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Aldir Blanc em O Globo

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: dom 01 set 2002 - 02:39:36 EST

http://oglobo.globo.com/oglobo/Suplementos/SegundoCaderno/42831097.htm
[http://oglobo.globo.com/oglobo/Suplementos/SegundoCaderno/42831097.htm ]
 
 
 
 
Achados e perdidos do equilibrista da MPB
 
 

Eduardo Fradkin
 
Uma conhecida canção será dedicada a Aldir Blanc por um coro estelar,
composto por Guinga, João Bosco, Paulinho da Viola, Walter Alfaiate,
Moacyr Luz, Cristóvão Bastos e Silvio da Silva Júnior. O grupo entoará o
mais melodioso “parabéns pra você” da história da MPB nesta segunda-feira,
no Sesc-Tijuca, em comemoração aos 56 anos do poeta da música. Na ocasião,
a editora Irmãos Vitale lançará um songbook com 34 músicas letradas e
selecionadas por Aldir. A festa, marcada para as 19h, será aberta ao
público, como são as descontraídas rodas de bar freqüentadas por essa
turma.
 
 
Mas nem tudo é motivo de festejo. Apesar de tão famoso por suas letras
quanto por ser arredio e tímido, Aldir não poupou palavras (nem garrafas
de cerveja) numa conversa informal em que revelou ao GLOBO não receber um
tostão de direitos autorais e desconhecer o destino de 70% do que
escreveu. Sem medo de suscitar polêmica, falou também sobre rádios e
gravadoras. Falou mal, claro.
 
 
Segundo compositor, gravadoras querem cópias
 
 
— Quem manda no mercado são dez ou 15 ex-músicos de péssima categoria, que
acabaram transferidos para cargos de chefia em gravadoras e rádios —
decreta Aldir. — Hoje, ditam regra. Querem que os músicos façam as coisas
da forma mais burra e óbvia possível. Canso de ler pedidos de músicas
iguais às que estão nas paradas de sucesso. Houve uma perda muito grande
em comparação aos meus tempos de juventude, quando meus vizinhos do
Estácio nem sabiam falar inglês mas ouviam jazz. A harmonia se esvaziou. A
melodia se perdeu.
 
 
Ele se lembra de outras perdas. Muitas músicas para as quais Aldir
considera ter escrito suas melhores letras permanecem inéditas. O artista
lamenta não saber por onde andam cerca de 70% das 1.300 canções em que
estima ter colaborado (das quais cerca de 400 foram gravadas).
 
 
— Meus parceiros ficam com as músicas. Entrego-lhes minhas filhas e não as
vejo mais. Com Moacyr (Luz) devo ter 60 inéditas. Com Silvio (da Silva
Júnior) , devo ter cem. Com João Bosco, há dezenas, algumas das quais nem
ele nem eu nos lembramos. Uma vez, pediram para mim e para Guinga 30
músicas para Leila Pinheiro, das quais ela gravou 14. As outras 16 estão
por aí — revela Aldir, que conta com a ajuda da mulher, Mary, para
organizar as partituras.
 
 
A culpa pelas canções descartadas acaba recaindo sobre os produtores, que
exigem um superávit musical de causar inveja em negociador do FMI. Mas
engana-se quem imagina que Guinga não dá valor às colaborações do
letrista.
 
 
— Devo ao Aldir 50% de tudo o que consegui na minha vida musical. Quando
ele se tornou meu parceiro, eu estava prestes a desistir de ser músico.
Iria continuar com meu ofício de dentista e fazer música para mim mesmo —
declara.
 
 
Os elogios vêm de todas as direções. Paulinho da Viola se recorda
carinhosamente da época em que trabalhou com o poeta numa entidade de
defesa dos direitos autorais de artistas, a finada Sombras.
 
 
— Ele é uma pessoa adorável, além de excepcional letrista e um formidável
cronista — afirma Paulinho.
 
 
Por ironia, o aniversariante de segunda-feira é quem precisa hoje da ajuda
de uma entidade como a Sombras, que co-fundou nos anos 70. Sua faceta de
“formidável cronista” é a mais lucrativa e é escrevendo textos para
jornais e sites que sustenta a família. O que deveria embolsar com
direitos autorais pelas letras de canções desaparece no meio de
“confusões, contratos embaixo do pano, um lamaçal”.
 
 
Nada que comprometa o bom-humor. Luz ainda se lembra da simpatia com que o
poeta o tratou ao vê-lo tocar nos idos de 1984 no extinto bar Erva Doce,
na Tijuca. Depois do show, beberam, conversaram e racharam um táxi para
casa. Luz estava curioso para saber onde o companheiro recluso morava. Os
dois foram indicando o caminho ao motorista até chegarem ao mesmo prédio.
Eram vizinhos.
 
 
Parceiro ressalta os dotes musicais do letrista
 
 
Ele conheceu o violonista Silvio da Silva Júnior na adolescência, quando
tocava percussão, e com ele aprendeu a manejar um violão. Mais que isso,
Aldir atribui ao amigo o privilégio de tê-lo ensinado a “achar os espaços
entre as notas para encaixar as letras”. Modesto, o professor retribui:
 
 
— Aldir não precisava de parceiros para fazer música. Se não tivesse me
aproximado dele com minha perspectiva de violonista, talvez ele fosse hoje
o maior compositor de sambas-enredos do país.
 
 
No rol de parceiros do letrista, um nome figura com destaque: João Bosco.
Juntos, escreveram “O bêbado e a equilibrista”, eternizada na voz de Elis
Regina. A parceria terminou em 1983, numa lendária briga. Lendária mesmo.
Para Aldir, ela nunca existiu.
 
 
— Tenho desentendimentos naturais com todos os meus parceiros e com ele
(Bosco) não era diferente. Mas não tivemos uma briga que nos separou.
Ocorreu que nossos telefonemas semanais se tornaram mensais e depois
anuais. Mas continuamos a nos ver. Não quero que minha biografia tenha
rancores — desabafa.
 
João Bosco foi procurado para confirmar essa versão. Sem resposta, foram
dez ligações frustradas. Falar com Aldir também não é fácil. As ligações
são sempre atendidas por uma secretária eletrônica. O telefone, portanto,
deve ter sido mesmo o culpado pela separação da dupla.
 
 
 
 
http://oglobo.globo.com/oglobo/Suplementos/SegundoCaderno/42831098.htm
[http://oglobo.globo.com/oglobo/Suplementos/SegundoCaderno/42831098.htm ]
 
 
 
 
 
Noites em claro na Tijuca
 
 
Nascido no Estácio, Aldir mora até hoje num bairro próximo, a Muda. Mas
costuma dizer que vive mesmo em Vila Isabel. Na verdade, toda a região é
denominada Grande Tijuca. Só mesmo ele para desfazer essa confusão:
 
 
— Meu bairro começa na Vila Mimosa e acaba no Alto da Boa Vista — brinca.
 
Se as tiradas parecem inesgotáveis, o mesmo não se pode dizer da
inspiração. O poeta confessa passar noites em claro com ocasionais
bloqueios criativos.
 
 
— Não tenho letras prontas, não uso truques. Faço a letra em cima da
melodia. Certa vez, fiquei com um bolero na cabeça que não me deixava
dormir. Um dia , vinha biritado de táxi para casa e a letra foi surgindo
na minha cabeça. Ao chegar, peguei um papel e comecei a anotar. Não perdi
uma palavra — conta Aldir, referindo-se ao processo de criação da clássica
parceria com Bosco “Dois pra lá, dois pra cá”. (E.F.)
 
 
 

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