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Olha que coisa mais linda e cheia de história

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: VValdemar Pavan (wpavan_at_uol.com.br)
Data: sáb 03 ago 2002 - 06:47:28 EST

Olha que coisa mais linda e cheia de história

'Garota de Ipanema' faz 40 anos, mas sua saga pode ter começado um ano antes
do famoso episódio a bordo do botequim Veloso, de onde Tom e Vinícius viram
Heloisa Eneida passar, a caminho do mar

RUY CASTRO
Especial para o Estado

Há 40 anos e poucas horas, Garota de Ipanema estava nascendo. Foi executada
em público pela primeira vez na noite de 2 de agosto de 1962, no restaurante
Bon Gourmet, no Rio, na estréia do show Encontro, que reuniu, pela primeira
e última vez no mesmo palco, João Gilberto, Antonio Carlos Jobim, Vinicius
de Moraes e o conjunto vocal Os Cariocas. Esta primeiríssima apresentação
não começou pelos clássicos versos, "Olha que coisa mais linda/ Mais cheia
de graça...", mas por uma introdução quase recitada, feita especialmente
para o show e só cantada nos 45 dias em que ele esteve em cartaz. Começava
com João Gilberto dizendo: "Tom, e se você fizesse agora uma canção/ Que
possa nos dizer/ Contar o que é o amor?". Tom emendava: "Olha, Joãozinho, eu
não saberia/ Sem Vinicius pra fazer a poesia..." No que Vinicius pegava a
bola: "Para essa canção se realizar/ Quem dera o João para cantar..." E João
Gilberto, fingindo acreditar no que dizia: "Ah, mas quem sou eu?/ Eu sou
mais vocês.../ Melhor se nós cantássemos os três..." E só então, eles
atacavam de "Olha que coisa mais linda/ Mais cheia de graça..." Na platéia,
aos primeiros acordes, senhoritas quase desmaiavam, exclamando "Que
 liiindo!".

A partir dali, a moça do corpo dourado não se deteria à beira do mar de
Ipanema. Rapidamente, Pery Ribeiro gravou-a na Odeon, o Tamba Trio e Os
Cariocas, na Philips, e Claudette Soares, na Mocambo. O próprio Tom só iria
gravá-la em maio do ano seguinte, em Nova York - sem letra, em seu LP
instrumental The Composer of 'Desafinado', na Verve. Dois meses antes, em
março, também em Nova York e também na Verve, Garota de Ipanema já fora
gravada por Stan Getz, João Gilberto e, sem crédito, a mulher de João,
Astrud, com Tom ao piano - mas este disco ficaria engavetado por um ano, até
que o produtor Creed Taylor se decidisse pela melhor maneira de lançá-lo:
extirpando o vocal de João Gilberto no compacto e soltando a versão integral
apenas no LP, que se chamou Getz/ Gilberto. O compacto fez história em 1964
e o LP ficou 96 semanas na parada da revista Billboard, muitas das quais em
segundo lugar, perdendo apenas para as várias canções dos Beatles que se
revezaram em primeiro. Ou seja, durante dois anos Garota de Ipanema
sustentou sozinha sua posição contra uma saraivada de sucessos dos Beatles.
O compacto e o LP receberam sete indicações para o Grammy, vencendo quatro,
incluindo "disco do ano" (Getz/Gilberto) e "gravação do ano" (The Girl from
Ipanema). E sabe para quem João Gilberto perdeu o Grammy de "cantor do ano"?
Para Louis Armstrong, com Hello, Dolly!.

Nesses quarenta anos, Garota de Ipanema já foi de tudo na vida: cult,
sucesso, mega-sucesso, kitsch e, de muito tempo para cá, uma peça do
repertório universal - um dos maiores standards do século XX. Já foi (e
continua a ser) gravada por tanta gente que não se sabe como seus autores
mantêm o controle: pelas últimas contas, feitas em 1997, teria perto de 200
gravações - mas o número real deve ser o dobro disso, somando-se as
incontáveis gravações recentes e as versões não autorizadas que vivem sendo
feitas. Na internet, por exemplo, você fica sabendo de gravações por piano
solo, orquestra sinfônica, quarteto de cordas, big band, sexteto de jazz,
conjunto de cocktail lounge, grupo de mariachis, banda de gaita de foles e
até gangues de funk e hip hop. O espectro de seus intérpretes vocais vai de
Frank Sinatra, que você sabe quem é, a Floyd the Barber, que você não deve
saber: um "cantor" de rap. Principalmente em inglês, há paródias
humorísticas, sensuais, gays e pornográficas.

