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no.com.br : Ricardo Prado : Critérios de genialidadeEsta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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From: Paulo Eduardo Neves (neves_at_samba-choro.com.br)
Date: qui 10 jan 2002 - 12:23:08 EDT
Parece até que ele está lendo nossa tribuna:-)
http://www.no.com.br/revista/noticia/53437/1010585614000
Critérios de genialidade
[ 09.Jan.2002 ]
Há quem acredite que os pássaros cantam melhor se forem cegos. Há quem
pense que músicos são devassos vagabundos vivendo como na valsa de
Strauss, entre "vinho, mulheres e música". Há os que crêem que os
músicos são seres estranhos, escolhidos e privilegiados, afundados em
gabinetes escuros, debruçados sobre os seus pianos à luz de
candelabros, aguardando as epifanias que os deuses lhes soprarão nos
ouvidos. Há até quem lamente que músicos, os verdadeiros, os mestres de
tanta maravilha, já não existem mais, desapareceram com os lampiões a
gás, as carruagens e a tísica.
Em um mundo sitiado por caixas de som, já não sabemos quem são os
gênios e os vendilhões do templo, quem os criadores, quem os espertos.
E a música? Onde andará?
Filosofia
O crítico do New York Times Edward Rothstein publicou esta semana o
artigo "Mitos sobre os gênios", sobre o livro recém lançado do filósofo
Peter Kivy "O Possuidor e o Possuído: Haendel, Mozart, Beethoven e a
Idéia do Gênio Musical".
Rothstein salienta que os filósofos nunca questionaram a existência dos
gênios, mas o que os define. Para ele o reconhecimento da genialidade
não está sujeito às mudanças do mercado ou do gosto - um gênio pode ser
um fracasso inicial para ser aclamado no futuro. A objetividade no
julgamento deles e a sua origem em diversas culturas poderiam ser
provadas pelo reconhecimento universal e perene tanto a Shakespeare
como a Beethoven. Assim, para aceitarmos a existência dos gênios,
teríamos que admitir "a possibilidade de 1) uma hierarquia do talento,
2) julgamento objetivo e 3) autonomia estética".
Para Peter Kivy, embora o conceito de genialidade tenha sido muito
maleável, existem dois mitos dominantes sobre os gênios na cultura
ocidental. O primeiro, proposto por Platão, é que o gênio é um
recipiente passivo da revelação divina. O segundo, atribuído a
Longinus, é o de que o gênio é um criador. Assim, para Longinus o gênio
é possuidor e para Platão, um possuído; Haendel corresponderia, então,
ao modelo do criador potente de uma música sublime, enquanto Mozart
seria uma espécie de um homem-criança repleto de inesgotáveis
revelações. Beethoven, uma síntese dos dois, aparece como um criador
iconoclasta e um profeta inspirado. "Gênios são explicados segundo os
mitos de cada época. Eles são atribuídos a inspirações etéreas, uma
capacidade extraordinária de concentração, a uma vontade poderosa, ao
inconsciente coletivo ou a dotes genéticos. A explicação mais atual é
de que eles são uma construção ideológica - gênios seriam uma ilusão
manipulativa". A resposta de Edward Rothstein para as críticas de que
gênios e suas obras são produtos de época, de interpretação e de gosto
é ouvir as "Variações Goldberg", de J.S.Bach, a Sonata Opus 111 de
Beethoven, "As Bodas de Fígaro", de Mozart e os Quartetos de Cordas de
Bartók.
Dádivas do Destino
Há pessoas cujo privilégio em conhecer pessoalmente eu incorporei ao
meu currículo, gente a quem dediquei uma admiração reverente e amorosa.
Ano passado, como um presente do destino, como uma dádiva do Marcos Sá
Corrêa, conheci a escritora que marcou a formação literária dos meus
filhos e sobrinhos, que me ensinou tanto sobre como pensar com
palavras. Podem me invejar, é isso mesmo o que pretendo - eu almocei
com Ana Maria Machado um longo almoço até o fim da tarde.
Entre tantas coisas conversadas entre risos e emoção, Ana Maria
comentou comigo sobre as observações de George Steiner, ensaísta,
crítico de literatura e de cultura, sobre a onipresença da música. Sem
querer ou planejar, outro dia esbarrei em um livro dele - "Nenhuma
Paixão Desperdiçada" - em uma livraria ali ao lado de onde almocei com
Ana Maria. Pois este foi um dos livros mais intensos e inteligentes,
mais eruditos e saborosos que já li.
"O encordoamento da memória só pode ser retesado onde haja silêncio.
