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Acari RecordsEsta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: qua 20 mar 2002 - 12:37:20 EST
Matéria do sítio no.com.br de 19.03.2002.
"Da casa dos Carrilho
[20.Mar.2002 ]
Helena Aragão <helena@no.com.br>
Henrique Sodré
Essa história começa num quintal, à sombra de uma caramboleira. Como em
muitos lugares do subúrbio, as rodas de choro da família Carrilho na casa da
Penha eram corriqueiras. Os anfitriões seu Álvaro (com a flauta na foto ao
lado, numa roda em 1977) e “tia Zélia” recebiam desconhecidos e famosos para
compartilhar aquela música instrumental que hipnotiza a tantos. Pipocavam
cantoras, como Nara Leão e Elizeth Cardoso, mas ali as divas só entravam
para ouvir. Afinal, na casa dos Carrilho solos, agudos e efeitos só podiam
partir de flautas e clarinetes. Se o espaço e o som eram divididos
amigavelmente por poucos profissionais e ótimos amadores, hoje, décadas
depois, também é a casa de seu Álvaro (agora em outro endereço, no bairro de
Acari), que abriga o maior passo dado para que o choro tenha a atenção e o
cuidado que merece. É no terraço dela que funciona o estúdio da Acari
Records, iniciativa do filho Maurício e da cavaquinista Luciana Rabello. Se
há muito tempo a história da família Carrilho se entrelaça com a História do
choro – tanto pelas rodas como pela trajetória de sucesso do flautista
Altamiro, irmão de Álvaro, e mais tarde de Maurício –, com a gravadora ela
passa a ser capítulo fundamental.
“O choro começou a freqüentar o meu quintal porque o Altamiro costumava
ensaiar com seu grupo lá”, conta seu Álvaro. “Até que um dia apareceu na
porta um vizinho nosso que era carteiro e tocava e flauta. O Altamiro o
chamou para entrar, e então a coisa foi ganhando mais essa cara de roda.”
Quando casou e se mudou para a Penha, seu Álvaro viu o hábito tomar
dimensões ainda maiores. De residência, a casa se tornou praticamente um
centro comunitário.
De um lado, o Jardim Escola Xadrezinho, comandado por dona Zélia,
alfabetizava crianças e promovia festas infantis. Do outro, as rodas que
reuniam cada vez mais gente – começavam de manhã, para as crianças, seguiam
até à noite e muitas vezes emendavam mais um dia, seguindo para outro
quintal ou para o Suvaco de Cobra, bar que também ajudou a manter a chama do
choro acesa. “O Suvaco na verdade era o ponto de encontro de um pessoal que
ia pescar nos fins de semana, não tinha essa tradição musical no começo”,
lembra Maurício. “Mas como muitos dessa turma eram músicos, começou a
aparecer um pessoal para vê-los tocar. Era uma roda sem amplificação com
quantos instrumentos fossem, tinha dia de ficarem 50 pessoas tocando ao
mesmo tempo”.
Na casa da Penha, Radamés Gnattali era um dos maiores entusiastas da farra.
“Ele achava aquilo de uma importância fundamental para a manutenção do
choro. Levava várias pessoas, como o maestro Gaia e o Chiquinho do
Acordeon”, lembra Álvaro. Ele e Zélia se divertem ao lembrar que, de tanto
sucesso, a roda em sua casa virou pauta para um programa da TVE. Para
conseguir mostrar o quintal todo, foi preciso pedir autorização para o
síndico do prédio ao lado para filmar de um de seus apartamentos mais altos.
A história ganha um tom insólito quando seu Álvaro revela que o tal síndico
era Rômulo Costa, que bem antes de se tornar rei do funk carioca era
simpatizante do som da vizinhança. “Sinto muita falta da casa da Penha, teve
de tudo lá: escola, catequese, primeira comunhão, seresteiros e chorões,
tudo misturado”, lembra dona Zélia, que saiu do bairro para um apartamento
em Olaria, não se adaptou e agora se diz contente com Acari.
Mas não foram só as crianças da Xadrezinho que se beneficiaram da trilha
sonora da casa. Rapidamente as rodas passaram a ser freqüentadas por jovens
ávidos por aprender a solar e acompanhar choro como os veteranos. “Na época
a roda de choro era o único espaço onde se exercitava essa atividade. Os
quintais foram fundamentais para a manutenção do gênero”, explica o
arquiteto Alfredo Brito, que hoje em dia é o anfitrião de uma das rodas mais
festejadas do Rio, em Santa Teresa. Para Maurício, a década de 70 viu uma
efervescência do choro parecida com a que se vê agora. “O choro estava
esquecido desde a Bossa Nova e foi retomado por aquela geração. Essas
explosões costumam acontecer mais ou menos de vinte em vinte anos e são
fundamentais para a passagem para os mais jovens”, observa ele.
Bem sabe disso a turma formada por Joel Nascimento, Pedro Amorim, Celsinho
Silva, Raphael e Luciana Rabello, que hoje se destaca por divulgar o choro e
colocá-lo talvez no seu momento mais fértil. Foi dessa geração que começaram
a pipocar os grupos dedicados ao gênero – como Os Carioquinhas, formado por
Maurício, Luciana, Raphael e Celso, e a Camerata Carioca, que teve Radamés
como mentor e era formada pelo mesmo time dos Carioquinhas, mais o
bandolinista Joel e o violonista João Pedro Borges (recentemente, o disco
"Tocar", da Camerata, foi reeditado em CD).
