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Lenine diz que intuição orienta a sua música

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Antônio Augusto (bocaiuva_at_bocaiuva.com.br)
Data: sáb 16 mar 2002 - 13:25:22 EST

Belo Horizonte, Sábado 16/03
Lenine diz que intuição orienta a sua música

Patrícia Cassese
Repórter

Nasceu, mais uma vez, de parto normal. 'Não foi cesárea, como os
anteriores. Acho que já estou com a bacia lubrificada. E me diverti
como sempre', diz o compositor e 'eventualmente cantor' Lenine. O
rebento chegou na última quinta-feira às lojas de discos, com o título
'Falange Canibal' e a chancela da gravadora BMG. Como tem acontecido
na carreira do pernambucano, 'Falange' já vem recebendo estrelas em
profusão da crítica. 'Geralmente recebem meus trabalhos com
generosidade', diz ele, todo modesto.
Mais importante, é que o trabalho é mais uma vez fruto da intuição de
Lenine. 'Sou pilotado por ela'. A fidelidade ao que acredita é tanta
que ele se reconhece até intransigente. 'Sou cabeça dura, não me
distancio um milímetro das minhas escolhas'. Por sorte, Lenine conta
com a sorte de ter apoio irrestrito da gravadora, ainda que tenha
consciência de ser uma exceção no mercado. 'Na verdade, acho que sou
quase um anacronismo. Trabalho como artesão numa multinacional, dando
um prazo de três anos de um trabalho ao outro. Minha trajetória sempre
foi pilotada por mim'.
Em relação aos dois primeiros discos de sua carreira solo ('O Dia em
que Faremos Contato' e 'Na Pressão'), 'Falange Canibal' representa,
portanto, uma continuidade. Pelo menos, é o que ele acredita. 'Mas
veja bem, sou míope, não dá para confiar (risos). Mas acredito que não
me distanciei muita da minha proposta inicial, a que norteou os discos
anteriores'. E que seria, em suas próprias palavras, a de 'procurar
beleza'. O que, frisa ele, nada tem a ver com estilo.
Agora, que ninguém espere encontrar nas letras, nas melodias ou mesmo
na proposta que norteia o álbum algo mastigadinho, pronto para ser
digerido. 'Meus trabalhos sempre têm um norte, no ponto & vírgula, no
ponto de exclamação, no de interrogação... Mas só forneço algumas
pistas - às vezes, até falsas. Na verdade, conto com a inteligência de
quem me escuta, com a capacidade do público que tenho de decifrar os
símbolos, os signos. Se isto tem acontecido? Se não decifrarem,
devoro', brinca o moço, que consegue enxergar, no público que o
acompanha, um perfil. 'Basicamente é um público inquieto. Nervoso. O
que independe da idade. Logicamente, pode-se associar essas
características com o público universitário. Mas não é regra'.
Daqui a alguns meses, Lenine inicia turnê nacional pelo eixo
Rio_SP-Recife. 'Ainda é prema turo assegurar, mas em BH devo ir daqui
a dois meses', adianta.

Parcerias surgem como “eco da criação socialista"

