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Re: Respeito ao Samba

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Bruno Ribeiro (bruno_at_cpopular.com.br)
Data: qua 26 jun 2002 - 11:53:06 EST

VV
>E temas atualmente fora de contexto para uma moçada que quer levar uma vida mais saudável, só quer ouvir música de malandragem quem está focado na malandragem, só quer ouvir música de temática machista aqueles que ainda julgam que a mulher é um ser menor, antigamente até dava pra aturar estas temáticas, havia menos informação e menos realidade que envolvesse delegacias especializadas em crimes e proteção à mulher.

Eu gosto dos sambas de malandragem. O Nei Lopes, que é um cara super refinado, é expert em sambas de malandragem. Acho que existe a 'boa malandragem' e a 'malandragem ruim' - mas podemos discutir isto separado desta mensagem, já que o assunto dá pano pra manga. Quanto aos sambas machistas: concordo contigo. Não gosto mesmo. Tanto é que no Cupinzeiro a rapaziada não costuma compor sambas que tratem a mulher como ser inferior - objeto, traidora ou bandida. Até porque a melhor compositora da casa é a Anabela, que dá rasteira em muito marmanjo que se aventura a rabiscar uns versos.

>Mas o cidadão da favela que se mete no rap ou na música eletrônica também pode receber identidade e cidadânia como contrapartida, veja o depoimento de DJ Patife na Playboy sobre música eletrônica: (...). Então não é o só o Samba que fornece a expressão da liberdade, da identidade, é a Música, e não precisa ser música boa, sendo música que agrade o sujeito, tá limpo.

Concordo e discordo. Concordo que a Música pode ser um fator que leve o sujeito a se identificar num grupo e a partir dele construir uma personalidade, encontrar um sentido a mais para a sua tola existência. A Música vista sob um contexto mais amplo, não apenas o Samba. Mas discordo quando você diz que a música pode ser boa ou ruim. Música ruim, via de regra - e vamos chamar aqui de ruim o lixo veiculado pela mídia, serve? - não tem mensagem. O Samba, o Rap, o Rock e até mesmo a Música Eletrônica, trazem consigo um estilo de vida. O fato de eu não gostar de Música Eletrônica ou de Rock não diminuem os gêneros. Sei que, para quem faz e conhece, existem coisas boas e coisas ruins dentro do gênero (como acontece no Samba também). Estes gêneros possuem, bem ou mal, suas filosofias de vida, seus conceitos, seu modo de ser e de se comportar. Vistos por este lado que você coloca, podem atuar também como fator de identidade.
Mas o Samba, no meu ponto de vista, é o único capaz de agregar em torno de si, todo o tipo de gente. Nas rodas de samba não é tão incomum ver um roqueiro curtindo, um rapper sambando, um clubber cantando. Não sei o quê o samba modifica nas pessoas, mas ele traz o brasileiro para mais perto do Brasil, nos identificamos uns com os outros na roda de samba, de uma maneira que eu não vi ainda acontecer em outros gêneros musicais. Não estou querendo puxar a sardinha para o nosso lado, mas é uma constatação. E, que mal lhe pergunte: VV, você comprou a Playboy só para ler a entrevista do DJ Patife, né? Confessa, vai. A Playboy é uma revista machista ou não? Se você acha que sim ligue 0800-1011, se você acha que não, ligue 0800-1012.

>Bruninho, básicamente ninguém se salva se não estiver totalmente disposto a se salvar, voce conhece casos em que o Samba foi tábua de salvação por que frequenta o Samba, se frequentasse o Rap também conheceria pessoas que usaram o genêro como tábua, DJ Patife deve ter histórias de salvação a contar também, como salvação uns buscam a música, outros a leitura, a prática de esportes, o trabalho, o vestir-se bem, a benemerencia, a internet...não dá pra generalizar como sendo o Samba o grande salvador dos desesperados, todas as áreas do lazer e solidariedade humana recebem pessoas que querem se salvar, esta inocente tribuna deve abrigar algumas dessas almas aflitas, quem sabe a minha própria seja uma delas.

