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Re: Afinal de contas, quem é gênio?

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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From: Fernando Toledo (fernandotoledo_at_hobeco.net)
Date: sex 04 jan 2002 - 15:54:00 EDT

Paulo,
Os comentários vão ao longo do riocorrente:

> Fernando,
>
> panglossianamente concordo com a outra mensagem :-)
>
> Quanto a esta, pouco tenho a acrescentar, apenas esparsos comentários e
uma
> crítica ao Ruy Castro que nos fez perder, duplamente(Chega de Saudade e A
> Onda que se Ergueu no Mar), a oportunidade de obter um pouco mais de luz
> sobre o assunto.
>

Acontece que o Ruy Castro tem muito a ver com o Sérgio Augusto, ou seja,
aquela "especialidade em generalidades". Note que ele conta muito bem os
"causos" e anedotas, mas nunca entra numa verdadeira apreciação musical. E
não cabe aqui a obesrvação de psicografia suína (espírito de porco) "ah, mas
o livro ia ficar muito técnico e incompreensível". Não. Citando o físico
Ernest Rutherford: "Se você não consegue explicar um conceito a seu
motorista, é porque você não sabe do que está falando". Na verdade, essas
figurinhas têm muito dessa cultura trash, superficial, bem típica de alguns
jornalistas que ora entram, ora saem da moda, mas que estão sempre numa
boa...
Por esta razão, creio, ele não fez este acréscimo ao conhecimento acerca do
resultado musical de João Gilberto.

> o violonista Luis Didier, professor do João, e também o Mário Cravo, que
> muito privou de sua companhia não se arriscam a fazer maiores comentários,
> apenas afirmam que ele era obcecado por conjuntos vocais, brasileiros e
> americanos. A maneira extremamente peculiar do João quando toca samba
(sendo
> o samba seu maior referencial, tudo que toca vira samba), a mão direita
> fazendo com que as cordas sõem uníssonas, deixando a corda Mi solta,
> práticamente usando-a para pequenos efeitos, o baixo soando constantemente
> tum tum tum como nos conjuntos instrumentais, a melodia sendo exposta
pelas
> notas do meio do acorde, tudo isto nos remete aos conjuntos vocais. É
> necessário muito estudo e não acontece de uma hora para outra. O
isolamento
> é necessário para estudar (João não fez/faz outra coisa a não ser estudar)
e
> todas as histórias à respeito de sua excentricidade (parece ser mais uma
> característica de gênios) partem daí. Gato que cometeu suicídio após
escutar
> João estudando determinada canção nove dias sem parar, cartas de baralho
> passadas por baixo da porta (Elba Ramalho conta esta) e tantas outras
> histórias risíveis, fazem parte do folclore criado ao redor do "mito".
>
> No mais, concordo com praticamente todos os nomes que voce e os demais
> sugeriram como sendo gênios, feliz o país que em dois dias de discussão
> sobre genialidade musical (e olhe que nem foi isto que o Paulo sugeriu, a
> pergunta era o que é preciso alguém fazer para ser gênio) consegue citar
de
> enfiada tanta gente, e com as mais variadas razões. Como prefiro não pecar
> pela omissão vou também concordando com todos que disseram que Yamandú não
é
> gênio, ah isto não é mesmo. Tenho uma antiga (não muito, claro) birra com
> este garoto. Espero o dia de sua redenção e que eu possa vir aqui
> publicamente dizer: gente, o Yamandú é um gênio!
> Isto me fez recordar de um guitarrista americano que muitos devem conhecer
> chamado Stanley Jordan, também muito jovem, possuidor de uma técnica
> radicalmente nova e exuberante foi incensado pela mídia mundial como sendo
> gênio. Fui assistí-lo no saudoso Jazzmania e saí de lá com vontade de
jogar
> meu violão no lixo, fiquei impactado! Hoje (nem é preciso requebrar) dou
um
> dôce para quem me contar alguma notícia do gênio Stanley Jordan :-)
>

O Stanley era um cara mecanicamente habilidoso, mas não criou técnica
nenhuma: ele se utilizou da técnica de fingertaps que Eddie Van Halen (outro
êngodo, na minha opinião um mero executor de escalas pentatônicas à
velocidade da luz) vulgarizou e que até o Hendrix já havia usado (aliás, não
me lembro de nenhuma técnica que esse cara não tenha usado, mas deixa isso
pra lá), em meados de 60...
O Stanley impressionava por fazer um jazz bem pop, acessível aos ouvidos
bastante embotados da geração 80, e com uma velocidade, limpeza sonora e
apuro bastante acentuados, principalmente para uma época onde o must era
Sisters of Mercy ... Não me recordo de nenhuma execução musicalmente,
esteticamente, memorável desse cara, em termos de beleza. Lembro, sim, da
velocidade. Na minha opinião, foi justamente olvidado.
E o Yamandu que não se cuide, pare de se apresentar chapado e que não
procure desenvolver a sutileza e a sensibilidade. Vai pro mesmo ralo, ou
pior, visto que vai prum ralo tupiniquim...

Grande abraço,
Fernando Toledo
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