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Re: Afinal de contas, quem é gênio?

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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From: Fernando Toledo (fernandotoledo_at_hobeco.net)
Date: sex 04 jan 2002 - 10:09:15 EDT

Oi, Paulo,
> Fernando,
>
> para quem não conhece a poesia "séria" do Vinícius achei um link para
> Operário em Construção, vale a pena a leitura, podem ter certeza:

Você conhece a "Elegia N. 5"? É, talvez, o mais atípico dos poemas do
Vinícius, creio que de seu primeiro livro. Muito interessante.
Ah, sim, e quero pedir desculpas pelo bundalelê cerebral do qual fui
acometido ao final de minha última mensagem, trocando o Vinícius pelo
Drummond. Puxa vida, merecia uma boa sacaneada...:-)
>
> >>>>>Para variar, concordamos em parte. Sua abordagem do Concretismo em
> relação ao Tropicalismo me parece perfeita. A transgressão pela
> transgressão, é proibido proibir (claro, estávamos vivendo os "anos de
> chumbo") deveria ser a constante. Não foi por motivo diferente que o
> principal arranjador, um dos principais artífices do "movimento" foi o
> maestro Rogério Duprat, colega do Frank Zappa, do Damiano Cozzela, do
Júlio
> Medaglia e todos alunos do Stockhausen e Boulez, grandes transgressores. O
> momento pedia transgressão, não gosto é da estética do movimento (Carmem
> Mirandas estilizadas, "bananas ao vento" etc etc,) era justamente o que os
> americanos queriam ouvir naquela época, música feita por gente que vivia
na
> República das Bananas. Não se pode, entretanto, negar a beleza de algumas
> poesias de Caetano, Gil e principalmente do injustamente esquecido
Torquato
> Neto.
> Quanto à Bossa Nova, não vejo porque o Concretismo haveria de ali se
meter,
> pelo menos não lembro algum exemplo para citar. A letra de Barquinho é
> aquilo mesmo, a estética das letras eram aquelas mesmas, não precisavam
> dizer nada. Lembra do comentário anterior em que falava que o povo estava
> meio cansado de coisas tristes, dor de cotovelo? Então a bossa veio para
> falar de amenidades, barquinhos, florezinhas, tristezinhas e outras
> viadagenzinhas, mas que funcionavam perfeitamente quando acopladas à
música.
>
Quanto à Tropicália, concordamos (principalmente quanto à bananização e
chacrinização do movimento), e creio que não preciso dizer mais nada.
Quanto à bossa, realmente ela funciona de forma autônoma em sua primeira
fase (as composições como compartimentos estanques em relação ao grosso da
sociedade, falando de um mundo que lhe era alienígena, contudo de forma
artisticamente bem trabalhada), mas deve-se ter em mente que as letras
(vamos deixar o Concretismo de lado e falar do conteúdo) mudaram bastante
´(pelo menos em alguns compositores), depois daqueles encontros com o CPC
etc., mudaram um pouco de tom (exemplo: "Maria Moita", e, até mesmo, o mea
culpa clássico de "Influência do Jazz"). Mas acho que também já falamos
sobre isto por aqui.

> >>>>>Eu acho que voce tem razão quando diz que o Chico tinha mais
informação
> que a média dos compositores. Bem nascido no seio de uma família burguesa
e
> com instrução informal muito acima da média, Chico naturalmente poderia
ter
> feito e fez uma obra incontestavelmente bela, mas não creio que possamos
> chamá-lo de gênio. Pego carona no que escreveu o Daniel e a teoria do
Ezra,
> creio que Chico é um mestre. Na minha opinião gênio mesmo foi o
Aleijadinho.
> A minha opinião sobre gênio ser o João Gilberto tem um singelo fundamento:
> até hoje, ninguém, por mais que a este respeito tenham escrito, conseguiu
> decodificar como o João conseguiu sintetizar uma escola de samba (exageros
à
> parte) e fazê-la desfilar com apenas seis cordas. Quem foram seus mestres?
> Discordo do Eduardo Pimenta que tenha sido Dorival Caymmi. Quem ele ouvia?
> Em que momento o "estalo" aconteceu? Enfim perguntas que ficarão, pelo
menos
> por enquanto, sem resposta. Me entristece ouvir o Roberto Menescal dizer
que
> João "roubou" algumas camisas suas, na época em moraram juntos, e jamais
> devolveu. É de se perguntar ao Roberto Menescal se ele devolveu ao João o
> que ele lhe deixou? O próprio Roberto Menescal lhe deixou o João. Mas
também
> tergiverso. João quis ensinar, não deixaram, julgavam que já sabiam tudo;
> João quis dialogar, não lhe deram eco; não lhe restou alternativa a não
ser
> a clausura. Gênio, Mito, tantos adjetivos, tantas histórias, tantas
> invenções, João já não é há muito o músico que foi, mas merece o respeito
da
> mídia. Chega de verdades, como disse o Lobão :-) Para meditar: todo gênio
é
> superdotado, mas nem todo superdotado é gênio. Chico é superdotado :-)
>
Vamos fazer o seguinte então: o Chico não é gênio, mas é um mestre genial e
superdotado:-). Desta forma ficamos todos no melhor dos mundos, e quem nunca
foi Panglosss que atire a primeira pedra :-):-):-):-):-)
>
>
> >>>>Caramba, material farto para uma boa discussão? Vamos lá, prepare-se
:-)
>
Estarei por aqui, neste bat-canal, afiando o gume das metáforas:-)...

Grande abraço,
Fernando Toledo>
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