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Re: Re O samba é negro

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Leticia Reis (leticiavidor_at_hotmail.com)
Data: seg 01 abr 2002 - 03:08:45 EST

Helion escreveu:
 Desconfio, Letícia, de toda alegação quanto à suposta "pureza" de
umamanifestação cultural, bem como quanto à pretensa superioridade de uma
sobreoutra. Eu estou mais interessado em buscar as conexões, os
cruzamentos deinfluências. É o que mais me interessa, esteticamente
falando, e tambémpoliticamente é o que considero mais relevante. Não que
deixe de defender asmanifestações ditas "de raiz", acho que nelas estão as
sementes darenovação, do diálogo intercultural, daí ser importante
reforçá-las epreservá-las. Elas têm de existir, como "redutos" que
continuarãoalimentando os diálogos.Letícia:
  Olha, Helion, tô aqui pensando... A mestiçagem, ou melhor, o que resulta
da mestiçagem faz aumentar o repertório cultural e enriquece as culturas
em contato. No caso da capoeira Regional baiana, que é uma capoeira
mestiça que, embora continue estruturalmente negra, incorpora movimentos
do boxe, da savate, do jiu-jitsu, do kung-fu, aumenta o repertório dos
movimentos corporais mas "paga um preço", ´politicamente falando, porque é
considerada "menos pura" do que a Angola. Agora, a capoeira Angola é uma
referência fundamental para os Regionais, inclusive para que não descambem
para o esporte puramente competitivo que prescinda da brincadeira, da
vadiação, da malícia, elementos básicos da capoeira e que a fazem "negra",
isto é, tributária da memória negra da escravidão.
    Em relação ao samba, você tocou num ponto super importante: Donga
assumir a autoria do samba Pelo Telefone foi digamos, um ato político,
positivo, porque naquele momento histórico isso era possível (ao menos no
Rio de Janeiro; já em relação ao samba de São Paulo daquele momento tenho
minhas dúvidas porque, como li num depoimento de Geraldo Filme, a
perseguição ao samba era muitíssimo dura: Sonoridades paulistanas: final
do século XIX ao início do século XX, Funarte/Bienal, 1995, José Geraldo
Vinci  - grande livro!). Donga foi o grande artífice da legitimação do
samba, não só porque soube fazer seu marketing, como você disse, mas
também porque, e aí transcrevo um trecho que é uma grande sacada do Carlos
Sandroni (Feitiço Decente, Jorge Zahar Editor/UFRJ, 2001): "A conseqüência
de toda essa atividade de Donga foi transformar algo que até então se
restringia a uma pequena comunidade em um gênero de canção popular no
sentido moderno, com autor, gravação, acesso à imprensa, suceso no
conjunto da sociedade" (p.120). Quer dizer, com todas as controvérsias
sobre a autoria do Pelo Telefone, o fato é que Donga, astutamente, abre
caminho para o samba numa sociedade preconceituosa e que ainda relutava em
aceitar os 8 Batutas tocando no elegante cine Palais...É muita viagem
minha?
  Abraços, Letícia
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