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Re: Afinal de contas, quem é gênio?

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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From: Paulo Sergio (pspsp_at_abordo.com.br)
Date: sex 04 jan 2002 - 15:26:45 EDT

Fernando,

panglossianamente concordo com a outra mensagem :-)

Quanto a esta, pouco tenho a acrescentar, apenas esparsos comentários e uma
crítica ao Ruy Castro que nos fez perder, duplamente(Chega de Saudade e A
Onda que se Ergueu no Mar), a oportunidade de obter um pouco mais de luz
sobre o assunto.

o violonista Luis Didier, professor do João, e também o Mário Cravo, que
muito privou de sua companhia não se arriscam a fazer maiores comentários,
apenas afirmam que ele era obcecado por conjuntos vocais, brasileiros e
americanos. A maneira extremamente peculiar do João quando toca samba (sendo
o samba seu maior referencial, tudo que toca vira samba), a mão direita
fazendo com que as cordas sõem uníssonas, deixando a corda Mi solta,
práticamente usando-a para pequenos efeitos, o baixo soando constantemente
tum tum tum como nos conjuntos instrumentais, a melodia sendo exposta pelas
notas do meio do acorde, tudo isto nos remete aos conjuntos vocais. É
necessário muito estudo e não acontece de uma hora para outra. O isolamento
é necessário para estudar (João não fez/faz outra coisa a não ser estudar) e
todas as histórias à respeito de sua excentricidade (parece ser mais uma
característica de gênios) partem daí. Gato que cometeu suicídio após escutar
João estudando determinada canção nove dias sem parar, cartas de baralho
passadas por baixo da porta (Elba Ramalho conta esta) e tantas outras
histórias risíveis, fazem parte do folclore criado ao redor do "mito".

No mais, concordo com praticamente todos os nomes que voce e os demais
sugeriram como sendo gênios, feliz o país que em dois dias de discussão
sobre genialidade musical (e olhe que nem foi isto que o Paulo sugeriu, a
pergunta era o que é preciso alguém fazer para ser gênio) consegue citar de
enfiada tanta gente, e com as mais variadas razões. Como prefiro não pecar
pela omissão vou também concordando com todos que disseram que Yamandú não é
gênio, ah isto não é mesmo. Tenho uma antiga (não muito, claro) birra com
este garoto. Espero o dia de sua redenção e que eu possa vir aqui
publicamente dizer: gente, o Yamandú é um gênio!
Isto me fez recordar de um guitarrista americano que muitos devem conhecer
chamado Stanley Jordan, também muito jovem, possuidor de uma técnica
radicalmente nova e exuberante foi incensado pela mídia mundial como sendo
gênio. Fui assistí-lo no saudoso Jazzmania e saí de lá com vontade de jogar
meu violão no lixo, fiquei impactado! Hoje (nem é preciso requebrar) dou um
dôce para quem me contar alguma notícia do gênio Stanley Jordan :-)

Um grande abraço
Paulo Sá Pereira

"Sim, há alguns elementos do Dorival Caymmi no violão do João, mas não creio
que serviram mais para apontar possibilidades do instrumento do que para
catalisar a grande sacada do segundo. É muito difícil saber o momento do
"estalo de Vieira" do João Gilberto, pois, segundo sei, ele se isolou meses
e ficou fazendo experiências (com aquela obsessividade que lhe é peculiar)
com o instrumento. Pergunta: o cool jazz não o teria influenciado? Não me
recordo exatamente da cronologia, mas essa forma de jazz já era
conhecida/ouvida/divulgada à época? Muitos dos comentários que o João
insere, ao longo da execução, com sua mão direita mágica remetem (ao que me
parece) a certas intervenções do Miles, mas apreendidas e utilizadas a fim
de executar sambas. Estou equivocado?
E até mesmo uma composição gravada pelo Parker, chamada "The Gypsy" (linda!)
possui alguns elementos de contenção que podem vir a se relacionar com
alguns aspectos da bossa (e olhem que paradoxo, o cara que gravou, um
derramado absoluto! - aliás, esse aí não reluto em chamar de gênio, também).
Em tempo: sou absolutamente apaixonado por João Gilberto.
E deixo no ar uma pergunta nova: Dorival é gênio ou um grande mestre?
Composições como "O Vento", "Suíte dos Pescadores" e "O Mar" não possuem
elementos absolutamente novos? Não são linguagens à época inéditas?
E Luiz Gonzaga? Era gênio ou não era?
Vamos lá, gente!
Um abraço,
Fernando Toledo"
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