Hoje, boa parte deles se dedica também a passar para a garotada as
intrincadas harmonias e improvisos – sempre nas rodas, é claro, e
ultimamente também na oficina de choro dada todo sábado na Escola de Música
da UFRJ. “Dessa novíssima geração está saindo uma safra espetacular”,
garante seu Álvaro, que dá aulas de sopro na oficina. Ele tem razão. Nos
cada vez mais numerosos bares que contam com o choro na sua programação de
música ao vivo, grupos formados por músicos jovens imperam.
“A nova geração está fazendo um choro diferente, com outras influências, até
mesmo do rock. Mas se chegamos a isso foi graças à escola das rodas, onde
tocamos com os veteranos e aprendemos a estrutura tradicional”, afirma o
jovem violonista Caio Márcio, que vê em Maurício um exemplo de profissional.
“Ele acompanha os solistas de uma maneira muito marcante, tem uma ousadia
harmônica e um bom gosto difícil de se ver por aí. É choro puro com muita
sofisticação.” Como se vê, a troca de figurinhas entre as gerações é, sem
dúvida, uma das marcas registradas do choro e o que fundamenta sua
manutenção. E se antes esse contato era feito só nas rodas, hoje já encontra
espaço nas casas de show, festival e, finalmente, numa gravadora exclusiva.
Uma gravadora artesanal, no melhor dos sentidos
Com pouco mais de dois anos de vida, a Acari Records vai muito bem,
obrigado. Com nove discos, livros de partituras e muitos projetos pela
frente, já chama atenção tanto por prestigiar gente que nunca tinha tido um
trabalho solo registrado (caso de Maurício, Luciana, Pedro Amorim e o
flautista Leonardo Miranda), como para dar atenção a músicos que estavam
longe dos estúdios há tempos (como seu Álvaro e Índio do Cavaquinho). O nome
da gravadora prestigia o bairro que abriga o estúdio e tem um significado
que combina com suas intenções. Acari é nome de peixe responsável pela
limpeza dos rios e da empresa que se define como “à margem do descartável
que inunda nossa indústria cultural”.
A utilização da palavra “Records” também não é à toa. “Para um projeto como
esse, muitos poderiam esperar que se usasse o termo ‘Discos Acari’”,
acredita o admirador Alfredo Brito. “Mas ao mesmo tempo seria muito
provinciano, uma vez que a gravadora tem todo o potencial para levar o choro
para mercado exterior, como os japoneses têm feito.” Com tanto planejamento,
o nome da gravadora ganhou até slogan que capricha no trocadilho e na
provocação: “Acari, choro sem lamentação”.
E mesmo quando o trabalho ganha roupagem profissional, o lado pessoal e
familiar continua fortemente presente. O ponta-pé inicial da Acari, aliás, é
uma prova disso. Quando Maurício resolveu tomar o caminho da música,
reverteu seu primeiro cachê à compra de uma flauta “de verdade” para o pai.
Até aí, seu Álvaro tocava com um instrumento de bambu nos intervalos de seu
verdadeiro ofício – propagandista de produtos farmacêuticos. Com a
aposentadoria, veio junto a pressão de Maurício para que o pai se dedicasse
mais à música. Aceitado o desafio, ele relembrou suas composições e fez o
primeiro disco da gravadora. Recentemente, a família Rabello também lançou
um pedaço histórico de sua trajetória musical com o disco de composições de
Raphael, executadas por ele e cantadas pela irmã Amélia.
Os bons filhos das rodas de seu Álvaro à casa retornaram, misturando
passado, presente e o melhor das palavras profissional e amador – tudo no
terraço transformado em estúdio. A alternativa não poderia ser mais
coerente. A Acari Records consegue reproduzir em seus produtos todos os bons
ingredientes de uma roda de fundo de quintal. Afinal, é simples e ao mesmo
tempo elegante, é alegre e ao mesmo tempo organizada.
Lá, se faltam artefatos eletrônicos como protools e antotunes da vida (por
opção, é bom ressaltar), sobra estímulo e esmero – principalmente de dona
Zélia, que todo dia prepara um almoço daqueles para uma trupe de qualquer
tamanho. O isolamento acústico pode não ser perfeito – muitas vezes a
execução sai correta, mas tem que ser repetida por culpa de um motor de
avião ou caminhão na rua fora de hora – mas a experiência de um staff de
músicos de primeira, que se entendem com o olhar, compensa essas repetições.
Resultado: “Tem gente no Japão querendo saber onde foram gravados os discos
da Acari, ficam impressionados com a qualidade do som”, diverte-se Luciana.
“Quando o material humano é bom, não tem como a qualidade ficar
comprometida. Nossos músicos e técnicos superam qualquer problema.”
Maurício e Luciana não vivem da gravadora mas investem no projeto com
disposição de empresários. No momento, suam a camisa para lançar álbuns de
dois veteranos: do sanfoneiro Zé de Elias, de 84 anos, e do bandolinista
Tico-Tico, que infelizmente faleceu este mês, faltando pouco para terminar a
gravação. Além disso, finalizam um pacote de 15 discos – com gravações de
partituras antigas pesquisadas por Maurício e sua mulher, Anna Paes, em
bibliotecas e arquivos particulares. Como se vê, a história que começou num
quintal segue assim, com a mesma trilha sonora elegante e ares de final
feliz."
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