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Re: Re O samba é negroLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Helion Póvoa (hpovoa_at_uol.com.br)
Data: seg 01 abr 2002 - 19:00:42 EST
Não, acho que não é viagem demais. E o Donga opta pelo que era provavelmente
a única maneira que poderia viabilizar o samba como produto comercial:
registrando na Biblioteca nacional uma letra que, segundo se disse teria
tido a participação de todo o pessoal da casa de Tia Ciata, uma criação
coletiva. Ele registra e aí cria a figura do sambista profissional.
O mistério maior pra mim é que, uns dez anos depois, a elite branca do Rio
de Janeiro já estava consumindo o samba dos compositores negros de morro e
do Estácio, como Cartola, Ismael, Baiaco, Brancura... Através de intérpretes
mais "palatáveis", como Chico Alves e o grã-fino Mário Reis (reparou que o
que mais tinha era compositor negro de samba, mas intérprete que eu saiba só
o Patrício Teixeira). O fato é que o samba se impôs de verdade a essa turma,
de origem européia, que talvez tivesse mais razões para preferir apenas o
tão citado Wolfgang...
Helion
----- Original Message -----
From: "Leticia Reis" <leticiavidor@hotmail.com>
> Olha, Helion, tô aqui pensando... A mestiçagem, ou melhor, o que resulta
> da mestiçagem faz aumentar o repertório cultural e enriquece as culturas
> em contato. No caso da capoeira Regional baiana, que é uma capoeira
> mestiça que, embora continue estruturalmente negra, incorpora movimentos
> do boxe, da savate, do jiu-jitsu, do kung-fu, aumenta o repertório dos
> movimentos corporais mas "paga um preço", ´politicamente falando, porque é
> considerada "menos pura" do que a Angola. Agora, a capoeira Angola é uma
> referência fundamental para os Regionais, inclusive para que não descambem
> para o esporte puramente competitivo que prescinda da brincadeira, da
> vadiação, da malícia, elementos básicos da capoeira e que a fazem "negra",
> isto é, tributária da memória negra da escravidão.
> Em relação ao samba, você tocou num ponto super importante: Donga
> assumir a autoria do samba Pelo Telefone foi digamos, um ato político,
> positivo, porque naquele momento histórico isso era possível (ao menos no
> Rio de Janeiro; já em relação ao samba de São Paulo daquele momento tenho
> minhas dúvidas porque, como li num depoimento de Geraldo Filme, a
> perseguição ao samba era muitíssimo dura: Sonoridades paulistanas: final
> do século XIX ao início do século XX, Funarte/Bienal, 1995, José Geraldo
> Vinci - grande livro!). Donga foi o grande artífice da legitimação do
> samba, não só porque soube fazer seu marketing, como você disse, mas
> também porque, e aí transcrevo um trecho que é uma grande sacada do Carlos
> Sandroni (Feitiço Decente, Jorge Zahar Editor/UFRJ, 2001): "A conseqüência
> de toda essa atividade de Donga foi transformar algo que até então se
> restringia a uma pequena comunidade em um gênero de canção popular no
> sentido moderno, com autor, gravação, acesso à imprensa, suceso no
> conjunto da sociedade" (p.120). Quer dizer, com todas as controvérsias
> sobre a autoria do Pelo Telefone, o fato é que Donga, astutamente, abre
> caminho para o samba numa sociedade preconceituosa e que ainda relutava em
> aceitar os 8 Batutas tocando no elegante cine Palais...É muita viagem
> minha?
> Abraços, Letícia
>
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