Neste momento, os principais portais ou mecanismos de busca da internet
contêm, cada um, um mínimo de 40 mil sites relativos à canção - vasculhá-los
por inteiro, só no espaço de uma ou duas vidas. Há muitas páginas falando da
jeune fille d'Ipanema, da ragazza de Ipanema e da chica de Ipanema, o que é
normal, mas há também sites em russo, grego, japonês, chinês, coreano, árabe
e outras línguas para as quais o computador precisa ter os caracteres
adaptados. A partitura contendo a melodia de Tom, a letra original de
Vinicius e a versão em inglês de Norman Gimbel está exposta à exaustão na
rede, muitas vezes com áudio (na gravação de Astrud com Getz). No caso da
letra de Vinicius, há sites com adaptações fonéticas para ajudar os
gringuinhos aspirantes a reproduzir a interpretação de João Gilberto,
resultando em coisas assim: "Aw-lyuh kee koey-suh mah-izh leen-dah/ Mah-izh
shay-ya dee grah-suh..."

Americanos estudiosos da Bossa Nova, mais versados em português, discutem a
letra de Gimbel comparando-a com a de Vinicius e concluindo inapelavelmente
pela superioridade desta. Eles não se conformam com que Gimbel tenha mudado
a história. Na versão americana, a garota passa, todo mundo faz "Ah..." de
admiração, e ela, soberana e soberba, não dá pelota, não vê ninguém. Mas,
para Vinicius, o que importa não é se ela vê ou deixa de ver - o simples
fato de passar faz com que o mundo inteirinho se encha de graça e fique mais
lindo por causa do amor. É um hino à beleza como instrumento de redenção do
mundo - não ao convencimento ou à auto-suficiência, como propôs Gimbel.
Certa vez perguntei a Tim Maia porque ele gravara a letra em inglês e ele
respondeu: "Porque em português todo mundo já gravou, até o D. Helder. Só
falta agora o Romeu Tuma".

Internautas dos Estados Unidos, do Japão e da Alemanha trocam mensagens
relatando onde estavam, fazendo o quê e o que sentiram ao ouvir The Girl
from Ipanema pela primeira vez. Mais ou menos como, por muitos anos, se fez
com o assassinato de John Kennedy em Dallas, Texas, a 22 de novembro de 1963
(por acaso, a gravação de João, Getz e Astrud tomou as rádios americanas
menos de quatro meses depois da tragédia de Dallas). A diferença é que a
morte de Kennedy há muito já não desperta esse tipo de reminiscência, ao
passo que há relatos de jovens internautas contando o que sentiram ao ouvir
The Girl from Ipanema pela primeira vez em 2001.

E pensar que tudo começou quando Tom e Vinicius, numa linda tarde do verão
carioca, resolveram tomar um chope, não?

Sim, é fato que, em 1962, Tom e Vinicius, a bordo do botequim Veloso, viram
passar Heloisa Eneida, 19 anos (não 14, 16 ou 18, como vive se escrevendo),
e ela os inspirou a fazer Garota de Ipanema. Mas não foi assim tão simples
porque, um ano antes, em 1961, Garota de Ipanema já estava vivendo um
arremedo de pré-história. Seu útero ficava a cinco quilômetros dali, no
Copacabana Palace, em cujo salão nobre, o Golden Room, o produtor Abraão
Medina apresentava um superespetáculo de quadros musicais, intitulado
Skindô!. Era o show mais caro já visto no Brasil, estrelando, entre outros,
Ataulpho Alves, Monsueto, Sylvinha Telles, Trio Irakitan, as espetaculares
Irmãs Marinho e a jovem Betty Faria. A equipe técnica era um escrete:
direção de Geraldo Casé, roteiro de Aloysio de Oliveira, coreografia de
Sonia Shaw, adaptação musical e arranjos do americano Bill Hitchcock e
cenário e cartazes de Eugenio Hirsch. Grã-finos, diplomatas e turistas
entupiam todas as noites o Golden Room. Depois de meses de sucesso, Medina
levou o show para São Paulo, onde ele também deu certo, e preparou-se para o
salto que o transformaria em produtor internacional: Skindô! iria à
Argentina e, de lá, à Europa.

Mas, antes de viajar com o elenco, Medina deixou tudo acertado para o show
que o aguardaria na volta da excursão. Um novo musical: Blimp, com
praticamente a mesma equipe. Só que, com uma importante novidade: ao invés
de quadros musicais soltos, usando sambas e canções já conhecidos, este
contaria uma história, ilustrada por canções inéditas. E as canções estariam
a cargo de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes.

