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A Geração Sem História

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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From: Everaldo Silva (everaldo.fersil_at_uol.com.br)
Date: sex 04 jan 2002 - 00:19:20 EDT

Prezados,

Nessa época, o pessoal costuma falar sobre os melhores cds ou músicas do
ano passado. Peço licença para, mesmo sob a condenação da rapaziada que
odeia pseudônimos (eu, sinceramente, privilegio o argumento), reproduzir o
que considero a mais interessante mensagem ("A Geração Sem História")
enviada em 2.001 (19/06).

"Caros Amigos,

Sem história pois limitou-se a contá-la ao invés de fazer a sua.
Vejo alguns problemas nesses chamados movimentos de Samba. Primeiro que
ele
se limita a preservar a memória e a obra de maravilhosos compositores, o
que
é bom, mas com isso tentam conseguir um aval para suas próprias
composições.
Canso de ouvir sambas feitos nos moldes dos geniais compositores que,
devem
ser preservados, mas não copiados. É um tal de Iaiá e Ioiô absolutamente
desnecessário, assim como o tal "Oh mulher". A idéia errada de que para
ser
bom tem de ser antigo ou parecido com o antigo. Gostaria de ver criações
originais e nesse passo cito um compositor novo chamado "Caio Prado". Um
trabalho mais efetivo e consistente na harmonia, na melodia e na letra. Os
compositores que são referência e que são citados a todo momento, são
figuras e obras originais que registraram seu tempo sob seu prisma e sua
poética, com os termos e gírias do seu tempo e por isso estão cada vez
mais
vivos e mais atuais. Um registro do que mudou e um alerta para o que não
mudou. Me cansa ver o competente quinteto perpetuando o preconceito do
samba
de chapéu de palha e sapato bicolor. Uma ingênuidade. Vira folclore.
Reclamo uma produção atualizada com os nossos dias e isso não quer dizer
modernizar. A última vez que tentaram modernizar o samba deu funk, balada,
rock, sambanejo, maracatú, enfim, deu de tudo menos Samba que é síncope,
surdo tamborim e um abraço. Tô falando de letra, tema, harmonia etc.
Outra coisa:
Será que na quadra da Portela havia na parede pinturas de Noel, Sinho,
Ciro,
Moreira, Wilson Batista? - Não. Não havia pintura nenhuma mas se houvesse
seria de Candeia, Monarco, Paulinho, Casquinha, Paulo da Portela etc. Um
falava do outro cuidava do outro, faziam sua história. Gostaria de ver
isso
acontecendo. Paqüera falando de Caio Prado, Caio falando de Seu Zezinho do
Banjo etc.
Todos os compositores que estão pintado por aí têm muito talento mas por
enquanto o estão utilizando para tentar copiar bem Cartola, Nelson,
Paulinho, Monarco, Candeia etc. O que os tornarão simplesmente bons
imitadores nunca melhores que os originais. Cantar a aldeia para ser
universal. É básico. Também gosto de choro mas hoje prefiro falar de
Maurício Carrilho, Afonso Machado, do que de Jacob, mito, incontestável.
Guinga, Aldir... tá aí uma combinação que deu Samba novo, que pode ser
chamado pelo preconceituoso termo "Raiz", se vocês quiserem. Vão ficar pra
sempre.
Tocam surdo com a referência do Cabelinho, do Gordinho, até seguram a
baqueta do mesmo jeito! Pra que isso gente boa?
Ouçam Germano Mathias e vejam como o Samba Paulista era tocado, como era a
batuca. Muito diferente e com muito rítmo, um pouco mais rápido e com uma
marcação muito bacana. É uma referência estranha pois se renderam aos
Sambistas do Rio que sempre falaram de Sambistas do Rio, que sempre
cantaram
Compositores do Rio e que fizeram tanta história, tanta história que
passaram a ser fonte constante de inspiração e consulta. Longe de mim o
bairrismo. Estou falando do buraco mais embaixo. Se não registrarmos a
nossa
história, o nosso tempo, o nosso ponto de vista e as alterações que
conseguimos promover, nossa história será não ter produzido nada. Fizeram?
-
Fizeram!. Registraram, cantaram, contaram? - Não!
Essa devoção aos grandes compositores consagrados está levando as novas
gerações a uma subserviência desnecessária.
Se os chamados movimentos têm cunho social, ou político não interessa. Os
grandes compositores nunca se valeram dessas ferramentas para criarem
obras
imortais. Nossa geração tem o argumento mas não a produção. Imagino que
quando o Sambista conseguir se considerar um Artista com tudo o que a
classificação envolve, ao invés de um malandro de sapato bicolor, alguma
coisa mude.

Grande Abraço a todos
Zumbido, com suas negrices... "

Abraço,

Everaldo

#Mensagem modificada, anexos e HTML removidos#
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