(...) Aprender de cor, transcrever fielmente, ler com toda atenção é
fazer silêncio dentro do silêncio. Será tarefa dos futuros
historiadores da mente humana mensurar o fenômeno da redução de nossa
capacidade de atenção e do esgarçamento da nossa concentração que
resultam do simples fato de podermos ser interrompidos a qualquer
instante pela campainha de um telefone, pelo fato ancilar de que a
maioria de nós acabará atendendo o telefone - a não ser quando
estoicamente decidimos em contrário - seja o que for que estejamos
fazendo. (...) Há estudos recentes dando conta de que aproximadamente
setenta e cinco por cento dos adolescentes nos Estados Unidos têm
sempre ao fundo um som ligado enquanto lêem (um rádio, um toca-discos,
um aparelho de tv, no próprio cômodo onde se encontram ou no cômodo ao
lado). Um número crescente de jovens e adultos confessa-se incapaz de
se concentrar em um texto sério sem um "background" de som organizado".
E a música, maestro?
Muito embora fale muito sobre ela, no trecho que citei acima (mesmo nos
que retirei) Steiner não fala de música. O que quero ressaltar é que
não se trata de uma mera omissão - aquele som ligado ao fundo, aquele
som organizado não é música. Mesmo - e principalmente - se estiverem
tocando Beethoven.
Meu argumento é aplicar à música o mesmo critério que Steiner aplica à
literatura e que poderia, rigorosamente, ser aplicado a qualquer obra
de arte:
"A boa leitura pressupõe resposta ao texto, implica a disposição de
reagir a ele, atitude essa que contém dois elementos cruciais: a reação
em si e a responsabilidade que isso representa. Ler bem é estabelecer
uma relação de reciprocidade com o livro que está sendo lido; é
embarcar em uma troca total".
"O ato e a arte da leitura séria comportam dois movimentos principais
do espírito: o da interpretação (hermenêutica) e o da valorização
(crítica, julgamento estético). Os dois são absolutamente inseparáveis.
Interpretar é julgar".
Não poderíamos dizer exatamente o mesmo sobre a audição de um disco ou
de um concerto? Não é assim que deveríamos ver um filme ou uma peça de
teatro, ou ver uma obra de arte?
"O significado é um atributo do ser".
Sem saber o que ouvem todas aquelas pessoas, posso afirmar que não
ouvem música. Som organizado, som de fundo, qualquer coisa que fique
ali enquanto elas lêem - ou trabalham ou fazem qualquer outra coisa que
não seja ouvir com aquela "relação de reciprocidade" - não é música.
Mas se estão me achando muito rigoroso vamos então tentar julgar
musicalmente o que aquelas pessoas estão ouvindo.
Quem são os gênios
Talvez seja melhor estabelecer logo quem não são os gênios, já que são
comuns as confusões sobre isso. Memória enciclopédica ou fotográfica
pode ser bom, mas não são sinais nem razoáveis de genialidade da mesma
maneira que esquisitices e cacoetes variados também são, geralmente,
quase nada além de cacoetes e esquisitices. Da mesma forma, usar óculos
aos 3 anos é sinal de problemas de visão e mesas desorganizadas indicam
dificuldades de organizar a mesa. Facilidade com a matemática, escrever
com as duas mãos, cantar afinado, jogar xadrez, também não são sinais
seguros. Ser incompreendido e morrer sem vender nenhum quadro também
não vale.
Como ainda não li o livro de Peter Kivy, vou usar critérios sobre
genialidade que li há anos atrás e, desde então, os adotei como
satisfatórios. Em um livro delicioso chamado "Aqueles cães malditos de
Arquelau", Isaías Pessotti descreve um almoço de seus personagens, onde
uma maravilhosa "fagianella" - um faisão assado - é o pretexto para
discutir genialidade. A cena se passa em uma pequena taberna do
interior da Lombardia chamada Menarost, na pequeníssima vila de
Sant'Hilario, no caminho para Santa Chiara. Decidido que os
acompanhamentos serão polenta branca, batatas ao forno e creme de maças
silvestres, os amigos incorporam à discussão sobre genética e
genealogia o amigo Giulio, dono da taberna e marido da genial
cozinheira Lisa. Depois de muito discutir as origens da receita daquela
magnífica "Fagianella de Lisa", o desenvolvimento de suas técnicas, os
aperfeiçoamentos por ela introduzidos, as muitas descobertas, podem
chegar, então, a uma conclusão:
"Desculpe, Giulio. Entendo que Lisa criou uma receita nova e deliciosa.
Mas qual é a diferença entre novidade e genialidade de uma receita?"
"Uma receita é genial quando tem três qualidades. Ela deve ser
original, uma solução superior para obter um certo prato, e deve
produzir novas receitas ou aplicações a outros pratos. A de Lisa é
genial por tudo isso: é completamente nova, resolve melhor os problemas
do preparo do faisão, como sabor, umidade, cor, aroma e, em terceiro
lugar, já fixou um estilo, uma marca dos pratos de Lisa".
Está bem, está bem, vão me dizer que comida não é coisa séria e que não
dá para pensar a partir de faisões no interior da Itália. Mesmo
descordando quase furioso - "sapere" é a raiz de saber e de sabor -,
vou aplicar os mesmo critérios aos criadores de música.
Por exemplo...
