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Contribuição Africana - ainda não acabouLista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Helion Póvoa (hpovoa_at_uol.com.br)
Data: seg 01 abr 2002 - 17:53:26 EST
Carlos Mauro escreveu:
O problema de se comparar Noel com Netinho, ROmulo, é diferente daquele
sobre o qual conversávamos... antes, estávamos falando de dois universos
culturais diferentes, cheguei até a comparar a distinção entre duas
tradições culturais com a diferença entre duas línguas...
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Cesar escreveu:
Você disse em uma mensagem anterior "discordo de você pretender que o seu
gosto se pauta por um critério indiscutível de superioridade." , pois bem,
lhe digo que a Cultura é fruto de experimentos, escolhas, erros e acertos.
A civilização que se dedicou mais a determinada área da cultura é superior
àquela que conhece a coisa apenas rudimentarmente ou parte dela. Por isto
boa filosofia é a grega, por exemplo. O povo da África não trabalhou na
pesquisa musical principalmente porque têm outras preocupações como
sobreviver, como muito adequadamente alguém já disse aqui. Em face disto,
não há nada demais no fato dos africanos não se ter produzido nada
interessante em termos de arte, o que é a arte, afinal? Comer é mais
importante mesmo (sem ironia). A Europa (aqui representada por Mozart) é
superior à África musicalmente e daí? who cares? O critério que me pauto é
este, quem mais se debruçou sobre o assunto, quem errou mais, sabe mais. É
simples assim.
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Eu, Helion:
Taí uma questão interessante, e vou aproveitar fazendo um contraponto entre
as mensagens do Carlos Mauro e do Cesar. O meu problema com comparar (no
caso, Mozart e a arte africana) é de duas ordens: primeira, se é possível ou
não comparar; segunda, qual a implicação política da comparação.
Quanto à primeira delas, o Carlos Mauro diz melhor algo que eu já devo ter
afirmado nesse debate: não é possível comparar duas ordens de grandeza tão
diferentes: um compositor austríaco do século XVIII, ou seja, um autor
localizado no tempo e no espaço, por um lado, e toda a arte de um continente
diversificado, e em mutação ao longo da história, por outro. Não tem como
comparar mesmo.
Schumann e Mozart, Louis Armstrong e Miles Davis, Nelson Cavaquinho e
Cartola, Chico Buarque e Caetano, Noel e Netinho... são pares de indivíduos
que compartilham minimamente alguns terrenos da cultura, da arte. No caso de
Noel e Netinho, até é mais fácil comparar em termos de qualidade ambos,
porque estão os dois no terreno do samba, e dá pra tentar perceber o que um
faz em termos de criar, de reiterar, de diluir.... Agora, um compositor e um
continente, assim no geral, é impossível. Tenho certeza disso.
Segundo problema em comparar: esse é o que está mais em discussão, me
parece. É que, sendo praticamente impossível - como penso - comparar
universos tão diferentes como a "África inteira" com o Wolfgang Amadeus, a
comparação terá de ser necessariamente subjetiva, muito mais que as citadas
acima. Então, eu vou tender a apreciar nessa comparação não um parâmetro de
qualidade musical determinado, mas sim todo um conjunto de valores que para
mim (e para boa parte de nós) representam Mozart e a África. Alguém tem
dúvida de que é impossível ter um mínimo de objetividade nessa comparação?
Se entre Noel e Netinho a comparação já é difícil, entre Mozart e a África
entrarão em cena apenas os nossos velhos preconceitos. A referência feita aí
a "pigmeus" mostra bem o tipo de visão que aflora nessas ocasiões.
Qual o problema disso? Eu não posso ter uma formação cultural européia,
ocidental, cristã, adorar clarinetes e ter repulsa a batucadas? Posso sim,
embora isso me empobreça. Posso gostar do que quiser, preferir, adorar etc.
Agora, quando eu "resolvo a questão" com meia dúzia de palavras, tipo
"Mozart é superior a toda a arte africana" eu não estou simplesmente
defendendo o meu legítimo gosto musical: estou pretendendo que eu tenho um
parâmetro de avaliação superior ao dos outros, porque só isso poderia
explicar julgamento tão incisivo e fulminante. E aí, eu não culpo quem diz
que isso é racismo. Pode ser apenas pose, gênero, pode ser a simples
expressão de um gosto musical e "danem-se os que pensam diferente". Mas dá
direito às pessoas que discordam se perguntarem: Pô, cuméquiesse cara chega
a essa conclusão assim? E tem mais: é agressivo com quem pensa diferente.
Pra terminar, falaram, aqui em determinados artistas africanos. Vamos dizer
que eu pegasse um deles, só um, e afirmasse terminantemente que esse um é
"superior a toda a arte austríaca, ao longo dos séculos". E se eu dissesse
que é superior à arte européia em geral, música, arquitetura, literatura...
Parece absurdo? Pois é o que foi afirmado quanto à arte africana aqui.
Aí vão dizer: pô, você está comparando esse artista africano com Mozart!
Estou sim, não no sentido de dizer que ele é igual, melhor ou pior que
Mozart, mas no sentido de dizer que é IMPOSSÍVEL tal comparação!
Ufa!
Helion
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