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Zezé Gonzaga em O GLOBO

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: sex 19 jul 2002 - 19:31:26 EST

http://oglobo.globo.com/Suplementos/SegundoCaderno/35243989.htm
[http://oglobo.globo.com/Suplementos/SegundoCaderno/35243989.htm ]
 
 
Por João Máximo
 
 
 
"Muito mais que uma senhora que ainda canta
 
 

João Máximo
 
Zezé Gonzaga não é “apenas uma senhora que ainda canta”, como se proclama
na canção-título de seu primeiro disco solo em 23 anos. É, mais que tudo,
um intérprete que aposta no equilíbrio entre a precisão e a emoção. E que
pode orgulhar-se de ser, aos 75 anos, uma cantora tecnicamente tão
perfeita quanto a moça de 26 que os exigentes maestros da Rádio Nacional,
Radamés Gnattali entre eles, tinham como favorita.
 
 
A propósito de Radamés, há uma passagem muito conhecida no meio musical
que merece ser contada ao público. Zezé, o maestro e o Camerata Carioca
faziam temporada num Teatro João Caetano em obras. Radamés, com seu
habitual mau humor, reclamava de tudo, do calor, do ar poluído, do barulho
dos operários, do desconforto dos camarins. Zezé se maquiava quando o
maestro entrou resmungando. Ela lhe pediu paciência, tudo se arranjaria,
na hora do show os problemas estariam resolvidos. Radamés se foi, mas não
se antes virar-se para a cantora e disparar: “E você também, Zezé, vai ser
afinada assim na pqp...!”
 
 
Zezé só não foi mais popular por causa da timidez
 
 
A afinação, porém, sempre foi apenas um dos trunfos da intérprete favorita
dos maestros. A técnica de respiração - que a maioria das novas cantoras
brasileiras deveria aprender com ela — é igualmente perfeita:
 
 
— Cheguei a estudar canto, mas não posso atribuir ao estudo a minha
técnica — diz ela. — Acho que tudo vem de Deus, muito naturalmente, ganho
em vez de aprendido. Parei de estudar porque não queria ser cantora de
ópera. Sempre preferi o popular, embora sabendo soltar a voz. Na Rádio
Nacional, cantei muito com Lenita Bruno, geralmente canções de opereta e
outras músicas que exigiam voz.
 
 
Zezé, na verdade, cantava de tudo. De canção didática para programa de
Almirante a modinha caipira para o de Renato Murce, de clássicos a sambas
modernos como faziam Garoto e Valzinho, o que lhe valeu a fama de
elitista. Ela foi, em seu tempo, a mais solicitada intérprete do elenco
feminino da emissora. Fosse menos tímida — ou mais sujeita à febre dos
fãs-clubes — teria sido tão popular quanto as chamadas rainhas dos
auditórios. Por se sair bem em qualquer gênero, acabou caindo numa
especialidade que hoje renega: as versões. Admite ter cedido ao
comercialismo de sua gravadora na época, a Columbia (atual Sony Music), e
lamenta só ter conseguido romper com o problema parando de cantar.
 
 
— As gravadoras, não só a minha, tinham idéias esquisitas sobre o que
vendia ou não não vendia — conta. — Certa vez, minha amiga Dolores Duran
me cantou um samba-canção que acabara de fazer: “A gente briga, diz tanta
coisa que não quer dizer...”. Isso mesmo, “Castigo”. Ao ver que eu tinha
gostado, ela me deu para gravar. Mas o diretor musical da Columbia não
deixou. Disse que a música era bonitinha, mas sem apelo comercial.
Resultado: três meses depois Nora Ney gravou-a na Continental e foi um
sucesso.
 
