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Re: [M-Musica] Ministro apóia projeto de lei sobre numeração de CDse livros

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: ter 18 jun 2002 - 02:20:38 EST

Rodrix

Chegamos a um acordo. As empresas querem lucrar, lucrar muito, imediatamente
e para todo o sempre. Esse é seu credo, sua doutrina, a bússola de sua
práxis. Se elas antes eram contrárias à numeração dos exemplares e agora são
favoráveis, isso significa que, agora, numerar é o que se lhes afigura mais
promissor na observância daquele credo.

Muitos acreditam que as gravadoras tiram uma parte significativa de seus
ganhos da prática de não pagar aos artistas os royalties que lhes são
contratualmente devidos pelas cópias vendidas. Ocultam do artista o número
real e assim subestimam sistematicamente o royalty devido. Pode ser tão boa
para elas essa política que não lhes convenha mudá-la.

Faz sentido.

Faz sentido, mas não explica a mudança de atitude. A navalha de William de
Ockham, em face de múltiplas hipóteses, deve ser manejada para desbastar as
que têm menos poder explicativo. As quatro hipóteses formuladas não se
excluem (e portanto não precisam ser desbastadas, podem ser aglutinadas, só
que essa aglutinação demanda alguém mais conciso que o degas aqui). Elas
apontam que essa política, de recusar a numeração das cópias para continuar
ocultando dos artistas contratados os números reais das vendas de seus
discos, deve ter chegado a um ponto em que as perdas são maiores do que os
ganhos. Porque é uma prática irmã da pirataria. O feitiço ficou maior que o
feiticeiro. Provavelmente, fizeram as contas e chegaram à conclusão de que
perdem mais com a pirataria do que o que ganham ludibriando os artistas.

Optam, então, pelo mal menor. Tentarão reduzir as perdas, adotando a
numeração. E vão encontrar outro(s) jeito(s) de tomar dinheiro dos artistas.
O que não haverá de ser tão difícil assim, porque o artista que gosta de se
preocupar com detalhes legais, burocráticos, financeiros é exceção, não é
regra. Aquele que, além de se preocupar, sabe lidar com isso, ou tem alguém
que o faça por ele e realmente mereça a confiança, é a exceção na exceção.

"Vão encontrar outro jeito" é boa vontade. Já devem ter encontrado. Com
certeza, já encontraram. Pois só se colocam problemas quando têm a
respectiva solução.

Dia desses, falava-se aqui na Tribuna da industrialização do jabá. Ora,
pouco falta para perceber que, no elenco, os contratados mais dóceis à
manipulação do boss deverão ter seus discos melhor jabaculizados. Os
questionadores, os criadores de caso, se não tiverem um diferencial
estupendo, em termos de prestígio ou algo que o valha, tenderão a ver seus
discos devidamente desjabaculizados. Parece-me estratégia mais burguesa e
capitalista -- portanto, mais coerente com essa máquina mercante que em
nossa larga barra tem entrado -- do que o jogo um tanto miúdo de esconder o
doce da criança. "Conforma-te ao jogo e serás dos nossos, saberemos
recompensar-te; recalcitra e viverás na corda bamba, de tombo em tombo".

Tudo isso dentro de certos limites, é vero, pois também não convém jogar
fora aquele que se acredita que ainda pode render algum caldo, mesmo que não
muito caudaloso. Imagino que um dos pesadelos ocupacionais preferidos do
executivo de gravadora é perder um contratado maltratado, que venha rendendo
pouco, deixar o cara sair (ou empurrá-lo porta afora) e o gajo explodir de
sucesso em outra gravadora. Como é que o esperto vai se explicar para o boss
dele? Sim, porque acima de um boss sempre tem outro boss.

Hipóteses mais simples são mais atraentes, mas, apesar da elegância de sua
enunciação, não conduzem necessariamente à melhor explicação. A melhor
explicação, às vezes é preciso trilhar caminhos longos e estranhos até
chegar junto dela.

