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Re: Arte engajada

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Helion Póvoa (hpovoa_at_uol.com.br)
Data: Tue 26 Feb 2002 - 10:29:01 EST

Acho a contraposição que se está fazendo entre arte engajada e arte alienada
artificial pra caramba. Para ficar só no campo da música, opor Paulinho da
Viola e Candeia, Cartola e Zé Keti, como se eles representassem os dois
"pólos", não se sustenta de jeito nenhum. Quede o Zé Keti politizado, para
além de "Opinião" e talvez uma ou outra mais? O Candeia politizado - em
termos da afirmação da cultura negra, não tinha nada de partidário - também
não aparece de forma esquemática em sua obra.

Mesmo o Chico, nos setenta, não era um compositor claramente "engajado". Ele
representava um protesto contra a censura, a alienação, mas isso não era o
predominante, mesmo se acrescentarmos as canções censuradas. Pra mim,
"música engajada" no sentido em que se está falando aqui talvez seja Victor
Jara, Violeta Parra, em certas épocas. Mesmo os cubanos, Silvio e Pablo,
escreveram muito mais sobre o amor que sobre a Revolução, que era realmente
um tema forte para eles. No Brasil, quem se enquadrava nisso? Geraldo Vandré
foi meio que empurrado para isso, mas não é o que predomina no seu trabalho,
de jeito nenhum. Sergio Ricardo, um pouco...

E expoentes de "música alienada"? Don e Ravel, só consigo lembrar deles
agora. Sinto, mas com todo o estímulo do governo militar, não se produziu
nadica que prestasse nesse terreno. Chamar Cartola e Paulinho de
compositores de música alienada é muito...

Agora, Cesar, artista "realmente livre" não existe, porque para isso ele
teria de morar em torre de cristal, abanado por eunucos e mucamas, sendo
alimentado na boca, e não se incomodando nem um pouquinho com isso, lógico.
Sem pressões de mercado, de gravadoras, sem se informar sobre o que acontece
no mundo. "Sem descer sua arte ao nível rasteiro dos probleminhas humanos",
como você diz. A sua recomendação, tomada ao pé da letra, essa sim
traduziria para mim a música realmente alienada. Porque os "probleminhas
humanos" dizem respeito ao salário que não dá no fim do mês, ao crime, à dor
de corno, à frustração existencial... Sem esses temas, o que restaria da
música popular letrada?

Helion

----- Original Message -----
From: "Cesar Miranda" <cesarmiranda_br@yahoo.com.br>

> Ih Daniel,
>
> Não foi ato falho não e continuo achando arte engajada uma merda porque é
> reducionista, parcial e datada, um artista que situa sua arte em torno de
> seu estômago e de seu ódio político não merece o nome de artista.
>
> Se você quiser, lhe ajudo em sua argumentação, você esqueceu da Terceira
> Sinfonia que Beethoven fez pra Napoleão. Certamente existem outros
> exemplos mas não consigo lembrar de muitos artistas que se curvaram às
> ideologias antes deste século, tirando Goya, que era reconhecidamente
> maluco, todos os que você citou são do século XX. Toda a obra de Picasso
> sobrevive muito bem sem Guernica, já sem Les Demoiselles d'Avignon,
>
> não vive nem toda a arte moderna.
>
> Prefiro o Chico Buarque de hoje, é nítido sua superioridade hoje como
> compositor com o Chico dos anos 70.
>
> Prefiro Paulinho da Viola à Candeia, Cartola à Zé Keti. Bach e Mozart à
> Beethoven, Elomar à todo mundo, Lieibniz à Voltaire (Voltaire nem chegava
> a ser um filósofo, era mais um cronista, filho estilístico de Montaigne, o
> maior cronista de todos os tempos e nada engajado).
>
> As ideologias são o túmulo da arte. É tão óbvio, se o artista é realmente
> livre será muito mais artista. O artista só deve ter uma ideologia: o
> compromisso com sua arte e jamais descer sua arte ao nível rasteiro dos
> probleminhas humanos...
>
> Tem outro aspecto da coisa, o consumidor da arte (ouvinte, espectador,
> leitor, etc) doente de alguma ideologia certamente verá coisas onde nada
> existe, um exemplo, muita gente ainda crê que a frase "de muito gorda a
> porca já não anda" era uma referência ao Delfim Neto, o pobre do Chico não
> podia dar um espirro que achavam que era uma crítica à ditadura... Li uma
> entrevista de Elomar descendo o pau em (justamente) Brecht e Maiakovski
> por sua arte engajada, porém a os "cumpanheiro do ParTido" juram que a
> música de Elomar é engajada.
>
> Dá pra fazer uma lista enorme de arte que você chamaria alienada que é de
> mais qualidade e mais importância do que a sua arte engajada.
>
> Mas o ponto é a afirmação de que é possível um mundo fraterno com
> excelente arte, você discorda?
>
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