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Ser Sambista (texto de Marquinhos de Oswaldo Cruz)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: sáb 03 ago 2002 - 13:08:14 EST
Oi gente:
Envio a vocês um texto que me foi repassado pela minha camarada Denise
Barata - esposa do Marquinhos de Oswaldo Cruz -, escrito por ele para o
informativo Linha Direta do PT/SP. Tem tudo a ver...
Beijins. Sonia Palhares (BsB-DF)
" SER SAMBISTA
Ventos que sopravam as velas pelo oceano. Ventos que empurraram os negros,
vielas acima.Ventos que sopraram pelas correntezas dos trilhos aos
longínquos subúrbios. Ventos que sopram minha alma, minha cultura, minha
memória. Hoje percebo a contemporaneidade da diáspora africana. Ouço o
grito guardado em minha alma-memória:- É campeã ! - para minha querida
Portela. Revejo a imagem de Candeia entrando na recém inaugurada sede
da Portela , com seu olhar onipresente, em 1972, com todos os olhares
voltados para ele. Quantas lágrimas derramo em meu peito de saudades das
aulas matinais na padaria com Argemiro e Monarco; das aulas de Manacéia,
que deixou de ser freguês da loja de meu pai,ao saber que ele não queria
que eu me tornasse sambista . São eles, heróis de uma história de quase um
século, transmitida pela cultura milenar da oralidade. Carregam em seus
sambas alegria, sonhos e lágrimas de um povo. Assim, conseguiram resistir
às várias formas de silenciar o samba como expressão da cultura negra
brasileira. Silenciamento simbolizado na pancada da polícia , no
embranquecimento imposto pelo Estado Novo para tornar o samba símbolo
nacional ou ainda nos tempos áureos do rádio em que o samba era ouvido,
mas com uma batucada sussurrante e nunca cantado com uma voz negra . Como
foi difícil para um jovem militante conseguir entender que os ídolos de
seus pais que, as vezes, ainda passam anônimos em suas comunidades ,
construíram a história de resistência mais poética da nossa cultura . Logo
eu,tão certo de possuir a verdade e que me considerava um profundo
conhecedor de todas as formas possíveis de organização... Logo eu, que não
reconheci a importância poética/pedagógica das rodas de samba, em 1997,
sob os Arcos da Lapa, que fizeram reviver os seus bons tempos de ocupação
do espaço público....Foi assim, sob o poder de melodias, letras e pela
magia da batucada, que me fiz sambista . Citando Candeia: “cego e quem vê
só aonde a vista alcança” . Hoje, posso enxergar além das grades desta
prisão cultural unitária. Prisão esta que nos condena a pena de não
podermos olhar para o espelho, e vermos o quanto bonitos nós somos.
Prisão esta, que veda nossos olhos para que não possamos enxergar, que não
só a escola formal é produtora de conhecimento e que muitos saberes
estão exilados de nós, nos botequins, esquinas e nas calçadas.Busco, todos
os dias, construir a minha identidade de sambista. Retrato em meu corpo, a
minha alma. Ecoa em minha voz, o sussurro de meus ancestrais. Faço da
ética e dos meus princípios os pilares centrais da minha carreira,
mesmo que receba, às vezes, a solidão como recompensa. Sabedor de toda
força da indústria cultural ,reafirmo a minha convicção de que não posso
trocar a liberdade de criação e de minha poesia pela absorção do meu
trabalho pelo grande mercado fonográfico. Também tenho um sonho. Quero
poder cantar para os descendentes dos que construíram (e continuam a
construir até hoje) a minha arte. Cantar para lembrar aos moradores dos
morros e subúrbios do etnocídio a que somos submetidos diariamente pelos
detentores e defensores do pensamento hegemônico.
Marquinhos de Oswaldo Cruz (Marcos S. de Alcântara)
Rio de Janeiro,15/07/02.Tenha você também um
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