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Re: Cala a Boca !?!

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Bruno Ribeiro (bruno_at_cpopular.com.br)
Data: seg 24 jun 2002 - 10:39:25 EST

Valdemar:
>A sociedade passa por um processo de pasteurização do pensamento e de atitude e a música não escapou da sina, corre o risco em se tornar mais uma palavra de ordem. Há pouco mais de um quarto de século atrás o governo militar calava a boca dos artistas com rigorosa e estúpida censura, toda a sociedade se mobilizou como pode para que o artista tivesse voz junto ao seu povo, hoje é o artista que obriga que seu público cale a boca durante suas apresentações, não é irônico paca o artista exibir postura ditatorial com o público que há pouco lutou para lhe dar liberdade à expressão e à voz?

VV, este é uma das mensagens mais estúpidas que você, um homem que sempre primou pela elegância, já conseguiu enviar nesta tribuna. Todos sabemos que, se no passado recente, nos fizeram calar pela força bruta. Mas, engana-se quem acha que este tempo horrendo já passou. Se antes a ditadura era militar, hoje é econômica. Cada um de nós, dentro de sua profissão ou área de ocupação, deve exercer a cidadania lutando para que o País se livre das muitas formas de ditadura implantadas em nossas vidas, em nossos bolsos, em nossas consciências. A minha forma de luta é o samba e a caneta, porque é o que sei fazer. Há muitos caminhos para a libertação do povo, todos eles são difíceis, há que se abrir a picada com facão. Mas há que se trilhar estes caminhos. Por dever, por direito e por respeito ao próximo e a si próprio. Ninguém pode acusar o samba de estar assumindo uma postura ditatorial, isto seria contra os princípios mais nobres do samba, contra seus ideais mais profundos, que é libertário e fraterno.
Ninguém que não esteja engajado no movimento pode denegri-lo da maneira como você fez nesta mensagem. Como você mesmo confessou, só esteve uma única vez ao Samba da Vela e não conhece outros projetos. Limita-se a reproduzir o senso-comum dessa tribuna ou dar importância demais à pequenas impressões pessoais, que não refletem a realidade dessas comunidades e do tratamento que se dá ao samba dentro das rodas promovidas por nós. Não é reunindo 200 mil pessoas em praça pública, 200 mil pessoas sambando em praça pública, 200 mil pessoas cantando em praça pública que vai fazer com que o samba seja ouvido, valorizado ou reconhecido como um direito cultural de todo brasileiro. Não é quantidade, é qualidade. Equivoca-se aqueles que pensam no samba como um fator de alienação. Muita gente, inclusive homens da esquerda - pelos quais você nutre um curioso desprezo - sempre viu e tratou o samba como um ópio, uma cachaça que servia, tão somente, para tirar o trabalhador da realidade desgraçada a que estava submetido,
para dar um pouco de ilusão em sua vida filha da puta. O samba seria, assim, conveniente para a elite dominante, já que manteria o povo sob controle. Nós não vemos o samba desta maneira. O samba aliena quando é comercial, quando serve para comover as multidões num transe coletivo e burro. O samba não tem culpa, tem culpa as pessoas que fazem do samba apenas um produto rentável, um produto que convém aos bolsos, mas não convém ao espírito. Nós, que estamos envolvidos até o pescoço com a causa do samba, sabemos que pedir respeito aos sambistas não é um gesto de repressão, mas de educação e civilidade. Espaços há aos borbotões para quem queira apenas se divertir, encher a cara, dançar com a mulherada e dormir o 'sono dos justos'. Estes espaços proliferam como capim-gordura. Mas não há espaço para a voz do samba que vem da periferia e que, vindo da periferia, preferiu não abrir mão de sua cultura, de sua dignidade e de seus ideais para se afirmar, não como artistas (você usa muito a palavra), mas como cidadãos.
Ninguém é obrigado a 'calar a boca' em roda de samba nenhuma. Ninguém é obrigado a nada. Erra quem pensa que não se pode expressar, que não se pode criticar, que não se pode conversar. Erra, com todas as letras quem diz que o silêncio é sinônimo de ditadura. No caso do samba, o silêncio é a democracia em seu estado mais puro. Impossível, sem coerção física, manter em silêncio mais de 300 pessoas numa roda de samba. Impossível, sem apontar-lhes uma arma na cabeça, colocá-los em silêncio. Você desdenha do povo e desconsidera que esta gente tem opinião própria e que, ao contrário de você, está lá porque deseja estar lá, porque estar lá lhes faz bem. Você não acredita na possibilidade de 300 pessoas conseguirem manter o mínimo de respeito aos compositores presentes porque simplesmente têm a consciência de que não se convive em sociedade sem respeito. Ninguém é obrigado a fazer silêncio. Se há silêncio quando fala o compositor é porque as pessoas ali querem o silêncio,
não porque meia dúzia de sambistas - ou artistas, como você parece preferir - dizem que elas têm de 'calar a boca'. Se a maioria quer assim, você não pode dizer que é ditadura. Até porque há ditadura demais na alegria descabida dos desfiles de carnaval, dos trios elétricos e do aparato de sons e luzes dos mega-shows comerciais. A ditadura da alegria, que nos põe o dedo na cara dizendo que somos apenas consumidores, que não temos o direito de produzir nossa própria música, que não temos capacidade de nos organizar, que não podemos mudar o mundo com idealismo, que não podemos pensar, refletir sobre nossa realidade, que não podemos ser tristes, nem felizes - mas apenas alegres, na alegria torpe, na alegria burra dos que nos querem assim, sempre dispostos a aceitar tudo o que nos vendem, sempre dispostos a trocar gato por lebre, uma pepita de ouro por um espelho, um cavaquinho por uma guitarra elétrica, uma sanfona por um teclado, um voto por uma cesta básica.
 Há mais ditadura entre o céu e a terra do supõe sua filosofia, VV. Nenhum de nós está indo até sua porta para cooptá-lo. Não queremos 'converter' ninguém. A última coisa que você irá ouvir da boca de um sambista é uma palavra de ordem. Se usamos 'cala a boca' para alguém, é contra os exploradores da nossa gente. Contra os arrivistas, os consumistas, os egoístas, os mercenários, os corruptos. Contra eles não temos o menor pudor em mandar-lhes 'calar a boca'. Chega de escutá-los com subserviência, se nossa própria voz não está sendo respeitada. Chega de ouvir o que eles querem, se nós não nos sentimos representados na sociedade que eles criaram. Chega de escutar apenas os ecos de suas vozes na voz do povo, de permitir que eles continuem moldando nossas consciências ao seu bel-prazer. Nós temos voz, temos sonhos, temos o direito de dizer o que pensamos e o que queremos. O samba tem o direito de ser respeitado, valorizado, de merecer inclusive uma proteção oficial deste Estado que não nos representa!
Chega de escutar a voz da hipocrisia, aos hipócritas mandamos nosso sonoro 'Cala a Boca'. O próprio Caetano Veloso, que respeito muito como compositor e poeta, mas que não merece mais minha simpatia depois de determinadas posturas, fez um samba bonito que dizia que o samba ia vencer um dia, e todo povo então iria cantar um grande samba em paz. Que o samba só vai vencer quando o povo perceber que é o dono da jogada. Nesse ponto ele está certo. E me parece que o povo está percebendo que as coisas dependem dele. Vamos chegar lá, queiram vocês ou não.
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