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Re: Afinal de contas, quem é gênio?Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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From: Alan Romero (nekredeble_at_yahoo.com.br)
Date: sex 04 jan 2002 - 06:07:25 EDT
Alô todos!
Sobre esta discussão sobre a genialidade a partir do fenômeno Yamandu, quero
acrescentar duas coisas.
Uma é o verbete sobre Gênio (pinçado em alguma enciclopédia) que capturei em
outra lista (a propósito de um outro assunto), mas que tem o mérito de citar
as definições de muitos filósofos e pensadores.
A outra é minha opinião pessoal sobre o Yamandu. O garoto toca bem e tem
talento, disso ninguém duvida. Agora chamá~lo de gênio julgo ser descabido.
Sinceramente, não consegui ainda captar essa genialidade que muita gente
atribui a ele de forma irracional. Ora gênio por quê? Como compositor,
intérprete ou arranjador? Músico tem que tocar música. E a música do Yamandu
ainda tem que evoluir muito para chegar no grau de apuro, expressividade e
bom gosto alcançado por gente como Raphael Rabello, Paulo Bellinati, Nonato
Luiz (só para citar alguns, dentre muitos e muitos outros) que merecem estar
no olimpo dos músicos "geniais" (isso para ficar no âmbito violonístico).
Agora se o garoto é performático e seus shows impressionam pelo gestual,
isso já é uma outra história, mas nada tem a ver com a música em si,
entrando no campo da teatralidade. Quando eu ouço um disco quero apreciar a
música pura, não quero saber se o cara está fazendo caretas, dançando ou
levitando. E os dois discos do Yamandu (para mim) estão longe de merecer o
título de geniais. Percebo uma grande ânsia de impressionar pela velocidade
e excesso de ornamento, mas virtuosismo não é isso. Em algumas faixas a
gente chega a perder o contato com a criação original, já que a melodia se
perde no meio de tantas escalas e ornamentos. Ele vai estar mais maduro no
dia em que souber destacar a melodia da harmonia.
Fui ver o garoto tocar naquele museu de São Cristóvão, louco para mudar de
opinião, já que ouvi tanto falar das famosas performances ao vivo e
bla-bla-bla. Ora, saí de lá com uma impressão ainda pior! Muita presepada e
pouca música. Emoção? Passou longe. Técnica violonística? Não me convenceu.
Escalas velozes só são bonitas se não perdem a clareza, nota por nota, tipo
Paco de Lucia. Eo Yamandu sai atropelando as notas, como se estivesse num
rally.
No tal show de São Cristóvão quem acabou por se destacar naturalmente, sem
fazer esforço, foi o Armandinho, este sim um virtuose incontestável, e o
Yamandu até que funcionou melhor como acompanhador (mas nada que se compare
ao Rafa!).
Agora, aqui entre nós, o que me impressionou sinceramente foi a quantidade
de cervejas que o garoto entornou, antes e durante o show! Apesar dos vinte
anos, ele bebe que nem gente grande!!! Isso certamente teve um impacto
negativo na sua performance. Alguém precisa dizer para ele maneirar,
emprestem uma biografia do Baden para ver se ele se assusta. Eu também adoro
uma cerveja, mas acho que o Yamandu exagera. Isso é uma ameaça concreta ao
seu futuro como artista. Desse jeito, corremos o risco de perdê-lo pelo
caminho, o que seria uma lástima para seu público que quer vê-lo desenvolver
seu pleno potencial.
Ainda estou dando o benefício da dúvida, já que acredito que talvez aquele
não tenha sido um de seus melhores dias. Espero voltar a vê-lo outras vezes,
e pegá-lo num dia inspirado. Sinceramente quero mudar de opinião! Mas ele
vai ter que me convencer é pela música. Vou guardar o adjetivo de gênio para
este dia, já que por enquanto no máximo ele está merecendo o título de
"revelação", o que não é pouco.
