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Re: Pra que serve governo?

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: wpavan (wpavan_at_uol.com.br)
Data: Sat 23 Feb 2002 - 01:02:22 EST

HP: Você diz que a iniciativa privada só não cuida de índio, de escola, de
penitenciária, porque o governo não libera a franga. Imagine no dia em que
liberar, não imagino como é que as forças livres do mercado cuidariam dos
índios. Vendendo apito pra eles?

- A iniciativa privada não sabe mesmo cuidar de indio nem de tartaruga.
Acontece que parte do imposto a ser recolhido pela iniciativa privada em
prol da cultura deveria ser destinado à disseminação e implantação de
projetos pilotos como, por exemplo, este que está acontecendo sob os
auspicios da ONG Viva Rio, responsável pelo projeto Villa Lobinhos, que para
além de ser um projeto cultural agrega também aspectos importantissimos como
a integração da criança ao meio ambiente, trecho recortado: "O resultado é
impressionante. Podemos dizer isso de cadeira, por que já vimos, e já
ouvimos. Essas crianças estão tocando melhor do que muita gente grande, e o
fazem com uma alegria e um amor que têm servido de exemplo para todos nós
que tivemos contato com eles". Taí o que eu penso ser a solução, Agapê,
amplificação das experiências adquiridas pelas Organizações Não
Governamentais, onde a iniciativa privada não puder atuar ela deve
patrocinar não gastando nada além do recurso que cabe como desconto do IR ,
recurso que hoje é usado em grande parte para financiar cineminha carim e
chinfrim.

HP: E das penitenciárias? Explorando trabalho escravo? Já sei, existe
penitenciária privatizada nos EUA, a sociedade
modelo para tudo quanto é de bom que existe nessa vida, mas esse sistema tem
sido bastante criticado.

-Temos prisão modelo no Brasil, não precisamos ir tão longe, mas também
penso que existe ONG's que já tratam desta questão, basta somente o governo
ouvir as boas experiências neste sentido, ter a humildade em aprender com
quem já faz certo.

HP: E a música? Acho que para ela se aplica um pouco de cada um dos exemplos
mencionados acima. O disco, como suporte da música, nasceu já na forma de
mercadoria. E isso desde o início, ao contrário do ensino, do sistema
penitenciário, do cuidado (?) com os índios. Então, é mais fácil entender
que se mantém uma indústria cultural forte em cima desse negócio. Não se
está propondo que o Estado tome conta de tudo, já que vender mercadoria,
lançar artistas e lucrar com isso a iniciativa privada já faz com
competência, mesmo que discordemos da qualidade.

-Ok, música é arte enquanto não gravada por que quando o sujeito vai lá e
quer gravar não é mais arte, o gajo quer mesmo é vender cd e para vender cd
ele não pode pedir que a verba publica da cultura financie sua empreitada,
vai ter que entrar no mercado como qualquer um por que o negócio dele agora
vai ser comercial, fulanim quer vender cd.

HP: Não se está propondo que o Estado tome conta de tudo, já que vender
mercadoria, lançar artistas e lucrar com isso a iniciativa privada já faz
com competência, mesmo que discordemos da qualidade. Acontece que, se a
gente acredita que cultura é algo mais além de mercadoria, temos de defender
outras formas, não mercantis, de produzi-la.

-A única cultura não formatada é a que está armazenada em sua cabeça. Se
voce vai adquirir cultura através da pintura ela tá personificada como
mercadoria no quadro, se voce vai adquirir erudição tem quer ir buscar nos
livros, se voce vai adquirir cultura musical ela está gravada nos discos, se
voce assistir ao carnaval no RJ ele rola no formato Sambódromo....para o
cidadão comum é isso ai, como é que um maranhense vai adquirir a cultura do
Samba carioca? ou ele vai para o Rio de Janeiro e a encontra no formato
bares e quadras de escola ou ele compra discos. Não tem escapatória, a
cultura é um negócio pra lá de mercantilizado que gera muita receita
financeira no mundo todo. E ótimo que seja assim, o que não dá é para a
gente ficar pagando, pagando, pagando....péra ai, esse é um negócio mais que
sustentável. Depois tem o paradoxo que é vergonhoso, enquanto um único
cineasta capta dois ponto dois milhões de reais para realizar seu projeto
comercial a Viva Rio comparece pedindo cornetinha plástica ( pode ser até em
mau estado ) para educar musicalmente uma criança, o que é cultura não
formatada, filme cabeça ou formação e especialização de jovens e adultos?.

HP: Na música, no cinema, no teatro, nos museus. Acho que dá pra conviver o
setor privado com o público, esse último assegurando a produção de formas
que a iniciativa privada não garante.

-Tô há muito tempo matutando pra descobrir uma forma não mercantilizada de
se obter cultura. O que eu acredito como não mercantilização de cultura é a
formação de jovens interessados em fazer arte ou seja formar pessoas para
música, escultura, literatura, pintura ou o que o valha, essa meninada
precisa aprender um caminho que em principio lhe sirva como ocupação
saudável, mas que depois possa garantir-lhe sustento se esta for a sua opção
em seguir cursos mais dedicados de especialização, precisamos usar o
dinheiro da cultura para dar aos brasileirinhos ferramentas para que possam
decidir que caminho tomar, e isto só se faz através da formação educacional
com enfase à especializações.

