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Sobre Mário Lago (O GLOBO)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: sáb 01 jun 2002 - 15:35:26 EST

Jornal O GLOBO de sábado, 1º.06.2002.

http://oglobo.globo.com/Cultura/22094499.htm

"Mário Lago, 90, uma vida de cultura e política

João Pimentel

“Eu fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo. Nem ele me
persegue e nem eu fujo. Qualquer dia a gente se encontra”. Esta era
uma das máximas que o escritor, compositor, ator, radialista, militante
político e diretor Mário Lago não se cansava de repetir. E o velho Lago
soube cumprir o acordo até o fim, mantendo-se ativo, escrevendo, fazendo
pequenas participações em novelas ou marcando posição como uma voz coesa
contra as diversas formas de opressão.

O encontro final aconteceu ontem, aos 90 anos, no início da noite. Vítima de
um edema pulmonar, ele vinha sofrendo sérios problemas de saúde e respirava
com ajuda de aparelhos. Ficou quase um mês internado em janeiro, mas os
médicos acharam melhor continuar o tratamento em casa, já que a permanência
no hospital pouco poderia acrescentar ao seu estado de saúde.

Plano de saúde não cobria todas as despesas

Ele passava por dificuldades financeiras devido ao custo dos cuidados de que
precisava, que não eram integralmente cobertos pelo plano de saúde. Mário
continuava recebendo seu salário da Rede Globo e tinha uma pensão do governo
por ter sido beneficiado pela lei da anistia. O corpo do ator está sendo
velado no Teatro João Caetano, no Centro, e será enterrado hoje no Cemitério
São João Batista, às 16h. Já de madrugada, fãs, artistas e amigos estiveram
no velório ao som de sambas de Mário Lago. O caixão ficou entre o feixe de
luz de dois holofotes. Como Mário Lago era ateu, o crucifixo que ornava o
saguão foi retirado.

— Ainda estamos chocados, quando acontece é um choque — disse
Mário Lago Filho, que confessou “não ter a menor idéia” de como
são os procedimentos legais para se enterrar um parente.

Mangueirense como Lago e seu vizinho na Rua Júlio de Castilhos, em
Copacabana, o compositor Nelson Sargento lamentou a perda:

— Vai embora mais um componente daquela Lapa dos anos 30, 40, 50.
Mário era uma pessoa incrível, que se deu bem em tudo, da música ao teatro,
da poesia ao cinema, da política à televisão.

Teatro ajudou a pagar a faculdade de direito

Nascido em 26 de novembro de 1911, filho do maestro Antônio Lago, Mário
conviveu desde cedo com a música e o teatro. Como forma de pagar seus
estudos — formou-se em direito em 1933 — começou a escrever
esquetes para o teatro e, no mesmo ano em que recebia o diploma, assinava a
sua primeira peça, “Flores à Acuña”.

— Cresci respirando cultura. Quando comecei a escrever para teatro de
revista, eu já atrelava as imagens e os versos à minha musicalidade —
disse Lago em entrevista ao GLOBO em 1998.

Autor de 31 revistas — segundo a sua biógrafa, Mônica Carvalho, que
lançou em 1999 “Mário Lago, boemia e política” — o
escritor passou a dar vez ao compositor quando Lago se tornou inveterado
freqüentador dos antigos cafés, entre eles, naturalmente, o Nice, onde, nos
anos 30 e 40, os compositores negociavam suas músicas.

Foi neste período, e também nos anos 50, que ele compôs grande parte de suas
mais de 200 canções.

Um de seus primeiros parceiros foi Custódio Mesquita, o Tom Jobim da época.
Juntos fizeram, por exemplo, “Nada além” e “Enquanto
houver saudade”. Com Ataulfo Alves, Mário Lago criou dois dos maiores
clássicos da MPB: “Ai, que saudades da Amélia” e “Atire a
primeira pedra”. Mas ele nunca se preocupou em ser fiel a seus
parceiros musicais.

Se a voz de Mário Lago era conhecida de novelas de rádio, sua imagem ficou
popular graças ao seu trabalho na televisão. Estreou em novelas de TV em
1966, em “O sheik de Agadir”. Interpretou personagens marcantes
como Atílio, em “O casarão”, e Alberico Santos, em
“Dancin’ Days”. Também trabalhou em minisséries como
“Engraçadinha”, em que fez o papel do padre Osmar. Seu último
papel na TV foi uma participação na novela “O clone”, em que
reencarnou o Doutor Molina de “Barriga de aluguel”.

No cinema, trabalhou em filmes importantes como “Terra em
transe”, de Glauber Rocha, “São Bernardo”, de Leon
Hirszman, “Os herdeiros”, de Cacá Diegues, e “O padre e a
moça”, de Joaquim Pedro de Andrade.

Mário Lago relatou muito de seus causos nos livros “Na rolança do
tempo”, de 1976, “Bagaço de beira-estrada”, de 1977, e
“Meia porção de sarapatel”, de 1986. Atualmente se dedicava a
“Meus tempos de moleque”, título provisório de mais um livro.

Talvez o papel mais delicado que exerceu na vida tenha sido o do ativista
político: Lago se manteve comunista por toda a vida, o que lhe custou seis
prisões, as últimas durante o regime militar de 1964. No fim da vida se
dizia um marxista autônomo. Trabalhou como âncora nos programas da campanha
presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 1998. Ele relacionava sua
atividade política ao fato de se manter sempre jovem.

— O comunismo sempre foi a juventude do mundo — disse, no ano
passado.

Mas Mário Lago não tinha predileção por nenhum de seus papéis na vida.

— Sempre acho que o mais importante é o que estou fazendo naquele
momento.

Apesar de na juventude ter sido boêmio, Lago deixou os hábitos notívagos
quando conheceu e se casou com Zeli, sua companheira da vida toda, morta em
1997.

Criador de Amélia, a mulher de verdade da canção, Mário negava ser ela um
exemplo de submissão.

— A Zeli, por exemplo, uma mulher de esquerda como eu, não deixava de
ser Amélia. Quando tivemos de sair da Barata Ribeiro para Bento Ribeiro, ela
disse: “Bento, Barata, é tudo parente”.

Em 2001, Mário Lago teve sua trajetória contada pela escola Acadêmicos de
Santa Cruz, no enredo “Mário Lago: na rolança do tempo e na vida de
histórias”.

Ele também foi homenageado por Gilberto Gil na canção “O mar e o
lago”: “Rugas no rosto moreno/ Ondas no lago sereno/ Vento
repentino/ Ares de menino”. (Colaboraram Bernardo Araujo, Daniela Name
e Luciana Pereira)"

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