Nós, como público, temos que aprender a ser mais econômicos com esta
história de chamar qualquer um de gênio, senão vamos acabar perdendo a noção
da escala de valores. É uma forma de respeitar aqueles que deram prova
provada de verdadeira genialidade ao longo de suas carreiras. O Yamandu leva
jeito e poderá vir a nos surpreender no futuro com boa música (à altura do
Rafa e do Baden), mas vai ter que dar ainda muita pedalada. E não o
estaremos ajudando com esta onda de babação e puxa-saquismo que poderá
levá-lo a se julgar como um artista pronto e acabado e cristalizá-lo no
estágio atual. Ora, o que ele nos apresentou até agora é muito interessante
mas ainda é pouco. Ele tem talento e potencial para fazer muito melhor que
isso.
Bom, essa é minha opinião hoje sobre o Yamandu, no dia em que mudar de
opinião volto para fazer o elogio.
E segue abaixo o verbete sobre o Gênio.
Abraços
Alan Romero
~~~~~~~~~~~~
GÊNIO (ingl. Genius; franc. Génie; al. Genie). Desde a segunda metade do
séc. XVII entendeu-se com este termo (que originariamente indicava segundo
Varrão "a divindade que é preposta a cada uma das coisas geradas e que tem a
capacidade de gerá-las", S. AGOSTINHO, De Civ. Dei, VII, 13), o talento
criativo ou inventivo, nas suas manifestações mais altas. Já Pascal usa a
palavra com este sentido: "Os grandes gênios" - diz ele - "têm seu grande
império, seu esplendor, sua grandeza, suas vitórias, e não precisam das
grandezas carnais que não têm relação com aquilo que eles procuram"
(Penseés, 793). E La Bruyère dizia: "É menos difícil que os grandes gênios
dêem em coisas grandes e sublimes, do que evitem toda espécie de erros"
(Caratères, 1687, cap. I). A estética do séc. XVIII reduziu a noção de G. ao
domínio da arte. Kant (que provavelmente se inspirou em uma obra inglesa de
GERARD, Essay on Genius, 1774) defende este ponto de vista. "O talento de
descobrir" - diz ele - "chama-se gênio. Mas este nome dá-se só ao artista,
isto é, àquele que sabe fazer alguma coisa e não àquele que conhece e sabe
muito; e o nome de gênio não é dado ao artista que imita somente, mas àquele
que é apto a produzir de modo original sua obra; e enfim é dado só quando
seu produto é magistral, isto é, quando merece, como exemplo, ser imitado"
(Antr., § 57). Este é o sentido da definição de G. que Kant dá na Crítica do
Julgamento como de "talento (dom natural) queda regra à arte". Como talento,
o G. foge a qualquer regra; mas como criador de exemplares distingue-se de
qualquer extravagância. Essa é a natureza porque não age racionalmente; e é
natureza que dá regra à arte. Kant observa que justamente por causa destas
últimas características "a palavra G. foi derivada de genius que significa o
próprio espírito de um homem, aquilo que lhe foi dado com o nascimento; o
homem é protegido, dirigido por ele de cuja sugestão provêm aquelas idéias
originais" (Crítica do julgamento, § 46). Este ponto de vista era aceito por
Schopenhauer que, considerando a arte como a visão das idéias que são a
primeira "objetivação" da vontade de viver, vê na própria arte a "pura
contemplação" e por isso a essência do G. na preponderante aptidão a tal
contemplação. "Visto que esta" - diz ele - "requer um esquecimento total da
própria pessoa e de suas relações, acontece que a genialidade é a mais
completa objetividade, isto é, a direção objetiva a qual tende à própria
pessoa, isto é, à vontade". Por conseguinte, enquanto para o homem comum o
patrimônio cognoscitivo é "a lanterna que ilumina o caminho" para o G. ele é
"o sol que revela o mundo" (Die Welt, I § 46). Estas notações de
Schopenhauer constituem uma contribuição para aquilo que poderíamos chamar o
culto romântico do gênio. Obviamente este culto não se limita ao G.
artístico. Fichte mostrava já a conexão do G. com a filosofia. A
inventividade do filósofo requer "um obscuro sentimento da verdade" e este
sentimento é exatamente o gênio. Fichte observa que também se um dia a
filosofia, progredindo, chegasse até o ponto de conter uma "teoria da
invenção, não seria possível alcançar tal teoria se não por meio do G."