O nome 'Falange Canibal' vem de um palco aberto, uma 'zona franca da
arte', que 'funcionava' nos Arcos da Lapa, nos anos 80, e que reunia
Mu Chebabi e Dudu Falcão, entre outros. Curiosamente, a faixa de
trabalho é a única que leva apenas a sua assinatura: 'O Homem dos
Olhos de Raio X'. Mas a escolha, ele delegou à gravadora. 'Não tenho
competência para isso. Sei fazer o produto, e não vender o produto.
Além disso, seria difícil escolher um entre os filhos'. O fato de
preferir trabalhar com parceiros, ele aventa, surge como 'eco da
criação socialista'. 'Naturalmente que é enriquecedor, é mais de uma
cabeça'.
Em 'Falange', são cabeças como as de Carlos Rennó ('Ecos do ão',
'Quadro Negro'), Bráulio Tavares ('Umbigo', 'Lavadeira do Rio' e
'Sonhei', esta também com Ivan Santos), Dudu Falcão ('Nem o Sol, Nem a
Lua, Nem Eu', 'O Silêncio das Estrelas'), Sérgio Natureza
('Encantamento' e 'Caribantu'), Paulo César Pinheiro ('No Pano da
Jangada') e Lula Queiroga ('Rosebud - O Verbo e a Verba'). Na faixa
'Lavadeira do Rio', o ouvinte se depara com a bateria de Haroldo
Ferretti e o baixo de Lelo Zaneti, do Skank. Os dois também assinam a
produção da faixa, ao lado de Tom Capone, Mauro Manzoli e do próprio
Lenine.
O encontro, diz Lenine, é fruto da admiração que nutre pelo grupo
Skank. 'E também aconteceu em função da minha aproximação com o Tom
(Capone). Ou seja, juntou a fome com a vontade de comer'.
Mas a música que mais suscita curiosidade é 'Umbigo', que ela chama de
'autobiográfica e de auto-exorcismo'. 'Sou o dono do mundo e o rei da
cidade/umbigo meu nome é umbigo.../eu sou mais eu! dê cá um close no
narciso'. Ele jura que a letra se destina a ele mesmo. Mas se pode ser
aplicada a outros colegas... 'Olha, isso é você que está dizendo (ri).
Acho que existem duas tendências hoje entre os artistas. Os que buscam
a superexposição, que transformam sua vida em um palco, e os que têm a
obra como foco, entram quase que num processo de exclusão do ser
humano. Faço parte deste segundo grupo'.
Reconhecendo ver em cada canção pequenos roteiros, Lenine destaca as
músicas 'Encantamento' e 'Nem o Sol, Nem a Lua, Nem Eu'. A primeira,
feita a partir de montagens, 'em homenagem à União Soviética, que nem
existe mais, por influência da banda russa Farlanders'. O som é feito
a partir de picotes, cortes e colagens de fonogramas já existentes.
Outra inspiração, adiciona ele, veio de Einsestein. 'Nem o Sol...' foi
gravada primeiramente por Maria Bethânia em 'Maricotinha'. Nela,
Lenine destaca a participação de Steve Turre. 'Foi muito engraçado, e
inusitado, ele em frente a uma mesa, cheia de conchas, algumas
quebradas, procurando a que mais se adaptava à tonalidade que queria'.
Agradecendo aos deuses 'por sobreviver fazendo o que gosta, sendo
honesto com seu olhar trabalhando com prazer e, ainda mais, podendo
pulverizar isso', Lenine diz que de tempos em tempos precisa se
desligar de seu umbigo se enfronhando em outros universos. Seja
compondo (para Bethânia, Frejat, Fernanda Abreu ou Gabriel, o
Pensador), seja trabalhando no musical 'Cambaio' ('foi prazerosíssimo
trabalhar com músicas de Edu Lobo e Chico Buarque e com Adriana e João
Falcão'), seja em 'A Invenção do Brasil'. 'Isso me enriquece em
demasia, a ponto de ajudar no meu trabalho'.
Trabalho que é cada vez mais abalizado internacionalmente - na
quinta-feira, ele se dedicou à 'ala estrangeira', recebendo
jornalistas da França vindos ao Brasil a convite da BMG França. Hoje,
a música de Lenine tem ampla penetração na França, Japão, Canadá e
Inglaterra. Os discos são simultaneamente lançados aqui e lá. E se
2002 ele vai dedicar ao Brasil, o ano que vem será completamente
direcionado à sua carreira internacional. (P.C.)

E-Mail: cultura@hojeemdia.com.br

O tempo é o senhor da verdade e da razão...

"Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
se não houver folhas, valeu a intenção da semente."
Geir Campos citado por Henfil no poema O Rio

Antônio Augusto dos Santos
Divinópolis- Minas Gerais
0 xx 37 3212 1543
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