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Re: Respeito ao Samba

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Bruno Ribeiro (bruno_at_cpopular.com.br)
Data: ter 25 jun 2002 - 16:44:05 EST

VV versou assim:
>Samba libertário e fraterno? Nem todos os Sambas são, arrisco dizer, bem poucos o são.

Eu concordo que, no meio do samba, há muita rivalidade entre os sambistas. Neguinho passar a perna no outro é coisa mais comum do mundo nesse meio. Tampouco as letras podem ser exemplos de cordialidade. Como você mesmo lembrou, a maioria dos sambas preferem temas mais associados à malandragem e ao machismo, qualidades extremamente egoistas. O que eu vejo então de libertário e fraterno no Samba? Bem, de libertário vejo sua tendência a dar identidade e caráter à alguns cidadãos que se metem nesse meio. Para muita gente, se não fosse o samba, a vida deixaria de fazer sentido. Não falo em nome de compositores como eu, que tenho - bem ou mal - um emprego, um bom trânsito na sociedade pelo fato de ser jornalista e duas refeições por dia. Falo de muito neguinho que não tem nada na vida, mas que ao descobrir o samba faz disso a justificativa de sua existência. O que pode parecer alienação, muitas vezes torna-se justamente o contrário: o que já vi de gente sair da sarjeta por causa do samba, não está no gibi.
Enquanto houver quem goste de música, o sambista vai dar certa inveja aos 'simples mortais'. Eu, que componho samba, que faço samba, mas que não nasci no samba, tenho a maior "dor de cotovelo" de caras como o Gera, por exemplo, que tá fazendo samba no botequim do céu desde ontem. O Gera era sambista aqui de Campinas, era demais. Cantava e compunha como se daquilo dependesse sua vida. E não é que dependia mesmo? Sabe o que é cantar para ganhar um prato de comida? O Gera soube. Ele soube também que deveria andar sempre elegante, mesmo não tendo nada de nada neste mundo. Ele chegou a ganhar muito dinheiro com o Originais do Samba, mas a vida lhe deu uma lição, passou-lhe a perna na vaidade. E então ele tornou-se sambista (palavras dele). Depois da fama, da grana e das drogas...Só depois de ir ao fundo e perder tudo é que ele se tornou sambista. Mas caras como o Gera já nascem na pequena área, já estão dentro do esquema, o primeiro som que escutam é o rufar de um tamborim.
O Gera teria morrido ainda mais cedo se não fosse o samba. Dizia que o samba lhe segurava neste mundo, o samba é que fazia preservar em seu rosto cansado aquele resto de charme viril e dignidade humana que tanto encantava as mulheres. A verdade é que nenhuma bancou estar com ele, nenhuma foi ao seu enterro, nem mesmo a filha. Mas o samba esteve ao seu lado no último adeus. Seu parceiro mais constante não faltou, única testemunha da partida definitiva do grande intérprete das madrugadas. O samba libertou-o da completa humilhação de passar pela vida sem ser nada, de sofrer como o diabo e desaparecer como se nunca tivesse havido. Aparentemente, tomando como exemplo seu enterro pobre e solitário, a vida dele foi em vão. Mas para quem o viu cantar nos botequins e nos palcos campineiros, Gera teve uma vida especial. Era um popular, desses que vemos na esquina com seu embrulho debaixo do braço. Mas era um sambista. Tinha trânsito livre em tantos lugares quanto eu - um mero repórter. Ele era sambista.
Tinha moral para falar em nome do Samba. Sem nunca ter ingressado numa faculdade, era consultado pelos estudantes quando o assunto era Música. O Samba é fraterno? Eu não sei. Só sei que, quando uma roda de samba está acontecendo, ninguém morre de morte matada. Casa que tem roda de samba está protegida por um anjo da velha guarda: nada de mau acontece. Dica para os donos de bar do Brasil: evite o assalto ao estabelecimento - promova uma roda de samba. Ou lute para o fim da divisão de classes no Brasil, caso tenha pretensões a longo prazo.

>Discordo, o Samba é música, que por consequência é arte e como arte está sujeita à emoção individual de alguém para existir como tal, democracia é uma coisa e silêncio é outra, quase oposta. O silêncio imposto elimina a possibilidade da manifestação da emoção just-in-time, se esta emoção tiver que se acontecer da forma oral, dançou. Silêncio só será democracia a quem resolver praticá-lo como tal, tem gosto pra tudo.

