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A lírica de Wilson Batista (era: o amigo dos irmãos Meira)Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: sáb 22 jun 2002 - 11:32:06 EST
VValdemar, Tribuneiros
Esse texto que o VValdemar recolheu no site Cifrantiga é, na realidade,
transcrição literal do verbete de Wilson Batista na Enciclopédia da Música
Brasileira. O texto, salvo engano (não conferi palavra a palavra) é o mesmo
em ambas as edições: a de 1977 e a de 1998.
Por economia de espaço ou algum tipo de miopia autoral ou editorial, o
verbete escolheu como fio condutor a contribuição de Wilson ao carnaval e,
ao destacar algumas de suas composições, praticamente limitou-se ao filão
carnavalesco. Mas, além do carnaval, WB deixou composições de grande força
lírica, feitas para o ambiente de meio de ano. Isso aparece na EMB, em que,
ao
resumo biográfico, segue-se um levantamento do que seria a sua obra
completa.
Gostaria de lembrar apenas três títulos. Um, cuja letra transcrevi aqui há
poucos dias, é "Meu mundo é hoje", que Paulinho da Viola gravou em 1973, num
belíssimo arranjo. Composta em 1966, dois anos antes do fim, vejo esse samba
como um manifesto-testamento, reafirmação da filosofia de Wilson pela vida
adentro.
Não levarei arrependimento
nem o peso da hipocrisia
(...)
pois sei que além de flores
nada mais vai no caixão
Outro, é "Louco (ela é seu mundo)":
Louco
Pelas ruas ele andava
E o coitado chorava
Transformou-se até num vagabundo.
Louco
Para ele a vida não valia nada
Para ele a mulher amada
Era seu mundo.
Como se vê, Wilson Batista era um fingidor. Fingia tão completamente que
chegava a fingir que era dor a dor que deveras sentia. Aos 30 anos, compôs
em 1943, em parceria com Sílvio Caldas, que tinha 35, "Meus vinte anos".
Nos olhos das mulheres
No espelho do meu quarto
É que eu vejo a minha idade.
Um retrato na sala
Faz lembrar com saudade
Da minha mocidade.
A vida para mim
Tem sido tão ruim
Só desenganos
Ah, eu daria tudo
Para poder voltar
Aos meus vinte anos.
Esse sentimento reiterado, retrabalhado, lapidado vezes sem fim, de que a
vida podia ser mais, de que há um débito da vida possível e real para com a
vida que devia ser -- sentimento que, chamado de "malinconia",
"mal-de-siècle", "spleen", em qualquer época e lugar costuma ser matriz da
melhor lírica -- é traço distintivo na poesia de Wilson.
Se essa flor brotou no lodo -- no lodo da alma, nos desvãos da conduta
social --, e não nos jardins bem cuidados da rainha, tanto mais mérito tem
quem a criou. Nem na vida, nem na obra, Wilson disputou o troféu do bom
comportamento. Tinha pena daqueles que se agacham até o chão, enganando a si
mesmos, por dinheiro ou posição.
Não se candidatou à Academia. Se procurar bem, é capaz de se
descobrir que até zombou dela. Mas é mais imortal que a maioria dos gajos
que vestiram o fardão.
Passados 34 anos de sua morte e no mínimo uns 40 do lançamento de sua última
composição de "sucesso", estamos aqui, há dias, debatendo o homem e a obra.
Não é pouco, não.
Alberto, de Brasília/DF
Em 20.6.2002, VValdemar transcreveu:
> Wilson Batista (Wilson Batista de Oliveira), compositor, nasceu em Campos
> RJ, em 3/7/1913 e faleceu no Rio de Janeiro RJ em 7/7/1968. Filho de um
> guarda municipal de Campos, ainda menino participou, tocando triângulo, da
> Lira de Apolo, banda organizada por seu tio, o maestro Ovídio Batista.
Ainda
> na cidade natal, fez parte do Bando , para o qual compunha algumas músicas
> e, pretendendo aprender o ofício de marceneiro, freqüentou o Instituto de
> Artes e Ofícios.
>
> No final da década de 1920, transferiu-se com a família para o Rio de
> Janeiro. Passou então a freqüentar os cabarés
> da Lapa e o Bar Esquina do Pecado, na Praça Tiradentes, pontos de encontro
> de marginais e composítores, tornando-se amigo dos irmãos Meira, malandros
> famosos da época, cuja amizade lhe valeu várias prisões. A seguir, começou
a
> trabalhar como eletricista e ajudante de contra-regra no Teatro Recreio.
>
> Com 16 anos, fez seu primeiro samba, Na estrada da vida, lançado por
> Araci Cortes no Teatro Recreio e gravado em 1933 por Luís Barbosa. Seu
> primeiro samba gravado foi Por favor, vai embora (com Benedito Lacerda e
> Osvaldo Silva), pela Victor, na interpretação de Patrício Teixeira, em
1932.
> A partir de então, passou a fazer parte da Orquestra de Romeu Malagueta,
> como crooner e ritmista (tocava pandeiro).
>
> Em 1933, Almirante gravou sua batucada Barulho no beco (com Osvaldo
> Silva) e três intérpretes (Francisco Alves, Castro Barbosa e Murilo
Caldas)
> divulgaram seu samba Desacato (com Paulo Vieira e Murilo Caldas), que fez
> muito sucesso.
