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A verdade sobre Nelson Gonçalves

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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From: Paulo Eduardo Neves (neves_at_samba-choro.com.br)
Date: qua 09 jan 2002 - 15:20:24 EDT

http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2002/01/08/jorcab20020108011.html

 A verdade de Nelson Gonçalves

 Biografia sobre o cantor revela personagem tão surpreendente quanto o
mito criado por ele próprio

 JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

  Na biografia 'A revolta do boêmio', escrita por Marco Aurélio
Barroso, o cantor Nelson Gonçalves é descrito como um homem
despreparado para as responsabilidades da vida: cavalos no Jóquei,
cocaína e estupro Você já leu isso em algum lugar: Nelson Gonçalves
bateu o recorde mundial com suas 2 mil gravações, o que lhe rendeu numa
viagem a Nova York um encontro com Frank Sinatra. Antes, porém, foi
lutador de boxe e cafetão na Lapa. Madame Satã, o homossexual malandro
da Lapa dos 40, serviu de testemunha numa surra que Nelson deu em
Miguelzinho Camisa Preta, a única no currículo deste terror da Saúde.
Mais tarde, nos anos 60, trancado numa casa para se curar do vício da
cocaína, Nelson era alimentado com comida passada por debaixo da porta.

Você já leu todas essas informações em muitas reportagens e algumas
estão no filme Nelson Gonçalves, recentemente lançado em DVD, que conta
a vida do cantor e tem Alexandre Borges no papel principal.

Pois saiba agora: tudo mentira.

1. Nelson gravou 869 músicas. Até Chico Alves superou este número.

2. Jamais viu Sinatra pela frente.

3. Fez algumas aulas, e olhe lá, de boxe.

4. Nunca teve mulher na zona. Foi explorado pelas mulheres.

5. Nunca bateu em Miguelzinho Camisa Preta, porque esse personagem não
existiu. Existiu Miguelzinho e existiu Camisa Preta. Invenção de Madame
Satã.

6. Livrou-se das drogas num processo tradicional que vai diminuindo as
doses.

''O Nelson inventou um personagem que cabia muito bem nas necessidades
da imprensa, era um típico caso de me engana que eu gosto para os dois
lados'', diz o escritor Marco Aurélio Barroso, que está lançando A
revolta do boêmio - A vida de Nelson Gonçalves com todas essas
informações e muitos outros desmentidos. Não, Nelson também não dormiu
nas pedras do Flamengo nem foi nocauteado por Eder Jofre. O livro custa
R$ 40 e pode ser comprado pela internet, no endereço
arevoltadoboemio@bol.com.br.

Solucinhos maneirosos - É um daqueles raros casos nacionais de
biografia não autorizada. Nelson foi deixando filhos e mulheres pelo
caminho, sem ajudá-los em nada além do que não fosse cobrado ao vivo
por algum representante da Justiça - e isso tudo está no livro, uma
biografia sem panos quentes, segundo o autor. ''O Nelson não desprezava
filhos e ex-mulheres por maldade, mas porque era um despreparado para
as responsabilidades da vida'', afirma.

Não pagava pensões aos filhos. Bateu em todas as mulheres. Marco
Aurélio não conta isso só porque sempre foi fã de Orlando Silva. Mas em
nome da verdade. No final do livro relaciona a discografia completa do
cantor, mas antes, verificando os métodos que ele utilizava para
recolher canções, muitas vezes em pagamento de drogas ou amizades, é
crítico: haja qualidade numa discografia assim!

Nelson Gonçalves, gaúcho, criado em São Paulo por pais analfabetos,
tinha o nome de batismo de Antônio Gonçalves e não Antônio Gonçalves
Nobre como está no filme que acabou de passar nos cinemas. Gravou pela
primeira vez, em 1941, um samba de Ataulfo Alves, e atravessou toda a
década de 40 na aba de Orlando Silva, a quem imitava descaradamente no
timbre aveludado e até nos solucinhos maneirosos. Orlando, depois de
uma aparição espetacular em 1935, começou a definhar artisticamente em
1942 - e aí Nelson colou junto. Filme, livro e todos os pesquisadores
concordam: de 1952, quando começou a gravar Adelino Moreira e o destino
levou Chico Alves, até 1957, quando caiu de nariz nas drogas, Nelson
Gonçalves, já com sonoridade própria, foi o maior cantor do Brasil.

Mesmo que Marco Aurélio Barroso desmonte a lenda de que a cantora Betty
White tenha botado fogo às vestes e se suicidado por amor a Nelson (ela
na verdade morreu num acidente doméstico com álcool). Mesmo que não
seja espanhola mas cubana a vedete namorada Nina Montez, e mesmo que o
cantor não tenha tentado matá-la a facadas como diz a lenda, mas com
balas de revólver como quer o livro - uma biografia de Nelson sempre
terá histórias incríveis para contar. Entre 1959 e 1964, manteve oito
cavalos no Jóquei Clube, que correram 138 provas e venceram... 6.
Nelson participava de jogos de dados viciados - era ele quem levava os
dados.

Prótese peniana - A biografia de Marco Aurélio, premiada pela
Biblioteca Nacional, vai às minúcias no registro de todos esses
qüiproquós e, num estilo romanceado, passa com rapidez do palco
auditório da Rádio Nacional para a delegacia de Copacabana, onde agora
o cantor dá nova entrada por tentar jogar da janela uma de suas
namoradas, Maria Luíza. Há dezenas de personagens famosos vistos não
exatamente da mesma maneira que apareciam na Revista do Rádio. O
compositor Jorge de Castro, parceiro de Wilson Batista na clássica
Dolores Sierra, tem registrado seu verdadeiro papel na música popular
brasileira - era agiota, vulgo Judeu Negro, e saía dele o dinheiro para
que Wilson e Nelson comprassem cocaína.

As letras de verbo forte do português Adelino Moreira - A volta do
boêmio, Meu vício é você, Mariposa, Doidivana - ajudaram a cimentar o
perfil de um machão com um lado luminoso (18 filmes, 60 milhões de
discos vendidos segundo o filme, 26 milhões pelo livro) e outro
pavorosamente sombrio (uma de suas idas à delegacia foi por causa do
estupro de uma fã). Em 1966, Nelson, preso por tráfico de cocaína,
cruza com o cascateiro-mor da imprensa nacional, David Nasser - que se
encarrega de misturar ainda mais o pó do que é verdade e do que é
mentira em volta desse boêmio.

''Nelson foi um homem em eterna busca do equilíbrio e por incrível que
pareça só conseguia isso com as drogas, o jogo e a troca constante de
mulheres'', observa Marco Aurélio, que encerra a biografia com a morte
do cantor, de infarto do miocárdio, aos 78 anos, em 18 de abril de
1998. Tinha oito filhos e uma prótese peniana em constante estado de
ereção, com que gostava de assustar os amigos ao abraçá-los. Antes do
ponto final, Marco Aurélio destruiu uma última lenda. Nelson não era
gago. Era o contrário. Taquilálico. Falava rápido demais.

 [09/JAN/2002]

 

-- 
Paulo Eduardo Neves		mailto:neves@samba-choro.com.br
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