Eu entendo o que você está dizendo. Porém, o silêncio que tanto tem preocupado algumas pessoas desta Lista e motivado tanta discussão não é o silêncio sepulcral dos seminários. Em algumas rodas e projetos, o silêncio é 'exigido' quando os compositores da mesa estão falando - sobre suas composições ou sobre qualquer outra coisa. Apenas isto, pois acreditamos que a palavra é um bem democrático e de direito de todo homem. E, como tal, deve ser exercida e escutada. Sua voz tem que ter eco. Hoje em dia, você sabe melhor do que eu, não temos voz ou representatividade na sociedade. Queremos falar, queremos existir, queremos ser amados. A solidão é um mal gerado pelos sistemas totalitários - capitalistas ou socialistas - onde o homem é sempre menos importante do que as razões para dominá-lo. Nas rodas que nós promovemos nunca se ouviu uma expressão como 'cala a boca'. As pessoas dançam, cantam e...conversam! Agora, tem prevalecido o bom senso: as pessoas que querem conversar, se afastam da mesa dos sambistas.
Pelo fato de que há vários compositores dando canjas e seria uma falta de respeito com a pessoa ficar falando alto ou dando risada enquanto ele está mostrando o samba que compos só para mostrar para os presentes. Nada contra quem não se interessa, mas achamos correto que se respeite o sambista - que está numa roda acústica, vale lembrar. O difamado 'silêncio', diga-se, só é 'exigido' nestes momentos e dentro do 'nosso' espaço. Fora dali, também gostamos de fazer ou presenciar rodas de samba homéricas, com cerveja saindo pelo ladrão e o maior bafafá. Há momentos para tudo. Tudo deve ser permitido, quando é para o bem comum.

>Nunca desdenhei o povo, até porque sou parte do povo. Também nunca disse que alguém não tenha opinião própria, voce está me confundindo com outra pessoa, inclusive neste assunto se voce ler atentamente a mensagem verá que peço de volta a voz do povo, aquela que o compositor faz calar quando está no palanque, se eu achasse que 'esta gente não tem opinião própria' não gastaria dedo para escrever.

Não trate compositor por ditador. Não há palanque nenhum. Não há campanha política para ninguém. Há, sim, uma retomada de consciência civil, de cidadania e de educação em alguns desses compositores da periferia que freqüentam tais projetos. Ser politizado não deve ser privilégio de gente da classe média. Todos os homens devem - e podem - ter plena consciência do que estão fazendo neste mundo e do papel que eles devem exercer na sociedade.

>Não entendo o emprego excessivo da palavra 'respeito' no Samba, é a mesma coisa que 'respeito' humano? Respeitar o Samba como respeita teu próximo? é isso? Parte da sociedade tem noção exata do significado da palavra 'respeito', outra parte, desgasta o significado da palavra 'respeito' usando-a em situações onde o emprego é mal explicado, no Samba usa-se excessivamente, abusivamente, resumido quero saber, o que "é respeito ao Samba?" Tem que pedir 'bença Sambinha' e coisa e tal?

Respeitar o samba como gênero musical e como manifestação cultural é tratá-lo como um bem valioso de nossa cultura. De que maneira? Trabalhando para que seu passado não se perca, sobretudo seu passado sem registro, seu ontem sem arquivos. É recuperar para a sociedade, compositores talentosos completamente esquecidos. De que maneira? Deixando-os cantar, falar, desabafar. Incentivando-os a compor. Mostrando-lhes que eles pertencem à uma comunidade - a decisão de fazer parte dela ou não é somente do compositor, a nós não compete cooptar ninguém. Respeitar o samba é levantar a voz quando ele começa a ser modificado por interesses econômicos e comerciais, que visam alterar suas formas, adeqüando-ao a modelos mais comerciais ou derivados do pop norte-americano. Respeitar o samba é, também, saber quando silenciar numa roda de samba e saber quando gritar, chorar, dançar e se embebedar em nome Dele, celebrando-o sempre que possível, mostrando aos que estão ao seu redor o quanto o Samba é bom.
Respeitar o samba pode ser tanta coisa. É, para mim, não deixar que ele morra, além de trabalhar por sua continuidade.

Abs!!!
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