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Re: Sobre Beth Carvalho..... e Gal CostaLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: seg 24 jun 2002 - 04:15:00 EST
Caro Helion
Concordamos em número, gênero e grau. Veja de novo minha mensagem anterior e
confira: não afirmei que "As rosas não falam" estivesse no primeiro LP de
Cartola pela Marcus Pereira. Disse que, segundo o texto de contracapa do
segundo elepê, era uma das inéditas desse disco.
Assim como você, afirmei a importância da gravação de Beth, pela projeção
que deu à música, popularizando-a, inda mais que foi usada em trilha sonora
de novela, o que significa tocar (quase) todos os dias, durantes meses.
Marcus Pereira não era propriamente um comunista. Não acredito que se
beneficiasse do "ouro de Moscou". Era um empresário, dono de agência de
propaganda, com um amor visceral pelo Brasil e pela música brasileira
realmente de raiz. Vai daí que, em 1972 (posso estar errando o ano),
produziu e lançou, como brinde de fim-de-ano para seus clientes,
fornecedores e amigos, uma coleção de 4 LPs, sobre Música Popular do
Nordeste. A repercussão foi tão extraordinária, que ele resolveu criar o
selo e lançar comercialmente essa coleção, na qual apontou o Quinteto
Violado, que acabara de assinar com a Philips. Depois, prosseguiu no
trabalho, fazendo uma espécie de atlas musical brasileiro, num total de16
LPs. Os discos do selo Marcus Pereira tiveram, inicialmente, distribuição da
RCA. Depois, da Som Ind. e Comércio.
Marcus usou o selo para alimentar o renascimento do Choro, renascimento que
deve um bocado às iniciativas dele, como, por exemplo, aquela série de LPs
cujo título começava por "Brasil,...".
Assim como v., também afirmei que a obra de Cartola estava ultrapassando a
fronteira do samba e citei exatamente a interpretação de Gal para
"Acontece". Mas, para sermos realmente exatos, devemos reconhecer que quem
primeiro gravou Cartola, na turma da MPB (então) jovem, foi Nara, em seu LP
de estréia, com "O sol nascerá" (Cartola & Elton), de 1964.
É que a nova projeção da obra de Cartola, nos anos 60 (a anterior, nos anos
30 e 40), começou com o restaurante & casa de samba Zicartola e teve
seqüência no musical Rosa de Ouro, que incluía várias composições dele e de
Nelson Cavaquinho. Entre a inauguração do Zicartola, em 1963, e a gravação
de "As rosas não falam", por Beth Carvalho, em 1976, Cartola teve músicas
gravadas por Nara Leão, Isaurinha Garcia, Leny Andrade & Peri Ribeiro,
Elizeth Cardoso, Conjunto Rosa de Ouro, Elton Medeiros (duas, no LP de
estréia, dividido com Paulinho), Odete Amaral, Paulinho da Viola, Ciro
Monteiro, Clementina de Jesus, Clara Nunes ("Alvorada no morro", em 1972;
"Que sejas bem feliz", em 1975), Roberto Ribeiro, Claudete Soares, Elsa
Soares, Gal Costa, Marlene, Maria Creuza, Os Novos Batutas, Luís Cláudio,
Cláudia Savaget e outros menos votados. A música mais gravada nesse período
foi "O sol nascerá". Os dados estão na discografia compilada por Marília
Barboza da Silva e Arthur de Oliveira Filho, em seu "Cartola, os tempos
idos" (Rio, Gryphus, 1998).
Os dois discos de Cartola pela Marcus Pereira tiveram bastante destaque na
mídia especializada. Se já existisse então a Tribuna do Samba-Choro, teriam
sido os tópicos mais comentados. O primeiro LP foi destacado pelo Jornal do
Brasil como um dos melhores de 1974. A Associação Paulista dos Críticos de
Arte e a revista Fatos & Fotos conferiram-lhe o mesmo destaque (melhores do
ano). A revista Status (revista "masculina" ou "de mulher pelada") foi mais
longe e o elegeu um dos melhores de todos os tempos. Veja, atrasada,
considerou-o um dos melhores de 1975 (dados na mesma fonte).
Assim que saiu o segundo disco de Cartola, dois críticos, entre tantos
outros que elogiaram o LP, destacaram, de imediato, "As rosas não falam":
José Ramos Tinhorão ("...o repertório não apenas é do mais alto nível, mas o
próprio Cartola como que se ultrapassa, derramando-se no requintado lirismo
de um samba definitivo, 'As rosas não falam'") e Ary de Vasconcelos ("Queria
prosseguir no comentário deste elepê, mas a audição de 'As rosas não falam'
deixou-me absolutamente sem condições de fazê-lo. Sinto-me totalmente
embriagado com o perfume que exala a arte de Cartola").
Um tribuneiro chamado Alexandre foi atrás da informação e verificou que a
gravação de Beth Carvalho teria sido lançada em julho de 1976, portanto,
cerca de 3 meses da gravação de Cartola, que, embora registrada em estúdio
em abril daquele ano, só foi distribuída no início de outubro (todas as
críticas disponíveis datam de 8 de outubro em diante).