Se estes critérios estivessem corretos e pudessem ser aplicados aos
compositores, poderíamos classificar como gênios os que, normalmente,
já são classificados: Bach, Mozart, Beethoven, Chopin, Wagner, Verdi,
Debussy, Stravinsky, Kurt Weill, Charles Ives, Louis Armstrong, Dizzie
Gillespie, Chet Baker, Benny Goodman, Ernesto Nazareth, Villa-Lobos,
Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Tom Jobim, Chico Buarque de Hollanda,
Guinga, entre dezenas de outros. Também poderiam passar a ser incluídos
vários músicos que são considerados "geniais" sem compreendermos
exatamente o porquê. Darei um exemplo.
Ele nasceu em uma família pobre e foi criado por tios e tias em um
lugar que, no Brasil, chamaríamos de favela. Quase não estudou e criou
problemas desde a puberdade. Suas mãos imensas e ferozmente ágeis
realizavam vibratos inimagináveis. A sua forma de afinar seu
instrumento foi inventada por ele e possibilitou uma integração inédita
com os instrumentos de sopro. Ele esteve sempre interessado em todas os
gêneros musicais de seu tempo, adorava jazz e os clássicos de todas as
épocas, mas seu preferido era Wagner. Sofreu insuportavelmente sob a
direção de empresários que não admitiam experimentação musical e seu
desejo ardente de trabalhar fez com que assinasse contratos cedendo
toda a sua obra futura (!) a bandidos disfarçados de produtores. Foi
obrigado a repetir centenas de vezes os mesmos malabarismos no palco
com seu instrumento e, para expressar sua dependência e os abusos que
sofria, chegou a representar no palco o seu seqüestro pelos agentes.
Pressionado para apresentar-se diante de platéias sempre maiores, ele
se apresentou ou gravou durante todas as noites de seus últimos quatro
anos de vida, sem nenhum descanso. Perfecionista, levava horas afinando
seu instrumento e nunca parava de estudar. Ao morrer, aos 28 anos,
deixou gravados o equivalente a 473 discos. Como se chamava esse gênio?
O resto
O resto nunca para de crescer nas duas pontas. De um lado aproximam-se
dos gênios elencos de boa qualidade, mas nada além disso, muito mal
acompanhados por irreverência juvenil e novidade comercial,
propositalmente confundidas. Na outra ponta do resto cresce, como
sempre cresceu, o que poderíamos denominar conscienciosamente de
porcaria.
Como todo o sistema musical contemporâneo se baseia no disco, todo o
pensamento crítico que deveria ser dirigido à música, acaba por se
dedicar ao disco. Experimente ler as resenhas musicais dos periódicos
que você preferir e você constatará que elas falam de disco: de onde
ele veio, quantas e quais são as faixas, o que ele representa na
carreira do seu autor, quais as diferenças para melhor ou para pior
comparado ao disco anterior, quais as razões da gravadora, como é o
show de lançamento, por onde passará a turnê, e as intermináveis
filiações e fusões desse ritmo com aquela batida, mas naquela variante
neo-new-pro-sub-rap-funk-mangue, mas coesa e coerente. É muito mais
fácil entender James Joyce no original.
O disco na era fonográfica alcançou o status de instrumento. Diga que
um DJ não é um músico e todas as pragas do Egito desabarão sobre você,
mesmo que você ache que músico já não é grande coisa.
Mas gênios para quê?
O "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa" nos ensina que gênio é
"espírito que, segundo os antigos, regia o destino de um indivíduo, de
um lugar etc., ou que se supunha dominar um elemento da natureza, ou
inspirar as artes, as paixões, os vícios etc. (o g. protetor de uma
comunidade) (o g. do fogo) (o g. da música)"; ou a "aptidão natural
para algo; dom (ter o g. dos negócios)"; pode ser também uma
"extraordinária capacidade intelectual, notadamente a que se manifesta
em atividades criativas (o g. de Mozart)" ou o "indivíduo dotado dessa
capacidade (Leonardo da Vinci era um g.)".
Se for assim, precisamos deles como exemplos e como referência. Bach
trabalhou sem parar compondo obras primas que só seriam conhecidas e
reconhecidas séculos depois; Mozart ampliou os entendimentos do que é a
humanidade enquanto criava uma nova função para o artista nela.
Beethoven? Leonard Bernstein escreveu a melhor definição que conheço
sobre Beethoven, e que poderia valer para Shakespeare ou Michelangelo:
"Há qualquer coisa certa nesse mundo. Qualquer coisa que, a todo o
momento, tem coerência, que segue consistentemente a sua própria lei,
qualquer coisa em que podemos confiar e que nunca nos deixará
desamparados".
Ah... O nome daquele gênio? Jimi Hendrix.
Ricardo Prado é maestro.
-- Paulo Eduardo Neves mailto:neves@samba-choro.com.br Agenda do Samba & Choro, a boa música brasileira na Internet http://www.samba-choro.com.br _____________________________________________________________ Para CANCELAR sua assinatura: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela Para ASSINAR esta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
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