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A Velha Guarda do Samba

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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From: wpavan (wpavan_at_uol.com.br)
Date: dom 03 fev 2002 - 06:52:39 EDT

Sambas guardados
Músicos da velha-guarda saem do esquecimento e vão gravar.
Alguns pela primeira vez

Sérgio Martins - Veja

Argemiro Patrocínio e Jair do Cavaquinho são dois sambistas da gema. O
primeiro tem 79 anos. O segundo, 81. Ambos pertencem à Velha Guarda da
Portela e exibem no currículo composições de sucesso, interpretadas por
cantoras do quilate de Beth Carvalho e Elizeth Cardoso. Nunca, porém, eles
haviam entrado em estúdio para gravar discos próprios: fizeram isso pela
primeira vez no fim do ano passado. Argemiro - que passou boa parte da vida
consertando geladeiras - trazia num caderno velho mais de setenta canções.
Jair também contava com uma coleção de inéditas. "Finalmente vou ter um
documento sobre a minha carreira", emociona-se ele, que é funcionário
público aposentado. Os dois CDs devem sair em março, distribuídos pelo selo
Phonomotor, e são parte de um movimento que vai tomando corpo: a recuperação
de sambistas veteranos. Guilherme de Brito, Elton Medeiros, Nelson Sargento
e Casquinha são outros nomes importantes com disco novo na praça.

Dona da Phonomotor, a cantora Marisa Monte serviu de abre-alas nesse
desfile. Há dois anos, ela produziu a coletânea Tudo Azul, da Velha Guarda
da Portela, e vendeu 30.000 cópias, boa marca para um álbum de samba
tradicional. Isso animou outros selos a investir no filão. O Nikita Music
resolveu lançar no Brasil discos de veteranos do morro que antes só haviam
circulado no Japão. A Lua Discos pôs no mercado os CDs de Guilherme de Brito
e Casquinha, enquanto Nelson Sargento emplacou dois álbuns neste começo de
ano: Flores em Vida (Rádio MEC) e O Dono das Calçadas (PMCD Produções), um
tributo a Nelson Cavaquinho.

"Estamos fazendo o nosso Buena Vista", costuma dizer Marisa, também às
voltas com a criação de um documentário sobre os portelenses de antanho. Ela
se refere ao Buena Vista Social Club, projeto que reuniu, em 1997, grandes
músicos cubanos das décadas de 40 e 50. O disco vendeu 2,5 milhões de cópias
ao redor do mundo e inspirou um filme do cineasta alemão Wim Wenders. "Buena
Vista Brasil" é um bom slogan, mas não se pode acreditar que uma onda de
samba de raiz esteja prestes a varrer o globo. Nem mesmo no Brasil há clima
para altos vôos. O samba não é campeão de mercado. O que vale mesmo é a
oportunidade de registrar belas canções que arriscavam perder-se.

Mangueirenses como Nelson Sargento e portelenses como Argemiro começaram a
compor cinqüenta anos atrás, num ambiente que já não existe. "Os enredos
nasciam na quadra da escola. A gente levava o pandeiro e fazia o povo
cantar", diz Jair do Cavaquinho. As escolas se "profissionalizaram" na
década de 70. O enredo ficou a cargo de carnavalescos e, segundo os
veteranos, para emplacar um samba hoje em dia é preciso fazer uma verdadeira
campanha política, envolvendo desde o mestre da bateria até os chefes de
ala. O velhinhos não têm vocação para isso. Já nem se pode dizer que seus
laços com as escolas sejam firmes. Na Portela, uma pintura de homenagem à
velha-guarda foi raspada de uma parede por ordem da diretoria. "Eu gostaria
de lançar meu disco em qualquer outro lugar que não seja a quadra da
Portela", desabafa Argemiro.

Nem o tipo de música levado ao Sambódromo hoje em dia tem muito a ver com a
tradição. "O samba-enredo ficou muito acelerado, com ritmo de marcha", diz o
músico Paulinho da Viola. Paulinho é um compositor que se formou no ambiente
do morro e das escolas. Foi incentivado por gente "da antiga" a deixar a
carreira de bancário nos anos 60 e cair no pagode. "Nós fizemos campanha.
Íamos para a porta do banco e gritávamos 'Sai daí, garoto!'", conta Elton
Medeiros, sambista de 71 anos que chegou a fazer aulas de música com o
maestro Villa Lobos. Nos anos 70, Paulinho da Viola foi o primeiro a chamar
a atenção para a necessidade de preservar sambas guardados na memória de
poucos. Ele produziu o clássico Portela, Passado de Glória.

Também no quesito letra, os veteranos do samba têm grandes momentos. Nelson
Sargento é autor de versos que sobreviveriam até sem música, como os de Fals
o Amor Sincero, com sua ironia e seu jogo esperto entre o "verdadeiro" e o
"fingido": "O nosso amor é tão bonito / Ela finge que me ama / E eu finjo
que acredito". Outro que se destaca com as palavras é Guilherme de Brito.
Entre os anos 50 e 80, ele construiu uma celebrada parceria com Nelson
Cavaquinho (1910-1986). Nelson desfrutou de muito mais sucesso que o amigo,
e acabou colhendo alguns louros que caberiam a ele. Nem todos sabem, por
exemplo, que são de Brito os versos mais famosos de A Flor e o Espinho:
"Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com a minha dor".
Brito, de 80 anos, vive cercado pelos quadros que pinta e que, mais que a
música, o ajudaram por décadas a suplementar o salário de vendedor. Sua
especialidade são as músicas dolentes, com um pé fincado na melancolia. "Eu
sou mesmo um sujeito meio triste", diz ele.
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