Um bom ajutório a este debate um tanto frenético que tem rolado na Tribuna
seria alguém descobrir exatamente quando estreou a novela "Duas Vidas", na
Globo, e quando a música passou a tocar na sua trilha sonora. Alguém se
habilita?
Por mim, não tenho dúvida que a gravação de Beth foi a que projetou a
composição de Cartola, impulsionada pela reiterada exposição televisiva.
Entretanto, seria um exagero atribuir a ela, ou a qualquer um, o mérito de
haver projetado Cartola. Cartola tinha luz própria, iluminava ao redor. Para
ter uma noção de quem era Cartola, já no início dos anos 60, recomendo a
leitura do livro de Mariza e Arthur.
A Mangueira de Cartola
velhos tempos de apogeu
O Estácio de Ismael
dizendo que o samba era seu...
Onde parece que eu errei, foi ao indicar que a gravação de Beth teria saído
pela Tapecar. Parece que o LP dela com "As rosas não falam" foi o seu
primeiro pela RCA. Consta que vendeu, na época, algo como 400 mil cópias.
Não dá para comparar com as tiragens dos discos da Marcus Pereira.
Abraço
Alberto, de Brasília/DF
Em 22.6.2002, Helion contestou:
> O primeiro disco de Cartola, em 1974, não continha "As rosas não falam".
> Parece que as gravações desta música por Cartola e Beth Carvalho são quase
> contemporaneas, e não acho justo diminuir, por uma questão de meses, a
> importância da Beth ter gravado. Eu, se não me engano, ouvi primeiro com a
> Beth, como também a maior parte das pessoas que conheço. Logo que saiu o
> disco do Cartola, ele era "para iniciados", de "uma tal" de gravadora
> alternativa Marcus Pereira. Coisa apreciada por intelectual de esquerda,
no
> que eu era ainda um mero aprendiz, já que o ouro de Moscou andava
racionado
> na época.
>
> Mas acho que o pessoal tá esquecendo de uma coisa: a primeira música do
> Cartola a chamar a atenção de muita gente, nos anos 70, foi "Acontece",
> gravada lindamente pela Gal Costa, em janeiro de 1974, no show que deu
> origem ao disco "Temporada de Verão - ao vivo na Bahia". Ouvi Cartola pela
> primeira vez ali. E a gravação do show foi em janeiro, portanto sem dúvida
> nenhuma anterior ao lançamento do disco de Cartola.
>
> Helion
>
> ----- Original Message -----
> From: "Alberto R. Cavalcanti" <arcav@brturbo.com>
>
> > Segundo o texto de contracapa do LP "MPL 9325", assinado por Juarez
> Barroso,
> > com data de "abril 1976", eram inéditas nesse segundo disco de Cartola
> pela
> > Marcus Pereira: "O mundo é um moinho" (composta em 1975), "Minha" (de
> > fevereiro-março de 1976), "Preciso me encontrar" (do final de 1975,
> composta
> > por Candeia especialmente para o disco de Cartola), "Aconteceu" (de
1976,
> > concluída dias antes da gravação do disco), "As rosas não falam" (1975)
e
> > "Cordas de aço" (aprox. 1968).
> >
(...)
> >
> > Agora, mesmo que a gravação de Cartola para "As rosas não falam" tenha
> saído
> > antes, isso não quer dizer que a de Beth Carvalho perca valor como
> > divulgadora da música. Os discos da Marcus Pereira não tinham
distribuição
> > tão ampla quanto os de Beth. Aqui na turma da Tribuna, ele é figurinha
> > fácil. Mas, entre um público mais amplo, não é comum. Além disso, creio
> que
> > o fonograma de Beth (que na época gravava pela Tapecar), foi incluído na
> > trilha de uma novela da Globo. Cantoras profissionais têm voz treinada
> para
> > disputar audiências mais amplas.
> >
> > O quanto a projeção de "As cosas não falam" dependeu da (ou foi ajudada
> > pela) gravação de Beth? Penso que essa música aconteceria, de um jeito
ou
> de
> > outro, por méritos próprios. É uma das mais perfeitas do cancioneiro
> > nacional. Entra em qualquer antologia criteriosa. Cartola, compositor,
já
> > vinha "acontecendo", paulatinamente, desde o Zicartola. E sua música já
> > começava a atravessar fronteiras entre gêneros. Em "Temporada de Verão",
> por
> > exemplo, Gal cantou "Acontece". O primeiro disco de Cartola, também
> lançado
> > pela Marcus Pereira, em 1974, fora um estrondoso sucesso de crítica e
> > vendera bem (esgotou em pouco tempo a tiragem inicial de 20 mil
> exemplares).
> >
> > Mas a gravação de Beth e sua escolha para a trilha sonora da novela
> > aceleraram aquilo que um dia acabaria acontecendo. E Beth, é inegável,
se
> > beneficiou da qualidade desse samba, que, nem por ser de qualidade,
deixa
> de
> > ser fácil de gostar. Daí, aliás, sua genialidade. Logo depois, ela foi
> > contratada pela RCA e a tiragem dos seus discos, que já não era pouca,
> > disparou.
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