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Leia trecho da biografia inédita de João Gilberto

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pl_PL: VValdemar Pavan (wpavan_at_uol.com.br)
Data: qui 01 ago 2002 - 08:58:01 EST

Leia trecho da biografia inédita de João Gilberto, escrita por Luiz Galvão

da Folha Online

A pedido da Folha, o ex-novo baiano Luiz Galvão, 65, autor de uma biografia
autorizada de João Gilberto, cedeu um trecho do trabalho, que ainda não foi
publicado.

São cerca de 300 páginas escritas por quem conviveu com o compositor na
adolescência nas ruas de Juazeiro (a 510 km de Salvador, na Bahia).

A biografia "João, a Bossa", está à espera de permissão de João Gilberto
para poder ser publicada. Acompanhe um trecho do livro:

Como João Gilberto descobriu a Bossa

LUIZ GALVÃO
especial para a Folha

A origem será sempre um mistério a ser desvendado, mas acho que posso dizer
alguma coisa sobre isso. Entre tantas versões, inclusive algumas defendidas
por pessoas que nunca estiveram em Juazeiro e nem conhecem João, entre
tantas pressuposições não comprovadas e até lendárias, a informação que me
parece mais afiançada é a de Miécio Caffé.

Este conterrâneo, artista plástico famoso em S. Paulo, onde vive há muitos
anos, confiou-me que, quando ainda residia em Juazeiro, João Gilberto ia
sempre a sua casa só para ouvir Orlando Silva, o conhecido cantor das
multidões.

Esse, sim, teve grande influência no modo de cantar de João Gilberto em seu
início de carreira. Quem o ouviu na década de 60, em Juazeiro, cantando
"Quando você recordar o passado entre nós..." há de lembrar da voz solta, da
pronúncia já bastante clara e precisa também registrada nas apresentações
dos Enamorados da Lua.

O mistério se encontra exatamente no processo que o levou do vozeirão ao
sussurro que passou a caracterizá-lo e o tornou famoso na fase da Bossa
Nova. João inovou, cantando do mesmo jeito que fala.

Quanto à instrumentação que define a Bossa Nova pela batida, o próprio João
me contou certa vez que havia se inspirado na forma como Vadu Corta Passe
fazia percussão em caixa de fósforo.

Waldomiro Custódio da Cunha -Vadu- foi nosso vizinho e gerente da Viana
Braga, firma muito importante em Juazeiro, na época. Seu apelido surgiu no
meio futebolístico. Ele gostava de jogar, mas era muito ruim de bola.
Lembram daqueles treinamentos que se faziam para aprimorar o passe, onde se
arma uma roda de jogadores e a bola é passada de um para outro?

Pois é, quando a bola chegava no pé de Vadu, a seqüência era invariavelmente
interrompida. Daí, o "Corta Passe".

As coisas com João Gilberto acontecem assim, porque ele é criativo ao
máximo. Querem ver uma coisa? Digam-me: quem ensinou João a tocar violão?
Não precisam responder, porque é inevitável o erro de quem tentar. Ninguém o
ensinou.

Ele aprendeu olhando os outros tocarem e sem dar a mínima bandeira da sua
atenção. Meu irmão, Dagmar, contou-me que ele, Dewilson, um primo de João, e
outros meninos que estudavam no Colégio Bosco costumavam ir juntos de barco
para Petrolina. Dagmar levava o violão, Dewilson era o cantor e os outros
faziam vocal e percussão durante a travessia. Na hora do recreio, eles
também tocavam. João ficava só de olho. Um dia, pediu-lhe o violão e tocou.
Um mês depois já tocava melhor que ele.

Vou dar detalhes desse aprendizado suigeneris de João Gilberto e para isso
mostro a as palavras de um conterrâneo nosso Pedrito Luna: João deve ter
trazido o violão de encarnações passadas. O mais importante para ele foi
aprender a tocar violão e o fez sem que ninguém ensinasse.

Naquele momento estavam surgindo os conjuntos com vocais como: Os Cariocas,
Anjos do Inferno, Garotos da Lua, Quatro Ases e um Curinga. Os vocalistas de
conjuntos amadores costumavam pedir para alguém que estava ouvindo fazer a
primeira voz para que eles pudessem buscar a 2ª, 3ª e 4ª vozes.

Eles pediam para que João Gilberto, fizesse a primeira voz, mas quando eles
pensavam que estavam abafando eram avisados dos erros errados e João
mostrava o certo enquanto os vocalistas do barco e do recreio consideraram
palpites inoportunos que inicialmente incomodavam, mas foram assimilados na
seqüência. João não tirava os olhos das mãos de Dagmar quando este tocava
violão. Um dia ele pediu o instrumento e tocou.

Um mês depois ele já tocava melhor que Dagmar e já comandava a vocalização.
Pedrito confirmou que meu irmão tocava direitinho e que João aprendeu violão
só olhando os outros, sem que alguém lhe dissesse alguma coisa.
http://www.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u26144.shl
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