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CBdH: Bastou eu perguntar onde anda para que ela sugisseEsta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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From: wpavan (wpavan_at_uol.com.br)
Date: dom 03 fev 2002 - 09:38:37 EDT
Só não entendi o lapso temporal: como CB foi amiga de Donga se ainda usava
fraldas quando João Gilberto visitava seu pai? Muiiito interessante mesmo
foi esta declaração: "Mas sempre fui péssima estudante e minha mãe já
desconfiava que esse seria o meu destino". Fica ai registrada a dica de
profissão hiper rentável para as meninas e meninos ricos que não gostam de
estudar: pesquisar, cantar e gravar Sambas desconhecidos. Quem sabe no
futuro uma franquia que desenvolva este perfil movimente o mercado do
Samba, já que para alguns apreciadores do genero esse negócio de cantar bem
é bobagem.....
VV
Raízes do brasil Fiel pesquisadora da canção brasileira, ela grava disco que
terá inéditas de Cartola e João da Baiana.
O samba nobre de Cristina Buarque
Por Tom Cardoso para Valor Econômico
Chico é autor de sambas inesquecíveis como "Amanhã Ninguém Sabe" e "Vai
Passar". Miúcha é a intérprete da bossa nova, de Tom e Vinícius. Porém,
ninguém da família Buarque de Hollanda vive tão intensamente do samba como
Cristina. Amiga do peito de saudosos bambas como Donga, Carlos Cachaça,
Ismael Silva, Mauro "Bolacha" Duarte, com trânsito livre na comunidade da
Portela, a cantora é referência direta para quem ainda gosta e aprecia o
chamado samba de raiz.
No Rio de Janeiro não há roda de samba para a qual Cristina não seja
convidada. É "sócia minoritária" do boteco Bip-Bip, um dos últimos núcleos
de resistência do samba, funcionando há mais de 30 anos em Copacabana. Na
Lapa, tradicional reduto boêmio da cidade, pode ser vista cantando ao lado
do veterano Roberto Silva e de revelações como Teresa Cristina, Pedro
Holanda e Mariana Bernardes. É com essa turma que ela vai gravar, em breve,
seu próximo álbum, com produção de Hermínio Bello de Carvalho, a sair pelo
selo Biscoito Fino.
O projeto, com o sugestivo título de "O Samba é Minha Nobreza", nome de uma
parceria de Teresa com Hermínio, já é aguardado com ansiedade pelos amantes
do gênero. Cristina não é de gravar muitos discos, mas quando decide entrar
em estúdio capricha. É uma devoradora de sambas inéditos e obscuros - já
conseguiu com Hermínio músicas inéditas de Cartola e João da Baiana. Costuma
dizer que não acha graça em gravar canções manjadas num país que não
valoriza nem um décimo de sua rica produção musical.
Profunda conhecedora da obra de Noel Rosa, lançou dois grandes álbuns com o
repertório do poeta - "Sem Tostão ... A Crise não É Boato" e "Sem Tostão
2... A Crise Continua", ambos com Henrique Cazes.
Mergulhou fundo no repertório de Wilson Batista, rival histórico de Noel,
num disco primoroso, gravado com participações de Chico, Paulinho da Viola e
Roberto Silva. Anos antes, no começo da década de 80, já tinha feito o mesmo
com a obra de Mauro Duarte (morto em 1989), compositor que fez história no
Carnaval de rua de Botafogo e hoje está praticamente esquecido.
Filha mais nova de Sérgio Buarque de Hollanda e Maria Amélia, Cristina ainda
usava fraldas quando João Gilberto, Vinícius de Moraes e Paulo Vanzolini
passavam pela casa da rua Buri, no Pacaembu, em São Paulo, para bater papo
com a família. Do pai, o mais importante e brilhante historiador brasileiro,
autor de "Raízes do Brasil", Cristina talvez tenha herdado o jeito curioso,
o gosto pela pesquisa. Parou por aí. "Sempre fui péssima estudante", revela.
A cantora diz que não preparou nenhuma homenagem para o centenário de
nascimento do pai, em 11 de julho. "Preferia que ele estivesse vivo. Daí
seria motivo para uma grande festa, com muito samba", afirma. A filha caçula
conta que se lembra do pai fazendo brincadeira com músicas de Ismael Silva,
o seu sambista predileto. "Papai adorava cantar samba em latim, tango em
alemão. Não era para fazer experimentações musicais não, era palhaçada
mesmo."
Desde que ouviu pela primeira vez os discos de samba de Sergito, o irmão
mais velho, Cristina já tinha vocação para ser cantora, apesar da reprovação
de Maria Amélia, que a essa altura já tinha mesmo se conformado com a
debandada geral dos filhos para a música. "Não sei exatamente quando comecei
a me apaixonar pelo samba. Quando percebi, eu já estava estreando em disco
cantando ao lado do Vanzolini", conta Cristina, em entrevista ao Valor, na
qual também fala dos projetos, dos animados papos no Bip-Bip, das visitas à
casa de Donga, das conversas com Carlos Cachaça. "Esse tempo não volta mais,
morreu todo mundo."
Valor: Como surgiu a paixão pelo samba?