(Werke, ed. Medicus, I, p. 203). Fichte reconheceu ao G. as mesmas
características que Kant lhe havia atribuído: a inventividade e o caráter
natural. O G. "é um favor especial da natureza, que não se pode explicar
ulteriormente" (Ibid., ed. Medicus, III, p. 92; cfr. PAREYSON, A estética do
idealismo alemão, I, pp. 333 e segs.). O obscuro sentimento da verdade, que
Fichte atribui ao G. faz dele aquilo que Frederico Schlegel chamava de
"mediador entre o infinito e o finito", isto é, aquele que "percebe em si o
divino e, anulando-se, dedica-se a anunciar este divino a todos os homens, a
participa-lo e representa-lo nos hábitos e nas ações, nas palavras e nas
obras" (Ideen, 1800, § 44). Schelling reafirmava porém, com Kant, que o G. é
sempre e somente estético; mas ao mesmo tempo fazia da intuição estética o
órgão próprio da filosofia e em geral da ciência. O G. é portanto o absoluto
que se revela ao homem e não pertence só a uma arte do homem (Werke, I, III,
pp. 618 e segs.). Hegel por sua vez dizia que a palavra G. era empregada
para designar não só os artistas mas também os grandes capitães e os heróis
da ciência (Vorlesungen über die Aesthetik, ed. Glokner, I, p. 378); mas
para ele mesmo reservava o vocábulo especialmente aos artistas, definindo o
G. como "a capacidade geral de produzir autênticas obras de arte acompanhada
pela energia necessária para realiza-las" (Ibid., p. 381). E na realidade
aqueles que Fichte chamava de "doutos" ou de "videntes" (cfr. Vorlesungen
über die Bestimmung der Gelehrten, 1794), Hegel de "indivíduos da história
cósmica" e outros de heróis (veja-se também este verbete no Dicionário de
Filosofia de N. ABBAGNANO) são simplesmente expressões diferentes do mesmo
conceito que, no domínio da arte, o Romantismo indicou com o termo G.: isto
é, encarnação do Infinito no mundo; mediadores (como dizia Schlegel) entre o
finito e o Infinito, instrumentos da realização ou da revelação do Absoluto.
O próprio Kierkegaard, que por muitos aspectos pode ser considerado um
antagonista do Romantismo, partilhou este conceito do gênio. "O G." - disse
ele - "é um An-sich onipotente que como tal quereria sacudir o mundo
inteiro. Para salvar a ordem nasce por isso junto com ele outra imagem: o
destino. Mas o destino é um nada; porque é ele o mesmo que o descobre e mais
profundo é o G. e mais profundamente o descobre; porque aquela imagem nada é
senão a antecipação da providência" (Der Begriff der Angst, III, § 2; trad.
Fabro, p. 123).
O conceito de G. conservou-se na cultura contemporânea com estas
características românticas. Nem a aproximação entre G. e cultura tentada por
alguns antropólogos e particularmente por César Lombroso, subtraiu-lhe estas
características. Esta aproximação era baseada sobre a consideração dos assim
chamados "fenômenos regressivos da evolução" pelos quais a um
desenvolvimento muito avançado em uma certa direção acompanha-se na maioria
das vezes uma parada nas outras direções. Lombroso julgava por isso
encontrar formas mais ou menos atenuadas de loucura ou de perversão nos
indivíduos geniais (G. e degeneração, 1897); mas com isso a realidade do
mesmo conceito, que com certeza era pressuposta, não revogava a dúvida. De
outro lado, quando Bergson no fim das Duas fontes da moral e da religião
(1932) auspicia a chegada de um "G. místico" que possa "arrastar atrás de si
uma humanidade com um corpo intensamente crescido" vê neste G. a encarnação
ou realização daquele élan vital que é o próprio princípio do mundo (Deux
sources, IV; trad. Ital., pp. 343 e segs.). Como todo G. romântico, também o
G. preconizado por Bérgson é uma encarnação do absoluto no mundo. Todavia,
Kant já havia advertido o perigo inerente no uso deste conceito que parece
dispersar alguns homens da aprendizagem, da pesquisa e dos deveres comuns; e
havia posto o problema se contribuem mais para o progresso efetivo do homem
os grandes gênios ou "os cérebros mecânicos" que se apóiam na bengala da
experiência (Antr., § 58).
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