O Samba não é salvador da pátria, imagine só! Muitas vezes, nem força de vontade resolve. Tem quem venha ao mundo para se ferrar mesmo. Não sei se é sorte, azar, destino ou qualquer outra coisa que se possa dizer para justificar a dor dos infelizes. O que vejo no samba (veja bem: nas comunidades que trabalham com o samba - não apenas o samba como gênero musical) é uma grande família. Os preparativos para uma roda de samba com feijoada, num sábado ensolarado, envolve todo mundo. É uma grande expectativa, uma grande festa. As pessoas bebem, esquecem os problemas sem deixar de falar sobre eles, dá-se muita risada, canta-se, todo mundo come junto - põe o prato no chão e o chão tá posto! -, as crianças correm descalças, os jovens namoram, a batucada paira sobre todo o quarteirão, os vira-latas ladram, as caravanas passam...VV, o samba envolve tanta gente! É gente na cozinha, é gente buscando gelo no posto de gasolina, é gente afinando os instrumentos, é gente compondo uns versos encostado no tanque...
Esse é o sentido comunitário de que lhe falo. Internet, esporte, religião...Isso muita gente tem, muita gente faz (inclusive os sambistas). Mas é uma busca mais individual. Eu posso jogar futebol na frente do computador a noite inteira ou ir à missa e pedir a Deus que olhe pelos desvalidos. Mas não é a mesma coisa. Eu estou sozinho. Pra fazer samba eu preciso do outro. Quero ouvir o tamborim comendo solto sem atravessar, o bordão do sete cordas, a caipirinha no ponto certo, o feijão com aquela pimenta que o Pachola trouxe lá do Norte e preparou especialmente pra gente...Bom, eu não gosto de admitir, mas sou sentimental pra caralho.

>Agora saquei a diferença entre uma roda de samba com compositor e uma roda de samba sem compositor: a formalidade.É válido então o pedido de silêncio, super compreensível, sendo assim prefiro "presenciar rodas de samba homéricas, com cerveja saindo pelo ladrão e o maior bafafá(sic)", não me torno um ser escroto ao definir que é o tipo mais zoeira de roda de samba que gosto de frequentar né?

Não, VV, você não se torna escroto só porque prefere o samba pura e simplesmente como diversão. É o seu modo de estar no samba, não há mal nenhum nisso. E se você não gostasse de samba, não estaria aqui nesta Tribuna, não é mesmo?

>Acho que não tenho muito saco pra ouvir compositor, não estou desprezando o compositor, é questão de nenhum interesse no assunto, só isso. Se saio de casa (rarissimamente) e vou até um local para ouvir Samba é isso que quero ouvir,daqui por diante se eu souber antecipadamente que vai ter conversa de compositor não vou e assim não preciso falar que não gostei da conversa.

É uma decisão sensata e inteligente. É isto o que eu queria dizer com 'respeite o samba'. Quando pretendemos dar voz aos compositores, queremos que compositores novos sejam incentivados a compor e que compositores velhos, esquecidos, venham à tona novamente, mostrem sua obra, gravem sua obra, ouçam o povo cantando seus sambas, o office-boy assobiando um samba seu na fila do banco, o motorista de ônibus cantarolando uns versos que este compositor escreveu...Queremos dar vida a essa gente, para que o samba seja o seu instrumento de cidadania. Não queremos que pessoas que não queiram ouvir o que eles tem para falar sejam obrigadas a ouvir o que eles tem para falar. Mas queremos que respeitem esta opção que damos aos compositores de falarem, de serem o centro da atenção dentro daquele espaço.

>Este formato de roda de samba em que a presença do compositor é indicativo de silêncio é bem paulistano né? nunca ouvi nenhum relato carioca sobre este assunto, ou melhor, sobre esta formalidade.

O pessoal do Samba na Veia, do Rio de Janeiro, tem um trabalho parecido, com compositores. Não sei como anda o projeto da rapaziada atualmente, há tempos não temos notícias. Estou indo em julho ao Rio e então poderei falar melhor. Lá em Florianópolis eu sei que existem rodas com este objetivo. Mas acho que o foco está mesmo aqui em São Paulo, sobretudo na capital. Com muito orgulho, é uma tendência bem paulista mesmo. PS: E olha que eu sou carioca, hein?

>Trazendo este assunto para a música: inclusive todos os homens que gostam de rap, funk, sambanejo....a preferência musical de uma pessoa não é fator determinante em sua consciência, exceto aqueles que curtem temas que versam sobre a malandragem e o machismo, não há porque apreciar estas duas vertentes se voce não aprecia os atos decorrentes desta na vida real.

O Rap tem fundamento, propõe um estilo de vida e uma postura diante do mundo. O funk (made in rio) e o sambanejo não. Não podem ser colocados no mesmo balaio, cuidado! Sambanejo é coisa pra entrar num ouvido, entupir umas válvulas e sair pelo outro. A música, nesse caso, acaba em si mesma, é produto, feito camisinha que perde sua função logo depois do uso. Ninguém se torna um ser humano melhor ou pior quando ouve um sambanejo. Mas, podes crer, não tem como não ser um homem bom - que seja por cinco minutos! - após ouvir um Paulinho da Viola. Um Cartola cantando 'Autonomia'. Clara Nunes rezando 'Contentamento'. Tem força de oração.

Abs!!!
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