Clique para a página principal

Cafonas revolucionários (O Globo On line)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
 Página principal > Tribuna Livre > Arquivo das mensagens > Indice mensal
Nova mensagem Responder Mensagens por data Mensagens por discussão Mensagens por assunto Mensagens por autor

pl_PL: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: dom 01 set 2002 - 02:22:26 EST

Oi gente:
 
 
Essa matéria eu ainda não sei se é prá rir ou prá chorar...:-( Mas com
crteza o Eduardo Martins vai gostar...:-)
 
 
Beijins. Sonia Palhares (BsB-DF)
 
 
 
http://oglobo.globo.com/oglobo/Cultura/42823143.htm
[http://oglobo.globo.com/oglobo/Cultura/42823143.htm ]
 
 
 
 
Cafonas revolucionários

Simone Ruiz
Responda rápido: quem teve mais músicas censuradas pela ditadura militar
dos anos 70? Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Odair José? A resposta certa
é o cantor cafona, autor de hinos bregas como "Pare de tomar a pílula" e
"Essa noite você vai ser minha". Mas como? Era o que Odair mesmo se
perguntava desde meados dos anos 90, quando foi informado da colocação no
ranking histórico pelo professor de História e pesquisador Paulo César de
Araujo, 40 anos, que lança este mês no Museu da República o esclarecedor
'Eu não sou cachorro, não'.
 
 
No livro de quase 400 páginas, continuação de uma tese de mestrado em
Memória Social, Paulo César prova que os chamados cantores populares da
linhagem de Odair, como Paulo Sérgio, Waldick Soriano, Nelson Ned, Agnaldo
Timóteo e outros então taxados de cafonas (o termo brega só surgiu nos
anos 80), foram tão contestadores e de esquerda no período da repressão
quanto a geração surgida durante os festivais de MPB nos anos 60 (Chico
Buarque, Caetano, Gil, Geraldo Vandré etc). Vamos aos fatos:
 
 
Em 29 de abril de 1973, o diretor do Servico de Censura de Diversões
Públicas da Guanabara justificou a proibição da balada ‘Em qualquer
Lugar', de Odair José, afirmando que o texto da música era "descritivo de
atitudes comportamentais abusivas ao desejo sexual, atentado ao pudor e
exaltação do amor livre". O flagrante, sublinhava o censor, aparecia logo
na primeira estrofe da canção: “Se você quiser/ a gente pode amar/ no meio
deste mundo/ em qualquer lugar/ dentro do meu carro/ parado em um jardim/
debaixo do chuveiro/ você sorri pra mim...”
 
 
Problema semelhante, lembra Paulo Cesar, Odair enfrentou em 1974 com "A
primeira noite de um homem", que seria a principal faixa de seu LP
"Lembranças". Inspirada no título brasileiro do filme que revelou o ator
Dustin Hoffmann, a canção dizia: "A primeira noite de um homem é uma noite
tao confusa/ é uma noite tao estranha/ meu desejo era tanto/ que eu nem
sabia por onde começar/ o meu corpo esquentava/ eu tremia/ não conseguia
falar". Encaminhada ao mesmo serviço de censura, a letra foi vetada porque
"como a música é de índole popularesca e seria consumida por público
jovem, torna-se mais ainda contra-indicada sua liberação”
 
 
É Odair José quem faz cair a ficha do leitor:
 
 
- O que rolava antigamente na MPB era o namoro no portão sob a luz do
luar. Eu vim falando de cama, de pílula, de puta, de empregada doméstica,
porque essa é a realidade do Brasil. E usou um cantor da realidade. Então,
foi por isso que eu me tornei um artista polêmico e a censura começou a me
proibir.
 
 
 

Odair não foi o único. Em sua pesquisa de sete anos, que incluiu um
mergulho de dois anos nos arquivos da censura, Paulo Cesar descobre que,
até mesmo os ''adesistas'' Waldick Soriano, Nelson Ned e Lindomar Castilho
(resgatado agora pelo hit 'Doida Demais', tema do programa 'Os Normais),
tiveram canções censuradas ou algum problema com a censura entre 1968 e
1978. A década, período abordado pelo livro, foi escolhida pelo autor
porque corresponde aos exatos 10 anos de duração do Ato Institucional nº
5, que oficializou a ditadura militar no Brasil.
 
 
 
É nesta data, situa Paulo Cesar, que se registram marcos históricos da
época como a morte do estudante Edson Luiz no confronto com militares no
Rio, a invasão da Universidade de Brasília por tropas da polícia e do
Exército e a Passeata dos Cem Mil contra o governo.
 
 
Claro, nenhum dos "cafonas" (termo cunhado pelo comunicador Carlos
Imperial), teve relação direta com nenhum desses acontecimentos. Eram
todos inteiramente alienados das questões políticas. Sua combatividade de
esquerda, admite o autor, era inconsciente. Nenhum deles escrevia letras
ou cantava com intenção de protesto.
 
 
- Os episódios políticos de 1968 causaram impacto na classe média mais
intelectualizada e em seus setores populares organizados. Nos segmentos
sociais mais pobres, origem de todos os "cafonas", eles não tiveram
repercussão - observa Paulo César.
 
 
A ditadura para os "cafonas", define Nelson Ned no livro, era "como uma
sonda em Marte":
 
 
- Meu negócio era trabalhar para ajudar minha mãe e mandar dinheiro pra
casa. O AI5 pra mim era coisa de um universo muito distante. Eu não
passava de um anãozinho grotesco - diz Nelson Ned, censurado por uma
canção cujo título era "Vá para aquele lugar".
 
 
 

A história da criação de ''Eu não sou cachorro, não'', maior sucesso de
Waldick Soriano, explica bem a tese de Paulo Cesar. A música foi criada
numa noite de 1972, inspirada no desabafo de um empresário que esperou o
cantor mais do que o previsto no aeroporto de Natal onde ele chegava para
fazer um show ('' - Porra, Waldick, eu não sou cachorro, não para ficar
tanto tempo esperando!''). Waldick simplesmente achou engraçado e fez a
música, que acabou servindo tanto para extravasar dores do coração de
operários, porteiros e domésticas, a massa de ouvintes dos ''cafonas'',
quanto para externar sua revolta com os patrões que os oprimiam.
 
 
- Quantas trabalhadores braçais, com os olhos embotados de cimento e
lágrimas, não poderiam estar cantando "Eu não sou cachorro, não/ para ser
tão humilhado?", escreve Paulo Cesar - Mas duvido que algum deles adotasse
a clássica "Construção", de Chico Buarque, como um hino. Eles simplesmente
não entendiam que aqueles versos de alto nível poético diziam respeito a
eles.
 
 
 
 
 Tenha você também um MSN Hotmail, o maior webmail do mundo: Clique aqui

#Mensagem modificada, anexos e HTML removidos#
_____________________________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta

Nova mensagem Responder Mensagens por data Mensagens por discussão Mensagens por assunto Mensagens por autor

Este arquivo foi gerado por hypermail 2.1.4 : dom 01 set 2002 - 02:22:31 EST