Cristina Buarque: Desde criança, gostava de ouvir os discos de Noel e
Ataulfo (Alves) de Sergito, meu irmão mais velho. Mesmo assim, não tinha a
menor pretensão de ser cantora. Mas sempre fui péssima estudante e minha mãe
já desconfiava que esse seria o meu destino.
Valor: Sua estréia como cantora foi por acaso...
Cristina: Pois é. A nossa casa vivia cheia de músicos. A gente adorava ficar
ouvindo o Paulo Vanzolini cantando daquele jeito desafinado dele canções
como "Samba do Suicídio". Em 1967, ele me convidou para participar do disco
"Onze Sambas de uma Capoeira", que sairia como brinde para os clientes da
Marcus Pereira, naquela época ainda uma pequena agência de publicidade
(comandada pelo violonista e maestro Marcus Vinicius, a empresa viria a se
tornar uma das mais importantes gravadoras de resgate da música brasileira).
Valor: E o que sua mãe achou de tudo isso?
Cristina: Não gostou muito, não. Eu tinha 16 anos. Acho que só gravei porque
fui convidada pelo Vanzolini, que era muito amigo de meus pais. Imagina se
fosse um sambista do morro... Não seria tão fácil. Mas acabou dando tudo
certo. Cantei na faixa "Chorava no Meio da Rua".
Valor: Este é o ano do centenário de nascimento de seu pai. Está preparando
alguma homenagem?
Cristina: Já tem muita gente cuidando disso. O Nelson Pereira (dos Santos)
está preparando um documentário sobre papai. Não sou a pessoa ideal para
falar sobre a obra de Sérgio Buarque. Sou tão ruim em História do Brasil
como sou em matemática e física. O meu filho Zeca, que se formou em História
na Unicamp, sabe muito mais sobre meu pai do que eu. Ele cansou de ler
"Raízes do Brasil", obra obrigatória para qualquer historiador. Gostaria que
papai estivesse vivo. Daí seria motivo para uma grande festa, com muito
samba.
Valor: Seu pai gostava de algum sambista em especial?
Cristina: Ele não era de ouvir muito samba. Mas admirava Ismael Silva,
Noel... Adorava cantar samba em latim, tango em alemão. Não era para fazer
experimentações musicais não, era palhaçada mesmo. Ficava tocando berrante,
pegava uma sanfona lá de casa e fingia que tocava. A gente morria de rir.
Valor: Você sempre teve uma ligação muito intensa com a Velha Guarda da
Portela...
Cristina: Fiquei maravilhada quando ouvi "Portela, Passado de Glória", o
primeiro disco lançado (em 1970) pela Velha Guarda, produzido por Paulinho
da Viola. Acho que a partir dali decidi levar a coisa do samba
profissionalmente. Gravei em 1974 "Quantas Lágrimas", de Manacéa, o meu
primeiro sucesso, e passei a conhecer e ficar amiga de todos os grandes
sambistas lá de Oswaldo Cruz e de outras regiões.
Valor: Muitos desses sambistas já morreram.
Cristina: Quase todos. Tive uma convivência muito boa com vários deles.
Freqüentava a casa de Donga (autor de "Pelo Telefone", primeiro samba
gravado no Brasil, em 1917). Ele já estava velhinho, dizia que "sua mão já
não obedecia mais". Também ia muito à Mangueira bater papo com Carlos
Cachaça. É um tempo que não volta mais.
Valor: Mesmo assim, há ainda muita gente boa fazendo samba no Rio. Uma turma
nova, que vai estar junto com você no novo disco.
Cristina: Existe hoje um circuito de samba e choro muito interessante na
Lapa. É um pessoal jovem, que adora Geraldo Pereira, Noel, Herivelto
Martins, que gosta de pesquisar, buscar canções antigas. A gente já está
gravando. A produção é do Hermínio Bello de Carvalho, que já arrumou alguns
inéditos do Cartola e do João da Baiana. Convidei o Roberto Silva. O disco
promete.
Valor: Seu trabalho sempre foi de resgate. Raramente você decide gravar uma
música manjada...
Cristina: Não gosto de assistir a show por causa disso. O artista
normalmente privilegia canções de sucesso. Sou curiosa, gosto de pesquisar.
Não acho a mínima graça gravar o que todo mundo já conhece. Ainda mais num
país onde grande parte da produção musical ainda está praticamente inédita.
Valor: Você é uma das embaixadoras do Bip-Bip, boteco que já virou lenda. É
um dos últimos lugares do Rio onde ainda se pode jogar conversa fora e ver
uma boa roda de samba e choro?
Cristina: O Bip é uma delícia. O pessoal que freqüenta - Elton Medeiros,
Miúcha, Beth Carvalho, Walter Alfaiate, Henrique Cazes - é muito divertido.
O bar não tem muita coisa para oferecer, não. O dono (Alfredinho Melo) é
preguiçoso, não tem comida, a gente mesmo tem de anotar o pedido, mas acaba
sendo uma delícia por causa disso.
Valor: Seus pais ajudaram a fundar o PT. Você acha que Lula tem chances
reais de chegar à Presidência em 2002?
Cristina: Sempre votei no PT, apesar de nunca ser filiada ao partido. Acho
que o PT está um pouco devagar, principalmente no Rio. Ando desanimada com o
partido, desde que ele se aliou ao Garotinho. Toda vez a gente acha que o
Lula tem chance. Vamos ver agora.
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