Se eu fosse artista e tivesse capacidade de mobilização, estava a esta
altura organizando a tropa para enfrentar a tecnologia da numeração com
conhecimento de causa. Mas, mal sei assobiar.

Abraço

Alberto, de Brasília/DF

Em 17.6.2002, ZRodrix manejou a navalha de Occam, que é diferente da de
Wilson Batista:

> Acho que vc levanta pontos interesantissimos, de logica exemplar e
com possivilidades realissimas de serem razoavelmente verdadeiros e
factuais. Eu mesmo nao tinha pensado neles sobesse ponto de vista e estou
aqui matutando sobre qual deles tem maiories possibilidades de ser real.
> O conceito da Navalha de Occam nos indica que: frente a um problema
que tem muitas soluções, a mais simples forçosamente é a certa. E é isso que
me chama a atenção, porque nao consigo descobrir nessa industria que luta
publicamente contra a pirataria que ela mesma pratica em privado nenhuma boa
intenção. O que lhes interessa continua sendo manter : a) sua fonte de
lucro, e b) a propriedade eterna dessa fonte de lucro. Se os fatos
historicos ( como vc mesmo ressalta ) a fizeram mudar de patamar e postura,
essa é uma possibilidade. Mas ninguem se transforma em seu oposto
integralmente, principalmente quando nao existe um bom motivo para isso.
> Industrias desse tipo lidam com roteiros muito rigidamente
estabelecidos, e seus executivos vivem papeis perfeitamente determinados
nesses roteiros. Há quem diga que nesse caso da pirataria pode haver tres
hipoteses: a) a industria é quem pirateia ; b) a industria é conivente com a
pirataria feita por seus executivos: e c) a industria é contra o que seus
executivos fazem mas nao tem como impedi-los. Os dados da realidade apontam
para as duas primeiras com muito mais precisão, e so nos falta descobrir se
existe alguma motivação diferente da acima explicitada ( lucro & controle )
na questão da aparente mudança de atitude em relação à numeração de discos.
Eu me baseio nas atitudes de sempre dessa dessa industria para perceber que
sua motivação
> continua sendo a de sempre: lucro&controle, e tento perceber como é que a
numeração vai funcionar para implementar essa motivação. Nao vejo outra
saida.
> Tudo o que vc menciona está colocado posteriormente ao processo de
controle das fontes de lucro, e pode ser extremamente verdadeiro, mas
incluem outros dados, outros processos, outras pessoas que nao as gravadoras
que formam o primeiro patamar da industria.
> Minha preocupação é com o nosso lado, o dos artistas, para perceber
de que maneira a numeração seria uma conquista nossa. pelo que vejo, so é
uma conquista para quem se tornou independente da industria, porque
tornando-se independete tem um maximo de controle sobre o lucro que ele
mesmo produz. No caso da relação com uma gravadora, com os contratos que
continuam vigorando, e a impossibilidade de auditagem ( por [parte dos
artistas ) da contabilidade dessa industria, continua sendo apenas
fogo-de-vista. A industria continuara fazendo o que quer, como quer e nunca
terá que dar contas disso a ninguem, a nao ser a si propria. Nao me parece
um bom negocio, e abre a possibilidade dessa industria , se quiser, duplicar
ou triplicar as series
> numeradas e vender series diversas em lugares diversos. Nao rpecisamos do
AM: se vc vender dois CDs de numero identico, um nos Jardins e outro na
Moóca, as chances deles se encontrarem estão na casa do uma em sete bilhões.
VC sabe que quem compra CDs esta interesado em musica, nao em numeração ou
legalidade, e tanto isso é verdade que o mercado pirata vem crescendo
assustadoramente enquanto que as lojas de discos oficiais fecham cda vez
mais rapido.
> Se eu nao tenho acesso à contabilidade das gravadoras para saber com
exatidão quantos CDs meus foram vendidos, isso tudo comprovado por uma
analise corretissima, vai continuar sendo a mesma brincadeira de sempre.
> Z
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