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Re: Samba da BênçãoLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Bruno Ribeiro (bruno_at_cpopular.com.br)
Data: qui 20 jun 2002 - 15:50:39 EST
VValdemar:
>Infelizmente o 'mercado' é um mal necessário para quem quer tornar sua obra conhecida, não conheço os projetos comunitários, mas sei, com certeza, que o meio de divulgação de música para a massa populacional é o mercado, se existe a intenção do projeto comunitário que agrega Samba em focar-se no próprio umbigo nem vou entrar no mérito.
Certamente há o desejo de que os sambas dos projetos sejam conhecidos e gravados. Mas o 'entrar no mercado' não é o que move a maioria dos projetos. O que os move mesmo é o samba em si, o prazer de estarmos reunidos semanalmente com um grande número de pessoas, cantando, tocando e falando sobre a vida. Ninguém sataniza o mercado, mas não achamos que estar no mercado é indispensável para a continuidade dos projetos.
>A impressão que tive, confirmada por outras impressões, são contrárias à sua afirmação, estes movimentos que agregam o Samba parecem ser muito fechados a outros segmentos da sociedade, muito focados em si mesmos, umbilicais, é a impressão que fica pelos históricos apresentados na TSC e Agenda.
Às vezes tais impressões são extremamente pessoais. Até mesmo as minhas, já que não represento os projetos, não os conheço todos e mesmo dentro do Cupinzeiro há quem não concorde ou não compartilhe das mesmas opiniões. Fora do nosso terreiro, o grupo de músicos do NCSC faz apresentações com cachê e voluntárias também. Só vou dar um exemplo: quando tocamos nos assentamentos do MST, nem todos os integrantes participam. Há quem não concorde ou não simpatize com a causa (eu considero que isto seja falta de informação, mas não vamos discutir isto agora). A opção dos integrantes do projeto é respeitada incondicionalmente. Este é um exemplo do que rola internamente, entre nós. Pelo menos no nosso caso (Cupinzeiro), não vejo que sejamos fechados ao resto da sociedade. Nas nossas rodas temos a visita constante de gente das escolas de samba, de universitários, de professores da Unicamp, de músicos de todas as praias, de trabalhadores da periferia e da área central, de negros, brancos, jovens, velhos, enfim, falamos
para todo o tipo de gente, sem que nos preocupemos em adaptar nosso discurso a este público ou aquele. E qual é esse discurso? O discurso é cantado, se dá a partir dos sambas que nós estamos cantando. Nosso repertório é vasto, mas de qualidade. As pessoas já cantam Argemiro, Manacéa, Chico Santana, Geraldo Filme, Guilherme de Brito, Mano Décio da Viola. Tem samba do Avarese na ponta da língua do povo! Poder transmitir essa memória (dificilmente estes sambas são esquecidos uma vez que entram na mente) é nosso maior orgulho. Quando achamos uma brecha para 'conversar' com as pessoas que vieram ver a roda (e esta conversa quase sempre começa por intervensão do próprio público), damos um toque quanto à importância de estarmos juntos, de estarmos nos comunicando, de estarmos pensando e produzindo cultura ao invés de estarmos diante da televisão. São toques importantes, as pessoas entendem, levam pra frente.
>Seus parceiros de debates sabem disso. Vou me reportar novamente à única visita que fiz ao Samba da Vela: fui até lá, que é longe pra cacete de onde moro, para ouvir música e encontrei Osvaldinho da Cuíca explanando demoradamente sobre percussão, o que para mim não interessava mas interessava aos membros daquela comunidade. Tudo bem, não gostei do formato não voltei mais, porém o objeto do meu deslocamento, ouvir música, foi também desrespeitado por que rolaram pouquissimas. Acho justo que as comunidades façam de suas reuniões musicais também reuniões de trabalho, o que não acho 'respeitoso', já que as comunidades adoram esta expressão, é conduzir estas reuniões mistas com a presença de público de fora. Já que aceitam sugestões aqui vai a minha: façam reuniões onde simples mortais como eu possam tão simplesmente apreciar a música que fazem, com todo o respeito, não quero ouvir história, nem recado, quero ouvir Samba! se for possível, se não for, estamos em paz, vou procurar ouvir outros Sambas (...)