 
Mas a gota d’água foi mesmo seu último LP para a Columbia. De um lado,
sambas-canções orquestrados por Lírio Panicalli. Do outro, sambas
dançantes arranjados pelo maestro Gaya. O disco teria bela capa e notas de
contracapa de Sérgio Porto. Tudo pronto, a Columbia mudou de idéia.
Lançou-o com uma capa branca, sem foto, sem texto, sem nenhuma divulgação.
O disco não aconteceu. Antes de parar, mesmo, Zezé montou uma agência de
publicidade com Cipó e Jorginho Abicalil (é de autoria dela o prefixo que
por mais de 20 anos abriu os programas do Projeto Minerva). Até que uma
amiga convidou-a a trabalhar com ela numa creche em Curitiba, a Maison
Santo Efigênio. Zezé foi. Ela e a filha de criação Penha, falecida há dois
anos. Aí sim, parou de cantar. Segundo supôs, de vez...
 
 
— Foram os três anos mais lindos de minha vida — afirma. — Cantar, a
partir dali, só para as crianças.
 
 
Até que Hermínio Bello de Carvalho — velho fã da época do rádio —
reapareceu em sua vida com uma proposta irrecusável: voltar ao Rio para
gravar um LP. Mas não um LP qualquer e sim um de canções do velho amigo
Valzinho, acompanhadas pelo sexteto de Radamés. Foi um dos melhores discos
do ano (1979), com as honras de ter revelado ao grande público a arte de
Valzinho, que morreria meses depois, e de ter provado que Zezé Gonzaga
ainda era a mesma. Desde então, não parou mais, shows, recitais, viagens.
Discos, mesmo, só participações especiais. Até que Hermínio voltou a ser
seu anjo da guarda. Produziu o excelente CD “Clássicos”, em que Zezé canta
em dupla com Jane Duboc, e partiu corajosamente para realizar pelo selo
Biscoito Fino a nova façanha.
 
 
O CD intitulado “Eu sou apenas uma senhora que ainda canta” é mesmo uma
façanha. Nenhuma concessão nele, nenhum truque para fazê-lo tocar no rádio
ou na TV. Assim como Zezé continua apostando no equilíbrio (ela define seu
estilo como uma mistura do romântico com o moleque), Hermínio investe na
simplicidade. Basicamente, o acompanhamento de Zezé é feito somente pelo
piano de Cristóvão Bastos e o violão de João Lyra, com um celo aqui, um
acordeom ali, um sax mais adiante, um contrabaixo acústico, tudo sem
interferir na proposta camerística do trabalho. Simples e requintado.
 
 
— Sempre preferia as pequenas formações às grandes orquestras — diz Zezé,
aprovando o projeto estético proposto por Hermínio.
 
 
Cantora acredita que o CD não irá tocar nas rádios
 
 
Como é do gosto do produtor, o repertório é dividido em blocos temáticos.
As canções perdem sua individualidade para funcionarem como segmentos
teatrais: “Trocando em miúdos” e “Molambo”, “Cansei de ilusão” e “Não me
culpes”, “Quando tu passas por mim” e “Franqueza”, “Chão de estrelas” e
“Se fosse uma estrela”, esta com música e letra de Eliseth Cardoso, a quem
o CD é dedicado (a Eliseth e também a Penha). São 22 canções distribuídas
por cinco blocos, obras que vão de antigas como “Inquietação” e “Pra
machucar meu coração”, ambas de Ary Barroso, a letras inéditas de
Hermínio: “Por amor” (música de Cristóvão Bastos) e a canção-título (de
Radamés Gnattali).
 
 
O CD vai fazer sucesso? Zezé Gonzaga não parece ligar a mínima, como se o
importante para ela fosse apenas cantar essas canções com a voz que ganhou
de Deus. Para Hermínio, o sucesso parece coisa ainda mais distante. Sabe
que o disco não faz parte do “processo de imbecilização a que estão
submetidos os ouvidos do brasileiro” e tem certeza de que nenhuma das
faixas tocará no rádio.
 
 
— Aliás — arremata, — não ouço rádio há muito tempo. "
 
 
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