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Noite Ilustrada desmascara AdoniranEsta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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pl_PL: Bruno Ribeiro (bruno_at_cpopular.com.br)
Data: sex 15 mar 2002 - 09:08:42 EST
Pessoal,
estou destacando um trecho da entrevista com o Noite Ilustrada no site Gafieiras. Vale a pena ler, pois o cantor faz uma revelação surpreendente: a melodia de 'Bom Dia Tristeza' seria dele e não de Adoniran Barbosa. Segundo Noite, o compositor teria se apropriado dela e vendido ao Vinícius como sendo dele. Acho que vai gerar uma discussão boa. Abs!
Entrevista
Gafieiras - Você chegou a ter contato com o Vinicius?
Noite - Somente por telefone, porque houve um problema muito sério em termos de música, não gosto muito de entrar em detalhes, mas já que estamos conversando à respeito é bom para deixar registrado. Vou entrar no mérito da questão, mas não dou continuidade porque a pessoa não está aqui para dizer o sim ou o não, para discutir o problema. Vou ficar falando sozinho e a palavra vai pro ar. O Vinicius quando estava em Paris mandou a letra de uma música para o Adoniran Barbosa. Quando ele viu a letra achou que não tinha condição de botar melodia. Eu estava junto com ele quando recebeu essa letra. Eu estava inclusive na barbearia do Baiano na rádio Record, na Quintino Bocaiúva, onde hoje é Irmãos Vitale. A gente sempre estava lá porque no salão do barbeiro sempre rola uma piada. O Adoniran falou. "Não vou conseguir botar melodia nisso aí não. Leva e vê o que você faz!" Naquele tempo eu morava na General Osório quase esquina com a Barão de Limeira. Morava numa casa, numa boca de lobo, lá nos fundos.
Moravam muitos colegas que trabalhavam em boates, como a Eli Correa que era cantora, o Jacob que tocava violão, o compositor Floriano Matos. Eu tinha um gravador, aquele gravador geloso, tiquitiquitiquitiquitiqui, barulhento. Fiz a melodia dentro da letra. O pessoal estava me ouvindo quando fiz a música. Mostrei quando terminei. No outro dia entreguei ao Adoniran Barbosa, "veja se você gosta disso aí? Foi o que deu para fazer." Passaram-se uns três meses, mais ou menos, quando eu deitado, bateram na porta do barraco. "Noite, ô Noite! Sua música está tocando no rádio!" Fui lá ouvir. Quando o cantor acabou de cantar, o locutor falou "acabamos de ouvir, com Aracy de Almeida, 'Bom dia, tristeza', de Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes". Todos ficaram me olhando esperando falar o meu nome. Ninguém falou o meu nome. Aí me deu uma tristeza muito grande. Fui até o Adoniran e falei com ele. [imitando a voz do autor de "Trem das onze"] "O Vinicius falou que só queria dois!".
"Então, se eram dois, não era você que tinha que estar!" "Não, ele queria que eu participasse, porque tinha mandado a letra para mim." "Ah! Tá certo! Quer dizer que eu não..." "Não, nós vamos fazer outra música, a gente combina." Como de fato ele fez uma letra e mandou para mim, que é o "Rolinho de pastel", e quem gravou foi a Carmen Silva. E quando fui ouvir... "Acabamos de ouvir, com Carmen Silva, de Marques Filho e Peteleco, 'Rolinho de pastel'". Sabe quem é esse Peteleco?
Gafieiras - O cachorro do Adoniran.
Noite - Fiquei tão chateado com o Adoniran Barbosa. Vou brigar com ele? Não tenho condição de brigar com ele, chamá-lo para uma polêmica. Sei que ele foi um homem com uma bagagem muito grande, e nesta bagagem tinha Marcos César e uma porção de gente que deu esse apoio para ele, afinal esse repertório que ele fez foi tirado de um script do Marco César, do tempo que fazia o Charutinho na Record. Ele tirou dali e desenvolveu como música, mas tudo bem, não estou tirando o mérito dele, apenas estou dizendo que ia ser uma polêmica muito dicífil. Eu estava praticamente chegando, e ele já era um compositor, ator, humorista. Ele estava com tudo na frente. Então, qualquer coisa que eu dissesse "tá querendo pegar escada?", poderiam pensar, coisa que nunca fiz na minha vida, subir nas costas de ninguém. Só fiz o que Deus me deu.
Gafieiras - E depois disso como é que se desenvolveu seu relacionamento com Adoniran? Você falava com ele?
Noite - Não, pelo contrário, toda vez que ele me via, mudava de calçada, ia para outro lado, saia para outra rua. Ele não me encarava mais de frente. Quando fui fazer um Ensaio para o Fernando Faro, contei essa história, e ele convidou o Adoniran para participar comigo de um debate. Ele falou [imitando Adoniran]: "Ele tá louco, ele tá louco! Não vô não!" E não quis ir, não quis fazer um debate frente a frente. O que eu pude fazer? Ele não quis ir e eu perdi uma oportunidade.
Gafieiras - Mesmo assim, você consegue visualizar qual a melhor contribuição de Adoniran Barbosa para a música de São Paulo? Você acha que os créditos que dão à música paulista estão muito concentrados em Adoniran?
Noite - Infelizmente, apesar que temos compositores como o [Eduardo] Gudin, gente que sabe fazer música. Já tivemos o Jorge Costa, o Denis Brean [n.e. Augusto Duarte Ribeiro, 1917-1969, autor de "Boogie-woogie na favela" e "Bahia com h") [canta] "Chegou o samba minha gente minha gente cheio de novidade", quer dizer, músicas que tocam até hoje. O Roberto Roy, o Sereno (n. e. 1909-1978, cantor, compositor e multiinstrumentista paulista), tanta gente boa, mas as pessoas identificam um e por um trabalho só, "Trem das onze", que foi uma música que pegou nacionalmente. As outras foram boas, mas não foram um "Trem das onze". Como ele tinha mais espaço na mídia, além de trabalhar dentro dela, ele ficou como um representante de compositor paulista.
Gafieiras - Você chegou a cantar músicas dele em seus shows?
Noite - Canto.
Gafieiras - A história de "Bom dia, tristeza" não interfere?
Noite - Não, acho que a música não é culpada por ter nascido em berço errado [risos]. O povo pede e quando o povo pede, você tem que cantar, tem que valorizar.
Gafieiras - "Bom dia, tristeza" já esteve em seu repertório?
Noite - Para ser franco com você, a única música que não gosto de cantar é "Bom dia, tristeza". Mas eu canto "Trem das onze", "Samba do Ernesto", esses babados todo. Não gosto de cantar "Bom dia, tristeza" porque a fita começa a voltar.
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