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Re: De Revólver Não

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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arcav_at_brturbo.com
Data: qui 13 jun 2002 - 00:53:10 EST

VValdemar

Permita colocar minha colher de pau nesse debate.

Você está avaliando (veja bem, estou usando o verbo "avaliar", não o verbo
"julgar") atitudes e procedimentos de uns e de outros. No caso, por
exemplo, desse tal Belo, que, em benefício da clareza, devo de cara
admitir que não conhecia até ele entrar para o noticiário policial (e,
musicalmente, continuo não conhecendo, mas isso há de ser falha minha), e
Wilson Batista. E está defendendo uma certa equivalência entre ambos (não,
evidentemente, entre as obras de ambos).

Nessa lógica que v. defende, se bem entendi, já que um portava navalha,
nos anos 30 e 40, e outro coleciona fuzis militares, no albor deste novo
milênio, ambos têm, na sua avaliação, disposição para matar. Porque a
navalha, então, seria proporcional ao fuzil militar de hoje. Se um fazia
uns biscates no incipiente tráfico de drogas, há 60, 70 anos, e outro
financia o tráfico agora, os procedimentos e atitudes em face da vida
seriam equivalentes.

Um estaria tão imerso na criminalidade quanto o outro. Cada qual teria
pela vida alheia a mesma consideração.

Nesse debate também houve quem defendesse a idéia de que é preciso
dissociar a obra da pessoa que a criou. O sujeito pode ser um canalha e
criar obra maviosa. Estou de acordo, e admiti isso, em parte, ao comentar
o caráter do David Nasser. Parece-me bastante plausível considerar a obra
sem levar em conta o caráter do artista, no que diz respeito a seu
comportamento em face da família, dos amigos, dos contemporâneos. A obra
pode ter vida própria. Talvez Richard Wagner seja, por excelência, o
emblema demonstrativo dessa possibilidade. E, quanto mais o tempo passa e
a obra permanece, relativamente menos importante vá ficando para a
posteridade a questão da pessoa do artista.

Entretanto, o que vv. estão discutindo não é a obra de Wilson Batista
vis-à-vis da "obra" desse Belo (se é que posso me expressar assim;
desculpem-me a ignorância quanto ao trabalho dele). Estão discutindo as
pessoas. Nesse caso, feita essa escolha, defendo que cabe, sim, incluir,
entre os atributos de um e de outro, a produção estética que deixaram ou
estão deixando.

Mas, não apenas isso.

Pois, se analisarmos com vagar, creio que constataremos que não é bem
assim. Que há uma distância considerável entre, de um lado, portar navalha
e biscatear com drogas, em qualquer tempo, e, de outro, colecionar
clandestinamente armas militares e financiar o tráfico com importâncias
como 25 mil, sejam dólares ou reais. Para constatar a diferença, bastaria
sair por aí, hoje em dia ou há 60 anos, com uma navalha no bolso e, no
outro dia, com um fuzil AR-15 a tiracolo.

Nos olhos das mulheres
No espelho das vitrines

ver-se-á a diferença.

Creio não estar longe da verdade se afirmar que um advogado criminalista
explicará a diferença entre arma branca e arma de fogo; entre arma de
defesa e arma que, sendo de uso exclusivo das forças armadas, não é arma
de defesa. Entre arma que só pode atingir quem se acerca do seu portador e
arma que pode ser manejada à distância, permanecendo a vítima potencial em
completa ignorância do perigo a que se expõe. Entre a quantidade de dolo
que há no porte de uma navalha e na coleção clandestina de fuzis AR-15.

Mas, mesmo nisso, penso que ainda há uma simplificação um tanto exagerada
no raciocínio. Pois, para comparar a navalha de 1940 com o fuzil militar
de 2002, ou o biscate com drogas naquela época com o financiamento ao
tráfico, hoje, é preciso comparar os códigos de ética prevalecentes nas
duas épocas. Comparar, inclusive, a significação social do tráfico de
drogas nas duas épocas.

Se a gente não souber fazer a diferença, vai ficar sem entender como "é
que o gajo ia ao bar municiado de lâmina, lotava o caco de cachaça e não
acontecia nada" (palavras suas). O "gajo", no caso, era Wilson Batista,
autor de uma das mais impressionantes obras sambísticas do século do
samba. "Não acontecia nada" porque ele portava navalha mas não tinha
intenção de ofender ninguém. Freqüentava rodas pesadas e precisava
produzir a impressão de que poderia reagir a um abuso. Estratégia de
defesa pessoal.

Que se assumia e estava pronto para sucumbir, ele não escondeu:

Eu sou assim
quem quiser gostar de mim
eu sou assim
Meu mundo é hoje
não existe amanhã pra mim

Eu sou assim
assim morrerei um dia
Não levarei arrependimentos
nem o peso da hipocrisia

Tenho pena daqueles
que se agacham até o chão
enganando a si mesmos
por dinheiro ou posição

Nunca tomei parte
nesse enorme batalhão
pois sei que além de flores
nada mais vai no caixão

Vítima da injustiça social? Certamente. Mas isso é só uma parte: não
explica tudo. Dava sua contribuição pessoal ao próprio drama. Pois era
também, com certeza, um "gauche na vida". O "Frankenstein da Vila" é de um
gauchismo evidentíssimo. Mas, a maior parte do tempo, um desajeitado da
maior qualidade. Drummond não se envergonharia da poesia dele.