Blimp, o personagem-título, era um extraterrestre cujo disco-voador caíra no
Rio em pleno Carnaval. Junto com ele na nave, estariam as blimpetes, que
formavam sua tripulação feminina. Mas as blimpetes eram carecas. Até então,
Blimp achara isso normal, porque ele também era. Mas, ao sair pelo Rio,
descobriu que as cariocas tinham cabelo e, entre estas, ficou siderado (sem
trocadilho) por Umbiguinho, a Garota Bossa-Nova - uma típica garota de
Ipanema, ousada, moderna, cidadã da praia, dona de seu nariz. O nome,
Umbiguinho, se explicaria pelo biquíni (então uma ousadia) e pela calça
Saint-Tropez que ela usaria em cena. Os cenários e figurinos para este
quadro, a cargo novamente de Eugenio Hirsch, eram a praia, a calçada, as
ruas de Ipanema (veja as ilustrações originais de Hirsch).

Tom e Vinicius escreveram a primeira canção, que foi Só Danço Samba, a ser
cantada no show pelos Cariocas, e, entre outros números previstos, estava o
samba que descreveria o encontro de Blimp com Umbiguinho. Mas, assim como os
outros, este samba não chegou a ser feito, porque Blimp abortou antes de
nascer - e seu involuntário algoz foi Skindô!. Logo na primeira escala da
excursão, Medina enfrentou uma longa greve de táxis em Buenos Aires, que
comprometeu a temporada do show. Na Europa, por imprevidência de todo mundo,
o espetáculo entrou em cartaz no verão, quando os nativos esvaziam as
cidades e os turistas estão ocupados visitando os cartões-postais. Sem
platéia e com shows cancelados, a trupe de Skindô! passou por apertos
terríveis, inclusive fome, e Medina voltou quebrado para o Rio. Com isso,
Blimp foi cancelado.

No que se referia a Tom e Vinicius, o espetáculo rendera-lhes pelo menos uma
canção já pronta: Só Danço Samba. Geraldo Casé, amigo antigo e íntimo de
Tom, se lembra de ouvi-lo tocando algo que seria a semente de Samba do
Avião - mas, com o fim do projeto Blimp, Tom teria se sentido dispensado de
pedir letra a Vinicius e feito a sua própria. E, nesta mesma época - fins de
1961 ou começos de 1962 -, Tom começou a trabalhar na letra e música de uma
canção cujo cenário era a praia, mas na qual quem passava era uma gaivota.
Excertos dessa letra sobreviveram entre os papéis deixados por Tom e foram
reproduzidos no excepcional livro Cancioneiro Jobim, lançado em 2000.

Nela, Tom fala de um homem que "vinha cansado" pela rua, mas que, ao deparar
com "o vento gostoso que a praia mandou" e com a visão de uma "gaivota que
passa ao longe", encontra talvez um novo motivo para viver. Mas Tom, pelo
visto, ficou insatisfeito ou sem solução para a letra e, segundo Sérgio
Augusto, autor do texto do Cancioneiro, ofereceu parceria no samba a
Vinicius - e só então a garota entrou. Na verdade, antes ainda da garota
entrou a menina, porque a primeira letra proposta por Vinicius levava o
título de Menina Que Passa e dizia: "Vinha cansado de tudo/ De tantos
caminhos/ Tão sem poesia/ Tão sem passarinhos/ Com medo da vida/ Com medo de
amar./ Quando na tarde vazia/ Tão linda no espaço/ Eu vi a menina/ Que vinha
num passo/ Cheio de balanço/ Caminho do mar". Os próprios Tom e Vinicius não
se satisfizeram com essa letra e, só então, ao ver passar Heloisa Eneida na
calçada do Veloso, podem ter retomado a idéia de Umbiguinho, gerada no
musical Blimp. A menina tornou-se a garota e, daí, Garota de Ipanema.

Será relevante dizer que, de todos os que participaram da gravação que deu
origem a tudo, a do disco Getz/Gilberto, só Stan Getz ganhou muito, muito
dinheiro com ela? Tom, Vinicius e Gimbel tiveram de rachar por três (e com o
imposto americano) os 50% de direitos dos autores (os outros 50% vão para o
editor da música). O contrabaixista Tião Neto e o baterista Milton Banana
receberam pela tabela (sendo que, nos últimos 10 anos, o nome de Tião Neto
vem sendo inexplicavelmente substituído nos créditos pelo do contrabaixista
americano Tommy Williams). João Gilberto ficou com 6% dos direitos do disco.
E Astrud, cujo nome foi omitido nos créditos principais do LP original,
também recebeu pela tabela (US$ 120) - e, mesmo assim, segundo o crítico
Gene Lees, Stan Getz não queria que ela fosse paga.

Como disse para Gene Lees um velho amigo do saxofonista: "É bom saber que o
sucesso não mudou Stan. Ele continua a ser o mesmo f.d.p. de sempre".

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