sua participação posterior em movimentos sociais.
O MAIOR DE TODOS
Sambista, compositor de jingles e acima de tudo autor de Pra frente,
Brasil,o te-ma da Copa de 70 ("Noventa milhões em ação/ pra frente,
Brasil, do meu coração"), o publicitário carioca Miguel Gustavo
compôs não uma, nem duas, mas várias músicas engajadas com os
projetos do regime militar. Fez, por exemplo, Brasil, eu adoro você,
lançada numa gravação patrocinada pela Eletrobrás e distribuída ao
país com a mensagem "é tempo de vitória, de festa e de fé". Também é
autor da Marcha do Sesquicentenário e de Semana do Exército,em que
dizia: "Fator de integração e segurança/ soldado é o povo fardado/ é
o povo ao seu lado/ na guerra e na paz/ no encontro seguro/ que o
Brasil tem com o futuro." Todas estas canções foram feitas entre 1970
e 1972. Curiosamente, Miguel Gustavo (que morreu em 1972) não ficou
marcado como porta-voz da ditadura. Nas obras sobre música ele é
geralmente adjetivado como criativo jinglista e bom autor de sambas.
O escritor Gilberto Vasconcelos, que em 1977 lançou De olho na fresta
(sobre MPB e censura), saúda Miguel Gustavo em seu livro como
sendo "um dos grandes compositores de sambas de breque". Capítulos
antes, Gilberto Vasconcelos decretava que Dom e Ravel eram
os "apologetas do regime autoritário".
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