Que a malandragem dos anos 30 e 40 era menos ofensiva, naquela época, do
que a bandidagem de hoje é hoje, parece-me difícil negar.

Ou Noel, que não era metido a valente, não teria composto com graça:

Este mulato forte é do Salgueiro
Passear no "tintureiro"
é o seu esporte
Já nasceu com sorte
e desde pirralho
vive à custa do baralho
nunca viu trabalho.

Com certeza, havia menos tragédia social no universo da malandragem
daquela época do que no da bandidagem de hoje. Compare "Mulato bamba", de
Noel, com "Meu guri", de Chico. Neste, há uma inexorabilidade que não há
naquele. E não é apenas uma questão de escolha de exemplos. Não havia,
naquela época, nada que se comparasse à tragédia social brasileira de
agora.

Embora a média de expectativa de vida do brasileiro esteja subindo, como
em quase todo o mundo.

Abraço

Alberto
Brasília, DF

Em tempo: v. não respondeu minha provocação quanto à diferença entre
malandro e marginal, no antigamente.

Em 12.6.02, VValdemar Pavan começou com justa perplexidade, mas foi
firmando convicção:

> O que custa-me acreditar é que o gajo ia ao bar munciado de lâmina,
lotava o
> caco de cachaça e não acontecia nada. . O crime mais recorrente em SP
vem da
> conjuminação boteco x cachaça x arma. Quase que a totalidade dos casos, a
> ponto de influir no cálculo da duração média de vida de um brasileiro,
que
> claro, despenca anualmente. O país mudou, as questões, as estatísticas
> mudaram mas o ser humano permanece o mesmo. Nelson Rodrigues em sua
última
> entrevista em outubro de 1980: " Um dos meus temas prediletos é a
violência
> humana. O ser humano é um assassino natural. O ser humano é feroz". Isso
a
> gente já imaginava, a luta do ser humano é evitar que essa ferocidade
humana
> não se manifeste com tanta facilidade, não dá para romantizar que arma
no
> bolso ou na parede do compositor é poesia. Nem tem essa de quem está mais
> certo, se Belo ou Wilson Batista, não dá pra aceitar qualquer sujeito que
> esteja preparado para aniquilar com outra Vida imediatamente. Portar arma
> não é ser herói, é a expressão mór da covardia humana, do medo, da
valentia
> que só se manifesta mediante a opressão armada. WB foi um bom compositor
mas
> essa história de portar arma detonou total meu barato, quando penso em um
> Sambista ou Artista que aprecio, vivo ou morto, sempre procuro imaginá-lo
> portador de um estado de vida superior, de gente que carrega ou carregou
> arma quero total distância, se não é crime presumo que o cara é ou era um
> pré disposto a cometê-lo, e para mim isso basta! Se a justiça não prevê,
> julgo por valores pessoais o que é bom e o que não é bom para eu
conviver.
> Não é só a mim, tolo consumidor isolado, que o porte de arma desagrada, a
> venda dos discos de Belo simplesmente pararam de acontecer depois do
> episódio! As pessoas estão pelas tampas com histórias de arma, violência,
> droga e marginalidade, não dá pra laurear a figura humana do Wilson
Batista
> não, em tempo nenhum. E de ninguém que esteja nessa. Valentes e heróis
são
> os não portadores. Todos. Meus verdadeiros idolos. De lambuja a
entrevista
> do Nelson Rodrigues aqui, quem é da off_topic já leu (acho):
>
> http://www.estado.com.br/editorias/2002/06/09/cad028.html
> http://www.estado.com.br/editorias/2002/06/09/cad035.html
>
>
> Samambaia:
>
> Acho que o assunto é mesmo o Wilson Batista, que nunca foi santo. Aliás,
> fiquei matutando sobre a questão da mitificação da marginalidade (Seja
> marginal, seja herói!)na cultura brasileira. Talvez seja reflexo das
> ditaduras que vivenciamos, em várias épocas. Quando um regime autoritário
> qualquer coloca procedimentos democráticos na ilegalidade (coisas como
> votar, reunir-se em associações, liberdade de expressão, etc), provoca
uma
> dissolução dos limites claros entre o que é e o que não é marginal. O que
> era bom ontem, passa a ser marginal hoje. Marginais são os que lutam
contra
> ditaduras de qualquer latitude. Conclusão: Se eu não posso ser "legal",
> serei marginal. Em países de tradição democrática parece que esta postura
> não existe. Que fique claro que estou falando de uma postura acadêmica,
> intelectual, de glorificação da marginalidade. Me parece que o Wilson
> Batista não estava especialmente interessado em lutar contra a ditadura
da
> época... mesmo tendo feito sambas para o Cabo Laurindo :-))

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