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Re: Silêncio, o sambista está dormindo...Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: qua 26 jun 2002 - 02:40:01 EST
Bruno
Quem, ao partir, tem quem escreva o que v. escreveu, do jeito que escreveu,
viaja leve e chega bem alto.
Alberto, de Brasília/DF
> A notícia chegou quando anoiteceu: ontem a Anabela me achou no bar com
> meu cumpadre Edu de Maria avisando que o Gera havia morrido.
>
> O Gera era o maior cantor campineiro. Tinha um timbre de voz
> inconfundível. Tanto que fez o Jaguar entornar um litro inteiro de
> Underberg em sua visita etílica ao Bar do Pachola, no ano passado. A voz
> rasgada e macia do Gera está numa crônica que o cartunista carioca
> dedicou ao botequim e ao samba campineiro.
>
> Recentemente o Gera apareceu na TV Cultura, arquivos antigos de imagem,
> cantando ao lado do Originais do Samba, grupo do qual foi integrante em
> sua época de ouro. No grupo, tocava cuíca, tamborim, cantava e compunha.
> É autor de alguns sambas melodiosos, com letras cheias de romantismo e
> malandragem que, na minha visão, o aproximavam do estilo de um Roberto
> Ribeiro.
>
> Nos últimos anos enfrentou dificuldades financeiras depois de um período
> difícil em que as drogas e o álcool conseguiram tirar tudo o que ele
> havia conquistado com o samba.
>
> De um tempo para cá, o Gera estava tentando se reerguer. Chegou a cantar
> ao lado do Quarteto de Cordas Vocais e do grupo do Cupinzeiro em algumas
> oportunidades. Ao lado da cantora Aureluce, fez seu último show e deu
> sua última entrevista, no começo deste ano.
>
> Da última vez que o vi, há um mês, contou-me um sonho que teve, certa
> madrugada: sonhou que estava entrando num salão muito limpo, com o pé
> direito muito alto e com o piso do chão todo em pedras pretas e brancas,
> como um gigantesco 'tabuleiro de xadrez'. No fim deste salão, Gera
> encontrava um homem, negro como ele, sentado numa cadeira de rodas.
> Ambos estavam vestidos de branco, dos pés a cabeça, impecavelmente
> limpos. Gera contou que, no sonho, ele se aproximava deste homem negro,
> mais velho do que ele, porém com o rosto redondo e jovial como uma
> 'grande lua africana' e lhe pedia a benção. O homem da cadeira de rodas
> então passou a dizer todas as verdades que ele gostaria de ter escutado
> da boca dos amigos, mas que nunca ninguém se atreveu a dizer. Gera conta
> que, no sonho, caiu num choro compulsivo, que parecia não terminar
> nunca. O homem então cantarolou uma melodia em seu ouvido que parecia
> 'uma canção de ninar em forma de samba, mas que parecia também um canto
> religioso africano, das tribos antigas, de onde vieram meus bisavós'.
> Gera conta que nunca havia escutado nada tão bonito e que adormeceu no
> colo do negro. Ao acordar, não conseguiu se lembrar da melodia. Disse
> apenas: 'acho que só vou ouvir este samba de novo quando eu morrer, pois
> aquilo só pode ter sido coisa de deus'.
>
> Eu disse para o Gera que ele havia conhecido o paraíso dos sambistas. E
> quem sabe ele não esteve com Candeia?
>
> Tenho certeza que agora ele está participando de uma grande roda de
> samba na companhia do Mussum, que foi seu amigo pessoal. E deve estar
> bebendo sua pinga com limão com todos os bambas que ele admirava, Zé
> Kéti, Cartola, João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Ataulfo Alves e tantos
> mais.
>
> Gera morreu aos 48 anos, após sofrer uma recaída e passar mal. Ainda não
> sabemos a causa exata de sua morte.
>
> Não fomos avisados a tempo. O enterro foi feito sem velório e ninguém
> foi dar à ele seu último adeus. Apenas duas pessoas - a cantora Aureluce
> e o parceiro de sambas Ataualpa - testemunharam sua partida. Mais
> ninguém.
>
> Lembrei do samba de Geraldo Filme. É a minha homenagem ao Gera:
>
> (...)
> Partiu
> não tem placa de bronze
> não fica na história
> sambista de rua morre sem glória
> depois de tanta alegria que ele nos deu
> e assim, um fato repete de novo
> sambista de rua, artista do povo
> e é mais um que foi sem dizer adeus
>
> Adeus, cumpádi.
>
> :-(
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