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Re: Elifas Andreato

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Bruno Ribeiro (bruno_at_cpopular.com.br)
Data: qui 14 mar 2002 - 17:33:04 EST

RÔmulo
>Tá certo que ele tem algumas capas escrotas, essa do Paulinho eu acho horrível também, a do Agua da Minha Sede, para pegar um cd mais recente também é
muito ruim...

Num chora não, RÔmulo, vou responder o teu e-mail deixando a explicação do próprio Elifas sobre a capa do 'Água da Minha Sede'. Este é o último trecho que eu vou publicar aqui, senão não tem graça ler na íntegra depois:

Elifas

>O Paulinho da Viola sempre me procura; o último Prêmio Sharp que eu ganhei foi com o "Bebadosamba", já em CD. Mas recentemente eu saí muito frustrado de um trabalho que fiz para o Zeca Pagodinho. Não com ele, mas com o pessoal do marketing. A estória foi a seguinte: o Zeca me procurou querendo que eu fizesse uma capa legal para ele, em cima do tema do disco, "Água da Minha Sede". Depois o pessoal do marketing dele me chamou; eu chego na gravadora e tem umas doze pessoas dizendo que aquela vinheta que eu fiz para ir dentro do folheto tinha de sair na capa. Era o único Zeca Pagodinho que eu tinha desenhado, mas para a parte interna do folheto. Para a capa eu havia preparado umas alegorias, coisas mais bonitas do ponto de vista artístico. Mas o marketing diz: "Assim não pode, tem que ter o cara na capa senão o disco não vende", ou "Não pode ser as mãos, não pode ser essa mulher objeto de desejo que você desenhou, tem que ser a cara dele". Então eu perdi de doze a zero. E aí o que aconteceu?
Não tinha mais tempo de fazer outra capa, eu tive que admitir o uso daquele desenho que eu não gostaria que fosse a capa e isso foi uma decisão deles, você não tem como lutar. A questão do marketing que as gravadoras impõe é arrogante, os marqueteiros acham que sabem tudo. Então eles te tiram a liberdade de passar uma semana com o João Bosco, bebendo, jogando sinuca e falando da vida para fazer uma capa bonita. Hoje o marketing fala que tem que ser uma foto do cara na capa, de preferência produzida em estúdio. Essa limitação me enche o saco. Hoje tem muito jovem que nunca ouviu um samba do Cartola e está no comando das gravadoras, do marketing. Eles acreditam demais nessa besteira de que uma idéia não vende, de que só a imagem é importante, que tem que ter o rosto do cara na capa. Nem do ponto de vista financeiro compensa pra gente porque os caras pagam mal pra burro. Eles enchem o saco, não tem cultura geral, não reconhecem o teu trabalho.
Você dedica noites de sono para fazer um trabalho honesto e tem que engolir esse tipo de frustração. Por que será que eu ganhei o Prêmio Sharp com o CD do Paulinho? Porque o cara chega pra mim e diz: "Tudo bem, Elifas, se não vender, foda-se; mas a capa do disco é a que você quiser". Mas a maioria não faz isso, o artista prefere seguir o esquema do marketing para não levar a culpa de um possível insucesso.

Abs!
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