DB: Não é só dinheiro mamado por malversação que não precisa ser restituído,
dinheiro bem aplicado também não precisa ser restituído....

-Dificil tá sendo enxergar a boa aplicação deste dinheiro, é muiiiiito
dinheiro pra pouco resultado.

DB: e é aí que o Estado pode garantir - e garantiu, mesmo com toda a
corrupção que no nosso caso vem existindo - aplicação em coisas de
qualidade, que "não se pagaram", mas que prestaram grande serviço à cultura
nacional.

-Vai me desculpar Agapê, mas tô carente de exemplos que se encaixem nesta
tua afirmação. O ministro da cultura estará entregando o galpão para
funcionar o Centro Cultural Cartola, mas é uma entidade também não
governamental que vai ser patrocinada pela Xerox quem vai segurar a petéca
do gerenciamento para preservar a memória de Cartola e promover projetos
sociais, em suma, o ministro da cultura, se não estiver cedendo de fato o
galpão ( a noticia não foi clara ) estará presente só para capitalizar
aparição pública em evento cultural, se ele cedeu o galpão só vem a
confirmar minha impressão que bons projetos de preservação podem serem
desenvolvidos na triade ONG-Patrocinador Privado-Governo.

DB: Não adianta ficar só citando casos notórios de desvio e desperdício. Não
é sempre que "é saudável" a existência de retorno do investimento. A sua
visão está muito maniqueísta,

-Tô sendo maniqueista por que almejo uma melhor aplicação pro imposto que eu
sou obrigado a pagar, não estou me recusando a pagar nem pedindo redução, me
sinto muito tributado pra pouco resultado, governo é o item mais pesado das
minhas despesas e é também o que menos me alegra e o que menos presta conta
do uso que faz do meu dinheiro.

HP: O exemplo do Teatro Municipal: não é porque música erudita é elitizada
que vamos acabar com ela. Melhor que continue existindo e permitindo que uma
parte da população, mais atenta e bem informada, tenha acesso a essa forma
de arte. E não é só ricaço não, pelo menos aqui no Rio tenho aluno que mora
na Baixada Fluminense e em mês de temporada de ópera vai lá bater o ponto,
vai de galeria mas vai. Era melhor que fosse na platéia. E era melhor que
mais gente tivesse a oportunidade. Mas música erudita é elitista em qualquer
lugar do mundo, com exceção dos países então socialistas.

-Aqui em SP não tem essa não, ou voce compra a cartela antecipadamente por
não sei quanto mil reais ou não vai nem sentir a catinga de mijo de
indigente na escada de acesso.

HP: Vai entregar o Municipal para a iniciativa privada otimizar o uso? Ela
não faz um teatro daquele nunquinha, não mantém uma orquestra sinfônica nem
morta, pode patrocinar uma serie de espetáculos, isso mas porque tá lá o
Estado bancando
o salario dos músicos, a manutenção do teatro. E, se fizer, aí é que acaba
de vez qualquer possibilidade de popularização.

-Bom, já que não dá pra ser popular vamos colocar o teatro municipal para
faturar e destinar a bilheteria à formação de jovens. Voce está pra lá de
enganado em pensar que não existe possibilidade da iniciativa privada bancar
os custos de salários, mesmo por que não precisa ser somente uma empresa a
patrocinar este quesito. Estamos em plena safra de publicações de balanços
das empresas de capital aberto, dá uma olhadinha quanto é que os bancos
recolhem de imposto e faz as contas de quantos teatros municipais um só
banco pode manter ao longo de um ano, continha básica Agapê, pega o valor do
imposto recolhido, retira-lhe 80%, ai voce pega os 20% restantes e divide
pelo custo de manutenção do teatro municipal incluindo ai desde salários dos
músicos até o vale transporte dos serviçais. O Altamiro Carrilho fez um show
no ano passado no municipal de sp, a preços populares: 100 paus por cabeça.

HP: Aqui no Rio tem também "teatro municipal da iniciativa privada": o ATL
Hall, ex-Metropolitan. Vez em quando tem um tenor desses lá, e quase sempre
é Xuxa, grupinhos e grupelhos. Eficientíssimo, retorno garantido, prestação
de contas sagrada,ninguém mama nas tetas. Mas e daí?

-Tem Xuxa no municipal privatizado por que quem entregou para a iniciativa
privada não estabeleceu o que deveria rolar por lá, se tivesse um edital de
concorrencia estabelecendo logo de cara que tem que ter isso e aquilo, ou
neguinho cumpre a determinação estatutária determinada no edital ou perde a
concessão. Entregam a coisa assim, sem mais nem menos, é claro que o
empresário vai atrás do que rende mais. Papel de bobo só se for em Holywood.

VV
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