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Luciane Menezes do "Dobrando a Esquina" em O GLOBOLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: qua 31 jul 2002 - 21:58:08 EST
http://oglobo.globo.com/Suplementos/SegundoCaderno/35368946.htm
[http://oglobo.globo.com/Suplementos/SegundoCaderno/35368946.htm ]
"Voz de todas as formas de música brasileira
João Pimentel
O dito circuito de samba da Lapa, para quem costuma circular pelo trecho
que vai da Rua Joaquim Silva, onde fica o Bar Semente, até o fim da Rua do
Lavradio, lá no número 20, no Rio Scenarium, passando pelo Carioca da
Gema, em frente ao bar Capela, na Rua Mem de Sá, há muito deixou de
privilegiar apenas o ritmo que nos deu Ismael Silva, Donga, Cartola,
Paulinho da Viola e outros. A voz grave da cantora, cavaquinista e
pesquisadora de música étnica Luciane Menezes — integrante do grupo
Dobrando a Esquina, que lança seu primeiro disco em setembro, e
co-fundadora do Grupo Cultural Jongo da Serrinha — é a responsável por
levar jongos, cocos, congadas, maracatus e cirandas ao reduto boêmio antes
dominado pelo samba.
Nascida em São João de Meriti, Luciane começou a tocar violão e a cantar
aos 18 anos. Estudante de geografia, ela foi convidada a integrar a
Companhia Folclórica do Rio.
— Faltava um cavaquinho e me chamaram. Eu mal sabia tocar o instrumento,
mas me adaptei rapidamente. A partir dali conheci muitas coisas e me
identifiquei com a música étnica.
Conhecimento adquirido em viagens pelo Brasil
Com a companhia, Luciane viajou o Brasil inteiro e aprendeu a tocar
diversos gêneros com seus verdadeiros mestres. Participou de um reisado,
em Aracaju, com seu Zeniro e Dona Lalinha do Cordão Azul e Encarnado,
coquistas de umbigada; tocou com Lia do Itamaracá e aprendeu a arte do
jongo com mestre Darcy.
— São formas de lazer riquíssimas, inventadas por populações, em sua
maioria, carentes, em terreiros e quintais. São formas legítimas de
expressão popular bem diferentes do lazer estático oferecido pela
televisão — diz.
Em setembro do ano passado viajou por 36 cidades do Brasil com o show
“Vissungos, jongos e lundus” e, na cidade de Arco Verde, em Pernambuco,
aprendeu com a família Calixto o sapateado de um gênero chamado samba de
coco. Coisas de um Brasil pra lá de multicultural.
Há alguns meses Luciane passou a mostrar estes conhecimentos em um sempre
lotado Bar Scenarium, acompanhada do grupo Pau da Braúna, que mistura
músicos de vertentes diferentes como o flautista de Chico Buarque, Marcelo
Bernardes, o cantor Marcos André, do Jongo da Serrinha, e o talentoso
acordeonista do Cordão do Boitatá, Kiko Horta.
As disputadas noites de sábado de forrós, cirandas e cocos contam com a
participação de integrantes da ONG Jongo da Serrinha (Luciane é uma das
fundadoras), que ensinam a dança de umbigadas e giros no sentido
anti-horário. Mas, ao ensinarem estes passos, os jovens dançarinos
pretendem dar um passo maior:
— A nossa intenção, quando criamos a ONG na Serrinha, era fazer com que
existisse um intercâmbio com o asfalto — diz. — Qualquer um que chega lá
para filmar, fotografar, entrevistar, é bem recebido. Mas sempre sugerimos
que a comunidade seja co-autora de projetos culturais. Todo mundo tem algo
para passar para alguém. Uma pessoa que for fazer um ensaio de fotos pode
muito bem dar aulas, ajudar na formação das crianças.
Neste aspecto, Luciane faz questão de marcar posição:
— Não adianta muita coisa o cantor do asfalto, da cidade, descrever nas
canções que interpreta a desumanidade e o abandono que ocorrem nas
comunidades carentes da nossa cidade e não fazer nada para reverter isso.
É necessário ir na comunidade, interagir e ensiná-los a pegar o peixe,
levar o conhecimento que lá não chega. Isso para mim faz parte do processo
artístico.
Transitando entre os bares da Lapa desde a revitalização do lugar, em 95,
a cantora se apresenta com o Dobrando a Esquina (que é completado pelo
bandolinista Lenildo Gomes, pelo violonista Marcelo Menezes e pelo
percussionista Paulino Dias), às quartas-feiras, no Carioca da Gema. Lá
ela desfia um tipo de repertório mais afeito ao lugar. Ou seja, muito
Assis Valente, Candeia, Geraldo Pereira, Noel Rosa e Wilson Batista.
Com o Dobrando, a cantora chega ao primeiro disco
Com o grupo, já acompanhou quase todos os grandes sambistas. De Zé Kéti a
Elton Medeiros, passando por Wilson Moreira, Dona Ivone Lara, Monarco,
Walter Alfaiate e outros. Em setembro sai um esperado e tardio disco do
Dobrando, com arranjos de Cristóvão Bastos, Maurício Carrilho, Henrique
Cazes, Afonso Machado e outros. Em meio a valsas, choros e sambas, uma
inédita de Candeia, “Lírios do campo”.
Recém-chegada de uma viagem a Holanda, em que foi participar de dois shows
ao lado de Paulo Moura, Luciane Menezes foi convidada para dirigir o show
em homenagem ao centenário de Carlos Cachaça, que acontece no dia 13 de
agosto, no Teatro Carlos Gomes.
A cantora também foi responsável pela realização da série Bantu Brasil,
que levou durante o mês passado, ao Sesc Tijuca, manifestações culturais
trazidas da África."
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