Entendo o seu ponto de vista, mas conheço um pouco da história do Samba da Vela e sei que aquilo ali começou naturalmente. Sempre foi assim, tendo as 8 pessoas do início ou tendo as 300 habituais, pouca coisa mudou na estrutura e no andamento da roda. Acho que, se alguém tem que se adaptar, somos nós. Nós estamos indo ao espaço deles, não o contrário, como acontece nos shows. O R$ 1 que pagamos na entrada é para bancar a bacia de macarrão do Oliveira, ninguém que vai ali tem o direito de achar que está 'comprando' o samba. Tem muita gente que não volta, outras que não conseguem mais deixar de freqüentar. O ser humano tem interesses e ambições diferentes, é natural e completamente saudável que seja assim.
>A comunidade da Vela se reunia todas as segundas-feiras, que tal reservar apenas uma destas datas ao mes para quem só se interessa por ouvir Samba? Tomei o Samba da Vela como exemplo por que foi a única comunidade que fui, mas pelo que é aqui relatado, não difere muito de outras no quesito comportamento e postura com terceiros.
A semelhança que pode haver é que a maior parte dos projetos acredita que pode mudar para melhor a realidade que os cerca. Mas não quero mais falar sobre o Samba da Vela, pois daqui há pouco vão achar que sou assessor de imprensa do projeto. Faz tempo que não piso lá, nem sei como andam as coisas atualmente.
>No caso das comunidades esta regração parece ser excessiva, ditatorial para o cara que só quer ouvir boa música e isso afugenta.
Não existem regras. Existe respeito: pede-se silêncio quando há muita gente falando ao mesmo tempo que o compositor. Na maior parte das vezes, nem é preciso. O povo que está nas rodas tem o maior interesse em escutar as histórias.
>Pô, mas ai voce está subestimando o frequentador, só o pessoal das comunidades são educados? se algum frequentador pedir repertório do Katinguelê é só não executar ou então informar-lhe que essa não é a seara da comunidade, ou as comunidades não conversam com estranhos?.
Ah, VV, não exagera...Primeiro que raramente alguém chega nestes lugares pensando que vai encontrar esse tipo de pagode. E, quando acontece, o pessoal da mesa tira de letra, sem desrespeitar o cara, mas dando um toque. Ninguém é estranho na 'comunidade'. As 'comunidades' são formadas por pessoas muito diferentes entre si, não é uma coisa certinha, alienada.
>É uma pena que restrinjam suas obras a públicos locais, o que eu e outros debatores estamos tentando dizer-lhe é que seria muito bacana se o restante da população brasileira pudesse ter a possibilidade de acesso a estas obras que voces dizem ser de qualidade, acho que esse é nosso grande equivoco, pedir-lhes o acesso à obras de qualidade que voces negam a este restante de população de mais ou menos 180 milhões de pessoas.
Porra, VV, então quer dizer que são os projetos que negam o acesso aos sambas??? Essa é nova pra mim! Quando eu digo que não dependemos do mercado ou da indústria fonográfica, não quer dizer que não gostaríamos de ter nossos discos gravados. O fato é que isto não é determinante para a continuidade dos projetos, entendeu? As rodas vão continuar sendo feitas, os sambas continuarão sendo compostos e cantados, independentes da indústria ou não. Pois há quem se aventure no meio do samba com fins exclusivamente comerciais, financeiros, midiáticos. Nós não queremos isto. Nós podemos também vir a usufruir disto - mas é um detalhe a mais, não a finalidade dos projetos. Se nós não temos ainda os sambas devidamente registrados e divulgados é porque trabalhamos sem muita verba. No Cupinzeiro, por exemplo, há rodas em que nós ficamos no vermelho, visto que alugamos do próprio bolso as mesas e as cadeiras, além das duas bacias de caldo de feijão que a Anabela prepara e que é servido gratuitamente ao final da roda.
São gastos que nós temos e que o grupo do cupinzeiro tenta cobrir fazendo alguns shows fora do nosso espaço, como em centros culturais, praças públicas e bares. Mas nem sempre é possível fazer um caixa satisfatório para investir em gravações e outras coisas que também achamos importante. Assim como nós, acredito que todos os projetos passam por essa dificuldade.
Abs!!!
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