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Samba finlandês era: "Clássicos do Samba" na Dinam arca

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Fernando Toledo (fernandotoledo_at_hobeco.net)
Data: seg 26 ago 2002 - 16:52:33 EST

Carlão:
>
> Quem sabe a Orquestra Sinfônica de Aarhus tem mais familiaridade com a
> linguagem do samba do que as orquestras sinfônicas aqui do Brasil? Como é
> cosmopolita o nosso Ministro da Cultura! Como é moderno o Governo FHC!
>
> Um abraço,
>
> Carlos Mauro.
>
> P.S.: Vejam que as Velhas Guardas das Escolas foram substituídas pelos
> casais de mestres-salas e portas-bandeiras... santa macumba prá turista,
> Batman!

Creio que seria interessante colar aqui um texto de meu diário de viagem do
ano passado. Desculpem se estiver meio truncado e com falhas de revisão,
escrevi num hotel à noite, apenas para registro, num frio do cacete.
Segue abaixo.
Um abraço,
 Fernando Toledo

ESCOLA DE SAMBA IMPÉRIO DO PAPAGAIO
"Meu amor/ Meu prazer/ Viajei/ Pra te ver" - Railli, da Escola de Samba
Império do Papagaio, inicia o samba composto pelo brasileiro Martinho da
Vila para outra escola, desta vez a Unidos do Mundo, formada por integrantes
de toda a parte do planeta, num claro exemplo de como a boa música, e a boa
Arte, enfim, desconhece fronteiras e critérios históricos.
Cosmopolitismo é a palavra-chave neste momento: estamos sob uma Igreja
Ortodoxa Russa, no interior de uma caverna, em Helsinki, capital da
Finlândia. O local em questão é a quadra da Império do Papagaio, a maior
escola de samba finlandesa. É sério: existem cinco escolas de samba na
Finlândia, e há inclusive uma associação formada pelas mesmas: a ASSF,
Association of Samba Schools from Finland. As Escolas são: Império do
Papagaio (de Helsinki), Samba Carioca (de Turku), União da Roseira (de
Tampere), Samba Maracanã (de Lahti), e El Gambo (referência meio que gringa
ao bairro da Gamboa, um dos berços do samba, no centro do Rio de Janeiro).
A chegada à quadra é quase que folclórica: existe um portão de aço sob a
Igreja de Temppelinaukio, ao final da rua Frederikinkatu, e, por meio do
mesmo, entra-se em uma caverna subterrânea (provavelmente escolhida por sua
capacidade de isolamento acústico). Percorrendo a caverna, vamos passando
por fotos de desfiles de Carnaval da escola.
Finalmente, chegamos à quadra, e nos deparamos com várias crianças tendo uma
aula de dança, com ritmos brasileiros, como axé-music e pagodes,
intercalados com sambas de enredo, obviamente uma mistura um tanto estranha.
Mas tudo bem.
Fomos carinhosamente recepcionados pela presidente da escola, Karita
Winquist, que nos deixou absolutamente à vontade, e pediu-nos que
esperássemos o início do verdadeiro ensaio, desta vez com bateria. Ensaio é
o termo correto: a escola funciona fazendo jus a este nome, com a Professora
Kathi Rosendhal ministrando aulas de dança calcadas em ritmos brasileiros.
Chega o nosso contato: Heikki Tulokas, que, no sítio oficial da escola, é
citado como vice-presidente da mesma - idéia que ele recusa sorrindo. Heikki
já foi presidente da ASSF, e é um absoluto apaixonado pelo samba. Chegou à
Império do Papagaio levado por amigos da empresa em que trabalhava,
iniciou-se nas aulas de dança e acabou por ser levado por uma espécie de
vórtice ao mundo do samba na Finlândia.
Descubro, para meu inenarrável horror, algo que parece inconcebível para
quem conhece a fama alcoólica do povo finlandês e está acostumado com
escolas de samba cariocas: que na quadra da escola não podem ser vendidas
bebidas destiladas - a legislação finlandesa relativa a bebidas é
extremamente severa, e a venda das mesmas é absolutamente proibida em
recintos frequentados por crianças ou adolescentes. Sou obrigado a me
contentar com as duas últimas cervejas (praticamente mornas, como qualquer
cerveja ingerida nesse país) da geladeira do Heikki (pelo menos custaram bem
mais barato que qualquer uma vendida em qualquer bar de Helsinki). Mas
