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Re: [M-Musica] Ministro apóia p rojeto de lei sobre numeração de CDse livros

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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arcav_at_brturbo.com
Data: dom 16 jun 2002 - 20:49:06 EST

Rodrix

Desculpe a minha burrice. Não sei se entendo seu ponto de vista. Não tenho
qualquer tipo de relação profissional com o mundo da música. Sou apenas um
consumidor. Parece-me que, se é só isso que v. está dizendo (primazia
tecnológica das grandes na adoção da tecnologia), continuo não vendo razão
para as gravadoras abraçarem a tese da numeração das cópias. Continua
sendo mais fácil e menos arriscado para elas fazer a mágica da
multiplicação das cópias sem numerar os exemplares. Nessa perspectiva, a
numeração das cópias é um custo extra e só traz um benefício "moral", que
não compensa o risco.

Deixe-me explicar melhor meu ponto de vista.

O primeiro ponto do meu raciocínio é que mercados regionais como os que
você citou (Amazonas, Rio Grande do Sul) não comportam grandes prensagens
industriais. Mais da metade das cópias vai ficar mesmo no Rio e em S.
Paulo (capital, interior I, interior II).

Concordo que, mesmo havendo essa concentração geográfica, continua sendo
residual ("ridícula", como v. expressou) a possibilidade de se cruzarem
duas cópias do mesmo CD com a mesma numeração, em se tratando de um
determinado CD.

Mas isso nos leva ao segundo ponto: não são as gravadoras que controlam a
distribuição. Há empresas dedicadas a isso, que distribuem de alfinete a
bicicleta. E a logística da distribuição não é necessariamente favorável à
dispersão dessas séries de pirataria oficiosa que v. aventa. Nada garante
que não acabe acontecendo de dois exemplares de numeração idêntica virem a
parar, por exemplo, numa loja das Lojas Americanas.

E olhe que a possibilidade do flagrante de pirataria oficiosa não termina
na loja. Continua viva depois que o CD foi adquirido e está na casa do
consumidor. Continua viva enquanto durarem os exemplares duplicados. E,
nesse caso, quanto mais exclusivo for o domínio da tecnologia de numeração
das cópias, menor será a plausibilidade do álibi que as gravadoras poderão
alegar para dizer que não têm nada a ver com a duplicação.

Seja como for, com o tempo, com o lançamento de muitos títulos, as
duplicatas irão se acumulando no mercado e nas mãos dos consumidores, numa
proporção tal que, um dia, o flagrante acaba acontecendo. É inevitável.
Isso para não falar da possibilidade de alguma entidade de direitos
autorais já existente ou alguma associação que os artistas venham a criar
se dedique ativamente a algum tipo de vigilância, aumentando o risco do
flagrante a médio ou mesmo a curto prazo.

Por tudo isso, parece-me muito mais fácil, para as gravadoras, manter a
posição tradicional de serem contrárias à numeração, se a política oficial
delas for a de soltar várias séries com a mesma numeração. E, daí, volto à
sua pergunta inicial: por que mudaram de idéia? Será que é porque ficaram
boazinhas? Certamente, não. Só pode ser porque imaginam que vão ganhar
mais ou perder menos se for adotada a numeração.

Ocorrem-me quatro hipóteses.

A primeira é a que já aventei. A partir do momento em que os papéis se
diferenciaram e as gravadoras especializaram-se em produzir fonogramas e
deixaram de ser necessariamente as prensadoras de seus discos, diminuiu o
controle da gravadora sobre o processo industrial. Pode estar havendo
algum tipo de stress entre gravadoras e prensadoras.

A segunda, também aventada, é que a tecnologia de numeração a ser adotada
seja invisível para o artista e o público em geral. Não haverá diferença
perceptível entre dois exemplares com o mesmo número, sendo necessário
algum tipo de aparelho, inacessível ao público e ao artista, para
identificar a numeração de cada cópia. Se for isso, a intenção das
gravadoras, aderindo à ídéia, vai ficar mal disfarçada. Elas controlarão
indiretamente o processo industrial e não tranaferirão controle aos
artistas. Para elas, é pudim com calda de chocolate. Entretanto, a época
em que vivemos não é das mais favoráveis a esse tipo de truque. Alguém
acaba inventando um software de computador que lê o tal código e logo o
software está sendo distribuído na internet.

A terceira é baseada na idéia de que não existe total identidade entre (1)
a empresa gravadora multinacional instalada no Brasil e (2) todos e cada
um dos seus dirigentes locais. Esse recente episódio do (ex-)executivo de
uma grande gravadora pilhado em flagrante de pirataria pode ser
interpretado como indicador de que tal possibilidade seja bastante
concreta. O artista acredita que está sendo enganado pela gravadora e,
vai-se ver, é o executivo da gravadora que está parasitando tanto o
artista quanto a empresa. Não é fenômeno raro. É apenas reprodução daquela
cena, imortalizada em marchinha carnavalesca, do cobrador do bonde, que
dava dois pra Light e ficava com o terceiro pra ele.

Não sendo raro, o fenômeno pode ter sido facilitado pela diferenciação de
papéis entre gravadora e prensadora. Antes, a gravadora podia exercer
controles indiretos sobre a quantidade de cópias, acompanhando, por
exemplo, a quantidade de matéria-prima empregada no processo de prensagem.
Além disso, para o executivo praticar a fraude como conduta usual, tinha
que subornar outros empregados da mesma empresa, que intervinham no
processo industrial, no controle de estoque de matéria-prima etc. Em suma,
era fraude que deixava muitas pistas dentro da própria empresa.

Agora, com a diferenciação de papéis, pode ter ficado mais fácil para o
executivo maroto enganar a empresa gravadora que o contratou.

A quarta hipótese é que essa mudança de posição das gravadoras pode estar
correspondendo a uma diretriz política emanada da Matriz. E, aqui, não me
refiro propriamente à matriz da empresa gravadora, mas a algo maior, que
tem a ver com política dos 7 grandes. Algo como: "Tio Sam mandou".

Seja como for, as hipóteses não são excludentes.

O que v. acha?

Abraço

Alberto, de Brasília/DF

Em 16/06/2002, ZRodrix alumiou:

> mais dois pitacos:
> 1) printe-se series diversas com a mesma numeração: mande-s euma
para o AM< outra para o RGS e outra para SP. VC calcula quais as chances
desses discos se "encontrarem"? Ridicula. E sem que tenhamos acesso à
contabilidade das gravadoras, eles podem fazer esssa magica quantas vezes
quiserem e ninguem fica sabendo.
> 2) a SONY reclama da piurataria, mas ´´uma das grandes piratas
oficiais modelo caixa2. Alem de uma das principais fabricantes do MP3. VC
nao acha engracada a contradiçnao?

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