>
> Sempre freqüentando o mesmo ambiente de boêmia, fez a apologia do
> malandro no seu samba Lenço no pescoço, já gravado em 1933 por Sílvio
> Caldas, que deu início à famosa polêmica com Noel Rosa, o qual respondeu
no
> mesmo ano com Rapaz folgado, contestando a identificação do sambista com o
> malandro. Sua réplica a Noel veio no samba Mocinho da Vila, recebendo
então
> como resposta, em 1934, Feitiço da Vila (de Noel Rosa e Vadico).
Continuando
> a polêmica, compôs Conversa fiada, ao qual Noel contrapôs, em 1935, o
samba
> Palpite infeliz. O caso terminou com dois sambas seus, Frankenstein da
Vila
> e Terra de cego, que não tiveram resposta. Os dois polemistas
conheceram-se
> entre um e outro desafio e tornaram-se amigos. As músicas dessa polêmica
> foram reunidas, em 1956, num LP de dez polegadas da Odeon, cantadas por
> Roberto Paiva e Francisco Egídio - Polêmica.
>
> Continuando sua vida de boêmio-compositor, vendendo sambas e fazendo
> parcerias "comerciais", conheceu, no Café Nice, na Avenida Rio Branco, o
> cantor e compositor Erasmo Silva, com quem formou um conjunto, com Lauro
> Paiva ao piano e Roberto Moreno na percussão. Com o conjunto, realizou
> apresentações em Campos RJ e, de volta ao Rio de Janeiro, formou, em 1936,
> uma dupla com Erasmo Silva - a Dupla Verde e Amarelo - que participou da
> vocalização da orquestra argentina Almirante Jonas, que estava de passagem
> no Rio de Janeiro, seguindo com ela para Buenos Aires, Argentina, onde
> ficaram por três meses, ainda em 1936. De volta ao Brasil, trabalharam
> durante mais de um ano na Rádio Atlântica, de Santos SP, e, depois, na
> Record, da capital paulista, onde também gravaram, com as Irmãs Vidal,
pela
> Columbia, seu primeiro disco, com Adeus, adeus (Francisco Malfitano e
> Frazão) e Ela não voltou (dos mesmos compositores e mais Aluísio Silva
> Araújo). Obtendo certo sucesso, seguiram para uma temporada em Porto
Alegre
> RS, voltando a São Paulo para trabalhar na Rádio Tupi.
>
> A fama viria em 1938, quando a dupla foi contratada pela Rádio
Mayrink
> Veiga, do Rio de Janeiro, mas já no ano seguinte, com a ida de Erasmo
Silva
> para Buenos Aires, a dupla se desfez. Em 1939 foi apresentado por Germano
> Augusto ao bicheiro e malandro conhecido por China, a quem venderia muitas
> músicas. Nessa época, sua temática sofreu modificações, ditadas não só
pela
> associação a novos parceiros, mas principalmente pela influência direta de
> uma portaria governamental que proibia a exaltação da malandragem.
>
> Ainda em 1939, fez com Ataulfo Alves Mania da falecida e Oh! seu
Oscar,
> samba que se destacou no Carnaval de 1940, vencendo o concurso de músicas
> carnavalescas do Departamento de Imprensa e Propaganda do governo federal,
> tendo sido gravado por Ciro Monteiro, intérprete que lançou em disco,
também
> no mesmo ano, os seus sambas Tá maluca (com Germano Augusto) e O bonde de
> São Januário (com Ataulfo Alves), este último grande sucesso no Carnaval
de
> 1941.
>
> Consagrado desde então, iniciou, com diversos parceiros famosos, uma
> série de composições, retratando tipos cariocas, que conseguiram êxito na
> maioria dos Carnavais dos vinte anos seguintes. Ainda em 1940, Moreira da
> Silva gravou Acertei no milhar (com Geraldo Pereira), que se tornou um dos
> clássicos do samba de breque; em 1941, Vassourinha lançou em disco outra
> música sua que se destacou no Carnaval de 1942, Emília, feita com Haroldo
> Lobo, seu parceiro ainda em Rosalina, destaque carnavalesco de 1945.
>
> Brincando com a torcida do Vasco da Gama, compôs com Augusto Garcez
No
> boteco do José, que, na gravação de Linda Batista, fez sucesso no Carnaval
> de 1946. Três anos depois se destacaria com Pedreiro Valdemar, feito com
> Roberto Martins e gravado por Blecaute, e, em 1950, obteria enorme êxito
com
> Balzaquiana (com Nássara), lançado em disco por Jorge Goulart. Sua marcha
> Sereia de Copacabana e o seu samba Mundo de zinco (ambos com Nássara),
este
> gravado por Jorge Goulart, foram muito cantados nos Carnavais de 1951 e
> 1952, respectivamente.
>
> Para o Carnaval de 1956 compôs com Jorge de Castro a marcha Todo
> vedete, que teve problemas com a censura por suas referências ao baile dos
> travestis do Teatro João Caetano; com o mesmo parceiro fez, para o
Carnaval
> dos dois anos seguintes, Vagabundo e Marcha da fofoca, sendo esta última
> gravada pelo radialista César de Alencar. O Carnaval de 1962 foi um dos
> últimos de que participou, lançando, em gravação de César de Alencar, Cara
> boa, marcha feita com Jorge de Castro e Alberto Jesus.
>
> Boêmio até o fim da vida, nos seus últimos anos trabalhou como fiscal
> da UBC, entidade que ajudou a criar.
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