tergiverso.
A escola é bastante pobre, especialmente para um país com o nível de vida
altíssimo. As alegorias parecem ter sido confeccionadas em um pequeno bloco
desses de animação. Descubro logo o motivo: ao contrário de nossas
megaescolas, a Papagaio não tem fins lucrativos. Todos os seus integrantes
são voluntários e se cotizam para manter a escola funcionando, inclusive no
tocante às aulas, ensaios, desfiles etc. Heikki me informa que costumam
cobrar por apresentações. Não consegui descobrir a periodicidade das mesmas,
que não deve ser muito frequente...
A quadra é toda decorada com fotos de Carnavais passados e camisas e
bandeiras de várias escolas cariocas, como Estácio, Portela e Mangueira.
Tais camisas foram (e continuam, a cada ano, sendo) recolhidas pelos
membros, que costumam passar o Carnaval no Rio, viajando para aprender sobre
samba, se divertir e, obviamente, encher a cara (que creio ser um dos
esportes preferidos deles - menos nas quadras de escolas de samba,
unfortunately...).
O ensaio começa: a bateria, surpreendentemente, é muito boa, apesar dos
poucos integrantes. Mestre Jupe Väre a conduz tal qual um brasileiro (e
carioca, principalmente), o faria, com seu inseparável apito. Todos os
integrantes são bons músicos, merecendo destaque a tamborinista Laura Kose,
que pode ser vista, ao meu lado, na fotografia, após o ensaio.
Mais surpreendente do que a bateria tocar muito bem, é a qualidade dos
sambas (puxados pelo cantor Jussi Humaljoki e pelo ótimo cavaquinista Kaj
Askolin): caso a língua fosse substituída, ninguém diria terem sido
produzidos fora do Rio de Janeiro, ainda mais numa cidade onde chega a
fazer -30 graus centígrados no Inverno, a raça negra é quase que um conceito
inexistente e onde o termo (e o próprio conceito, visto a Finlândia ser o
país com o menor índice de corrupção do mundo) "malandragem" é praticamente
desconhecido. Sobre a expressão "jogo de cintura", então, nem é bom falar,
pois a mesma não pode ser sequer imaginada, nem mesmo na dança executada
pelas passistas, o que é uma grande pena: dançavam como se estivessem numa
academia de aeróbica ou algo semelhante. Esta semelhança era fortemente
acentuada pelo fato de dançarem em frente a um espelho, acompanhando cada
passo executado com uma atenção incrível, sem o menor suíngue.
O som na quadra, que seria considerado normal para qualquer um que já
houvesse visitado uma quadra carioca, é, para os finlandeses, algo de
ensurdecedor. Tocam e dançam com pequenos plugues para proteger os tímpanos!
O primeiro caso de músicos que não querem ouvir o que está sendo executado
que já presenciei em minha vida. O gozado é que a música é bem executada.
Muito difícil entender esse pessoal...
Entrevistei Heikki no galpão traseiro, entre vários instrumentos de
percussão e alegorias de carnavais passados. Quando lhe expliquei que as
escolas de samba no Brasil estavam perdendo o contato com o seu consumidor
final, ou seja, o povo, mostrou-se horrorizado, pois não compreendia como
uma Arte tão bela e rica poderia estar sendo desvirtuada. Foi difícil lhe
explicar a história do Carnaval carioca (obviamente que de forma
extremamente superficial), a apreensão da manifestação por parte das elites,
o avanço dos meios de comunicação etc. e tal. Disse-me que tentavam fazer
exatamente o contrário, o que comprovei durante minha visita. Contou-me
várias histórias de carnavais passados e das vitórias da Papagaio, entre
muitos assuntos.
Infelizmente devo parar por aqui, pois já me alonguei demais e o pub me
espera (prometi levar um CD de scolas de samba - mais um! - pro irlandês que
me atende). Só me cabe dizer, hoje, que a experiência foi muito elucidativa
e enriquecedora. Talvez venha a me alongar quando resolver escrever, a
sério, um artigo sobre o assunto, consultando meu bloco de anotações e a
gravação do ensaio e da entrevista.
Por hoje fico por aqui. Pro bar!
Helsinki, 20 de Maio de 2001.
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