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Antônio VieiraLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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Data: ter 02 abr 2002 - 14:54:43 EST
Gênio Maranhense
Uma entrevista com Antônio Vieira
ANTÔNIO VIEIRA foi descoberto por Zeca Baleiro, lança seu primeiro CD, "O
Samba é Bom" e tem sua obra registrada em documentário
Decano da música ludovicense (re)descoberto por Zeca Baleiro e que, aos 82
anos, acaba de lançar seu primeiro disco solo.
Um clássico. Desses de sentar na mesma mesa de Nelson Cavaquinho, Ismael
Silva e Candeia e batucar de igual pra igual com a quintessência do samba
carioca. Desses de chegar perto de Cartola e não pedir a bênção. Aos 82
anos, Mestre Antônio Vieira é o mais novo baluarte extemporâneo da MPB. Como
Batatinha, na Bahia, Clementina de Jesus, no Rio, e tantos outros que
escreveram a história musical do Brasil, seu trabalho e sua obra
permaneceram praticamente desconhecidos do grande público durante décadas e
só tardiamente começaram a ganhar o devido reconhecimento.
Representante de uma geração da música maranhense da qual se tem pouquíssimo
registro, Antônio Vieira foi (re)descoberto no ano passado por Zeca Baleiro,
que fez justiça às suas quase sete décadas de composição e decidiu
homenagear o mestre com a gravação de seu primeiro disco solo. Capitaneando
a produção do projeto, Baleiro reuniu alguns músicos e organizou um show de
Vieira que lotaria durante duas noites o Teatro Arthur Azevedo, o maior de
São Luis. De quebra, trouxe convidados ilustres como Sivuca, Célia Maria,
Elza Soares, o violonista Sinhô e Rita Ribeiro, que, em 1997, gravou uma
música de Vieira, ''Cocada'', com a qual foi indicada ao Prêmio Sharp na
categoria de Melhor Canção.
Gravado ao vivo, o show antológico resultou num CD (o deslumbrante ''O samba
é bom'', lançado agora pela gravadora Elo Music, de Vange Milliet e Paulo
Lepetit) e num documentário (''Mestre Vieira - Poema para o azul'', assinado
por Beto Matuck e Cláudio Farias). A importância desses produtos é
imensurável. Primeiro porque tornaram-se efetivamente o primeiro registro
fonográfico mais amplo de Vieira (até então, sua participação em discos se
limitava a uma faixa num compacto duplo de 1986 e a um obscuro LP sobre os
pregoeiros de São Luis). E depois porque fizeram um resumo da carreira do
mestre maranhense, autor não só de sambas, mas também de valsas, boleros e
ritmos regionais - como o baralho e o carimbó - igualmente encantadores.
No disco, Vieira, sozinho ou acompanhado, canta músicas como ''O samba
é bom'', ''Mulata Bonita'', ''Cocada'', ''Ciúme'', ''Papagaio de papel'',
''Tem quem queira'' e ''Poema para o azul'' - sua primeira composição,
escrita aos 16 anos, como resultado de uma promessa que Vieira fez para a
madrinha. Em comum, as canções apresentam a simplicidade poética, o balanço
irresistível e a interpretação emocionante de seu autor, dono de uma voz
delicada em alguns momentos, rasgada em outros, mas sempre cheia de ginga e
emoção. Não à toa os amigos lhe apelidaram de ''o cantor que faz chorar''. E
de fato é difícil atravessar as 19 faixas do CD no seco.
Muito simpático, Antônio Vieira conversou com a reportagem do Caderno 3 na
manhã da última quarta-feira. Por telefone, além de deixar o entrevistador
completamente embevecido com tamanha simplicidade e lucidez, falou sobre sua
música, seu processo de composição -que até uns tempos atrás se dava sem o
violão (instrumento que só aprendeu a tocar aos 60 anos) -, sua admiração
por Charles Chaplin, e até sobre a política maranhense, que tanto tem
chamado a atenção nacional nos últimos meses. Se bem que falar de gente que
só tem diminuído o nome do Maranhão soa meio estouvado diante de um
interlocutor que reafirma a grandeza da cultura daquele Estado.
O melhor Maranhão, no final das contas, é o Maranhão cantado por Vieira.
Aqueles outros maranhenses - os políticos -, hão de passar. Ele não. O
Brasil precisava de mais um gênio desse porte.
Diário do Nordeste - A história da música popular brasileira registra vários
casos de artistas fundamentais que, a despeito da riqueza da obra, só
tiveram seus nomes reconhecidos tardiamente. Com esse disco o senhor passa a
fazer parte desse time. Qual é, portanto, a sensação de gravar o primeiro
disco solo aos 80 anos de idade?
Antônio Vieira - Rapaz, a sensação é a satisfação do indivíduo em deixar uma
obra, a qual a gente levou tanto tempo pra fazer. E isso dá alegria. Assim
como eu, dezenas de outros compositores dessa terra deixaram uma obra
tremenda. Nós temos aqui um compositor fabuloso chamado Agostinho Reis,
primo daquele grande compositor que morava no Rio chamado Luis Reis, autor
de ''Cara de Palhaço'', ''Luminosa manhã'', etc. Todos nasceram aqui no
Maranhão. Mas o Luis Reis foi para o Rio e conseguiu mostrar sua obra até
falecer. O Agostinho Reis faleceu aqui e não deixou nada gravado. E ele era
extraordinário. Mas é isso mesmo.
- O senhor acha então que, se tivesse nascido ou se estabelecido no Rio de
Janeiro, o senhor já estaria no mesmo patamar dos grandes sambistas cariocas
em termos de prestígio junto ao público?
Antônio Vieira- Eu acho. Uma vez eu estive no Rio de Janeiro e fiz um teste
na Globo. O maestro Roberto Nascimento perguntou se eu iria morar no Rio. E
ele me disse: ''venha aqui para o Rio que eu quero ser o seu padrinho. Sua
obra tem muita coisa bonita''. Eu disse que não, não tinha condição, eu era
funcionário, tinha que completar meu tempo para me aposentar. Mas eu fiz
Rolando Boldrin, no tempo daquele ''Som Brasil''. Eu fiz quatro vezes. Ele
mandava me buscar, eu fazia o número lá e ia me embora. Quer dizer, é porque
devia ter alguma coisa que valesse, não é?
- O senhor teve as atenções voltadas para o seu trabalho a partir da
gravação de sua música ''Cocada'' pela Rita Ribeiro, em 1997, que valeu até
uma indicação ao Prêmio Sharp na categoria ''melhor canção''. O senhor
imaginava que aquele registro ia despertar tanto interesse em torno do seu
trabalho?
Antônio Vieira- Que fosse chegar a esse grau não. Mas acredito no meu
trabalho e tenho outras cocadas aqui (risos). Quem ouve meu disco solo, que
você está falando aí, o nome dele é ''O Samba é Bom'', ouve algumas jóias
que eu tenho, cantadas por mim e por outros cantores como a Célia Maria, uma
grande cantora que a gente tem; a Rita Ribeiro, que vocês conhecem; o Zeca
Baleiro, que vocês também conhecem; o Sivuca, que esteve aqui acompanhando;
e a mulher de Garrincha (N.R.- Elza Soares), ela esteve aqui e cantou três
músicas minhas.
http://diariodonordeste.globo.com/2002/04/02/030006.htm
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